Quinta-feira, 30 de Outubro de 2014
O gramático e a corrupção

[...] Em Portugal eles dizem corruto, enquanto que em português do Brasil nós dizemos corrupto. Então, acontece que aí são duas formas que vigem [sic] na língua. Agora, quando em Portugal escrevem director com c e nós escrevemos director sem c, aí apenas há uma duplicidade sòmente de grafia [apenas sòmente — caramba!...]

(Evanildo Bechara, 1.ª audiência do Senado brasileiro sobre o Acordo Ortográfico, 21/X/14, apud I.L.C., 30/X/14.)

 O Bichara é muito, muito velho. Ele ainda se lembra de em Portugal se dizer kurruto (e kurrussão, kurrutamente, kurrutéla, kurrutibilidáde, kurrutível, kurrutôr e o mais que houvesse). A 1.ª edição do Aulete, de 1881, atesta-o inequìvocamente (cf. vol. I, p. 412).

 O que ele não aprendeu foi (lá diz o adágio, burro velho &c.) que o p etimológico de corrupção levou um coice na reforma de 1911, tal como o c de victoria, por os portugueses o não pronunciarem nem ter ele valor diacrítico — ii e uu não variam de timbre, logo, foram aquelas consoantes dispensadas.

 E mais. Que o p de corrupção tornou a ser escrito em 1945 por, justamente, se dizer no Brasil. A regra era simples: se nalgum dos países se pronunciava, todos escreviam. O caso é exemplar em muitos sentidos. Nunca os portugueses haviam na sua história dito o p de corrupção (embora o escrevessem pelo menos desde a 1.ª ed. d' Os Lusíadas, pois que é palavra erudita); desde 1945 acabámos a pronunciá-lo sempre, por retorno da ortografia sobre a oralidade. Dá que pensar que foi de 1945 para cá que ocorreu o maior incremento de alfabetização em Portugal…

 Da mesma maneira, mas invertendo os termos, se tirarmos o c ou p com valor diacrítico de palavras menos correntes na oralidade que se aprendem tantas vezes da leitura: — peça-se a um portuguesinho na rua para ler adjeto, calefator, electroviral, idioleto, inadotável, genufletir, notívago, socioleto e adivinhem o que se ouvirá…

 No estádio em que estamos, com leitores alfabetizados de meninos e em que vasto vocabulário se adquire da leitura (muitas vezes só da leitura), haveis de ver o que sucederá. A corrupção por inteiro demonstra o paradigma.

(Os Lusíadas, poema epico de Luis de Camões. Nova edição correcta e dada á luz, por Dom Iozé Maria de Souza-Botelho, Morgado de Matteus, socio da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Paris, na Officina Typographica de Firmin Didot, Impressor do Rei e do Instituto. M DCCCC XVII.)

(Os Lusíadas, poema epico de Luis de Camões. Nova edição correcta e dada á luz, por Dom Iozé Maria de Souza-Botelho, Morgado de Matteus, socio da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Paris, na Officina Typographica de Firmin Didot, Impressor do Rei e do Instituto. M DCCCC XVII.)

(Revisto às oito e vinte e cinco de trinta e um.)



Escrito com Bic Laranja às 23:22
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Quarta-feira, 29 de Outubro de 2014
Ai o papão!

Álvaro Matos apud C.M.L. -- pág. oficial no livro das fuças.

 Ahahahahaha!
 Que medo, o Estado Novo, uuuu! Só o refere com aspas e com um «autoproclamado» a servir-lhe de couraça. Este Álvaro de Matos mais valia enfiar-se num escafandro antes de dizer Estado Novo, credo!
 Aprenda a redigir, homem! «Autoproclamado» não leva hífen e referir o regime do Estado Novo entre aspas é tão estúpido como escrever o próprio nome assim, ó «Álvaro de Matos»!
 Ao depois, essa subtileza do «autoproclamado» é mais óbvia do que dizer abertamente «o fassismo». Não seja covarde, home'! Assuma o marxista que lateja em si e crisme de peito feito como um verdadeiro «antifassista» o regime do Estado Novo! -- Fassismo! -- Vá! De que se envergonha?...
  Ah pois! Foi esse regime que diligentemente soube publicar ininterruptamente a sua preciosa Revista Municipal, não foi...?
 E depois foi o que se sabe...



Escrito com Bic Laranja às 23:09
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Halloween

  À parte alguns topónimos cujo significado se perdeu (*), intriga-me a falta de substrato autóctone pré-romano no nosso falar português. Quinhentos anos de romanização foram tão eficazes em delir o que havia antes que mais parecem ter assentado sobre uma tábua rasa. Ora mesmo salvaguardando as diferenças nem os canibais do Brasil foram em tal período tão completamente aculturados; a sua linguagem, a marca mais enraizada da cultura dos povos, persiste. Pois a romanização nas Hespanhas, salvos os Vascões, foi temporã e pràticamente total. Cuido que tal fenómeno se não pudesse ter dado sem voluntarismo dos autóctones. Os ibéricos hão-de ter-se empenhado em romanizar-se; não que fossem vazios culturalmente -- não há povos assim -- mas porque desprezaram os seus modos em favor dos dos novos senhores, até (e principalmente) no falar, esquecendo quase tudo o que eram.
 Bom, esta maneira de se a gente despir do que é para se tornar estrangeira configura algo pior que o vazio cultural: é o vaziozinho da fraqueza mental dos indivíduos que colectivamente se afirmam (mas que prestes se deixam de afirmar) como um povo. A romanização fez-se, pois, assim: com autóctones vaziozinhos intelectualmente, sequiosos a absorver o que primeiro se lhes apresentava...

Haloween


(*) Uma reflexão à parte: Iberus (=> Ebro) é o nome latino do rio que se estendeu à terra por onde corria: Ibéria. Acontece amiúde. -- Cuido que vem do Estrabão [Avieno] que o rio Tejo se chamara primitivamente Lysos, ou Lusos. E o Guadiana era o Anas. Vamos lá se com dois topónimos ibéricos Lysos et Anas não formaram os romanos o nome duma província mais longínqua, no outro lado da Ibéria...



Escrito com Bic Laranja às 12:55
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Segunda-feira, 27 de Outubro de 2014
O Brasil também acabou

 Deu hoje no canal da Memória um episódio dos Horizontes da dita gravado no Rio de Janeiro no fim de 2000. Não quis então o prof. Hermano Saraiva, conforme explicou, deixar passar os 500 anos do Brasil sem ir ao Rio de Janeiro, a única capital que o reino de Portugal jamais teve, à parte Lisboa. O prof. Saraiva fez o programa no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro e mostrou-nos, das suas preciosidades, uma rara 1.ª edição d' «Os Lusíadas» e o manuscrito do «Amor de Perdição», do próprio punho de Camillo. E conclui entretanto em tom grave e sincero: -- «Não há dúvida que nós demos ao Brasil tudo quanto tínhamos de melhor.»

Manuscrito do «Amor de Perdição» (R.T.P., 2000)

 Pois tem nestes dias andado o senado do Brasil Sítio do Pica-Pau Amarelo a debater acesamente a cacografia que enfiou há meia dúzia de anos pelas goelas de Cavaco1. Agem por lá como se Portugal nada fosse e o idioma só a si lhes pertencesse. Fazem-no já por atavismo tropical: uns por ensimesmada ignorância, alguns mais por despeitada malevolência; todos, sem noção de o português propriamente dito se formular sem próclises nem endorreia e todos eles, ainda assim, danadinhos por «melhorar» o cânone irracional da escrita.
 A tristeza daquela gente não é já só precisar de adaptar os Maias do Botelho; é ter de traduzir de si para si o próprio Machado de Assis.

Horizontes da Memória (R.T.P., 2000)

 


1 «Quando fui ao Brasil em 2008, face à pressão que então se fazia sentir no Brasil, o Governo português disse-me que podia e devia anunciar a ratificação do acordo [ortográfico], o que fiz.» Cavaco Silva sobre o seu papel na ratificação do Acordo Ortográfico («Cavaco elogia Acordo Ortográfico mas confessa que em casa ainda escreve à moda antiga», Público, 22/V/2012).

Imagens: José Hermano Saraiva, «Nos 500 anos do Brasil», Horizontes da Memória, R.T.P. Memória, 27/X/2014 (emitido originalmente na R.T.P. 2 em 10/XII/2000.)



Escrito com Bic Laranja às 23:08
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Domingo, 26 de Outubro de 2014
Variedades: Joe Dassin


Joe Dassin, Salut
(1976)



Escrito com Bic Laranja às 21:30
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Sábado, 25 de Outubro de 2014
Rotunda da Avenida

Rotunda, Lisboa (J. Benoliel, 1917)

 Rotunda, 1917. De ante, o quarteirão da empreza chineza (vulgo E.D.P.) que nos vende a electricidade das nossas barragens; terras do conde de Sabrosa vendidas às Companhias Reunidas do Gaz e Electricidade em 1938 ou 39. O palacete dava frente para a Av. de Fontes Pereira de Mello, que parte da Rotunda (á esquerda na imagem); as cocheiras ficavam no canto opposto da propriedade, na embocadura da Av. Duque de Loulé; de ante ellas, na esquina opposta, uma casa apalaçada onde esteve o Club Militar Naval.
 Cuidei que a malta alli na Rotunda devesse ir em commicio ou em cortejo funebre, mas não...

(Photographia de Joshua Benoliel, in archivo photographico da C.M.L.)



Escrito com Bic Laranja às 21:45
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Quarta-feira, 22 de Outubro de 2014
Do anticiclone ao salmonete

 A resolução n.º 58/2014 do conselho de ministros (D.R. 203/2014, I.ª Série, 21/X/2014) autoriza o Instituto Português do Mar e da Atmosfera a comprar um navio com capacidade de posicionamento dinâmico, para operações de arrasto científico e da pesca...

 Quando dei pelo mar e a atmosfera tomarem o lugar da Meteorologia e da Geofísica no Instituto de coiso bem entrevi um certo (como hei-de dizer) arrasto científico. Mas achá-lo, por fim, aproado às artes da pesca não me havia de alembrar. Falha-me porventura capacidade de posicionamento dinâmico.

Lego 4005-1 (1982)
Lego 4005 (1982).



Escrito com Bic Laranja às 23:31
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Segunda-feira, 20 de Outubro de 2014
Pateo das Aguias

 Tenho notado ultimamente alguma freguezia que me cá chega ao Pateo das Aguias reencaminhada do livro das fuças. Não lhe sei origem mais detalhada, nem o interêsse que a move...
 Segundo me em tempo contaram, foi o Pateo das Aguias parece que um alfobre de jornaleiros ardinas e de futebolistas -- alguns d'elles de nomeada -- tipos lisboetas de bairro bem caracteristicos até pouco mais de meado do séc. XX. Depois d'isso, quem sabe... -- Encarrapitava-se este pateo alfacinha no Alto do Pina, bem ao cimo da Calçada da Ladeira, no seu lado S, confrontando-lhe o portal para a primitiva Rua do Garrido. Na voragem demolidora da Calçada da Ladeira, aquando da feitura da Alameda de Dom Affonso Henriques nos annos 40, foi-se o Pateo das Aguias e os seus habitantes houveram-se de mudar de bairro. Não foram, porém, para longe d'ali...
 Uma planta d'este pateo alcandorado no cimo da moderna Alameda, á Rua do Barão de Sabrosa, foi o melhor que me appareceu no esgravatar d'estas novidades antigas que então emprehendi. Escapou-me entretanto o pormenor d'uma photographia de Eduardo Portugal de Dezembro de 42, que o mostra  visto de fora, decadente, mas com feição completa, firmemente encastellado ainda no cume esventrado do Alto do Pina.
  Bom, mas por ora, prima o benevolo leitor, se fizer favor, a imagem se quizer ver melhor o enquadramento.


Pateo das Aguias, Alto do Pina, 1942.
Eduardo Portugal, in archivo photographico da C.M.L.



Escrito com Bic Laranja às 17:00
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Natal é quando o commercio quizer

 N'um paiz em que se tudo faz em cima do joelho, vejo agora armarem luzes de Natal pela Alameda e Av. Almirante Reis. Vamos em meio de Outubro...

Terraplenagem da Alameda Dom Afonso Henriques, Lisboa (e. Portugal, 1938)

Terraplenagem da Alameda, Lisboa, 1938 (Outubro).
Eduardo Portugal, in archivo photographico da C.M.L.



Escrito com Bic Laranja às 16:31
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Domingo, 19 de Outubro de 2014
Drogaria Ferreira, casa fundada em 1755





Photographias: Rua dos Condes 2-18, Lisboa, c. 1900; Alberto carlos Lima, in archivo photographico da C.M.L.



Escrito com Bic Laranja às 13:59
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Photographo em serviço

 Confrontar com o photographo compondo o ramalhete. N' aquell' outra pareceu-me Almada Negreiros; n'esta nem tanto. N' aquell' outra não identifiquei o lugar. Sei agora que é a Rua dos Condes: ao fundo o Atheneu Commercial; á esquerda a Drogaria Ferreira, casa fundada em 1755; ante o photographo, com certeza o objecto do seu trabalho, o cinema Olympia.

Photographo em serviço, Rua dos Condes (J. Benoliel, c. 1912)

Photographo em serviço na Rua dos Condes, Lisboa, c. 1912-13.
Joshua Benoliel, in archivo photographico da C.M.L.



Escrito com Bic Laranja às 13:45
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Quinta-feira, 16 de Outubro de 2014
Get smart

Como seria estupido dizer-se «telephone esperto» gente intelligente vem e diz «smartphone».


(Imagem na 2.ª parte da Arte da Articulação.)



Escrito com Bic Laranja às 18:16
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Quarta-feira, 15 de Outubro de 2014
Portugal e o enxugo

 Drenagem é gallicismo, é novecentista. Ramalho usou-o certa vez...
 Referindo-se aos campos (e do mesmo modo, porque não, a cidades...) os nossos antigos -- incluindo alguns engenheiros do fontismo [melhor, da Regeneração] -- diziam enxugo por drenagem. No Ribatejo, terra alagadiça, recordar-se-hão por ventura de o ainda dizer em referindo-se ao reverso das cheias na leziria. Em redacções de jornaes ou na Camara Municipal do Intendente comprova-se hodiernamente que nada d'isso, nem pensar! Pior: nem com drenagem vamos lá. A cavalgadura que (diz-se) preside ao municipio, nem o modo conjunctivo dos verbos parece capaz de usar...

Segundo o socialista, «não haverá nenhum systema de drenagem que permittirá [i.é que permitta] evitar situações deste genero» (Antonio Costa: «Não existe solução para as cheias em Lisboa», in R.R., 14/X/2014 -- graphia adaptada.)

 Emfim, a ramalhal figura valeu-se da drenagem em 1888 (carta a Emilia de Castro) para referir o caso clinico de esvaziar um furúnculo ou algo assim... Sobra-nos porém d'aquelle Costa que, não havendo entupimento, se nos aggravará o caso com o problema dos vasos communicantes...
 Uma gaita, onde o enxugo irá parar!...

Innundações na Av. 24 de Julho, Lisboa (J. Benoliel, 1945)
Innundação, Av. 24 de Julho, 1945.
Judah Benoliel, in archivo photographico da C.M.L.

(Revisto ás sete e um quarto da tarde.)



Escrito com Bic Laranja às 11:50
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Terça-feira, 14 de Outubro de 2014
Piscina dos Olivaes

 Obra municipal do tempo do Estado Novo votada ao abandono por vereações democraticas empenhadas em metter agua de maneira mais estrondosa.

Piscina dos Olivaes, Lisboa (Estúdio de Horácio de Novaes, post 1967)
Piscina dos Olivaes, Lisboa, post 1967.
Estúdio de Horácio de Novaes, in bibliotheca d' arte da F.C.G.



Escrito com Bic Laranja às 14:28
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Segunda-feira, 13 de Outubro de 2014
Problema de inundações

Carro a atravessar a ria, Aveiro (A. Pastor, c. 1952)Carro no meio da ria, Ria de Aveiro, c. 1952.
Artur Pastor, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.



Escrito com Bic Laranja às 17:21
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