Capela de N. Sr.ª de Sant' Anna no Vale de Alcântara, Lisboa, c. 1940.
Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
O lugar de Sant' Anna no vale de Alcântara foi obliterado pela Av. de Ceuta e pelo encanamento da ribeira. Teve (com o seu mui vizinho lugar da Vila Pouca) ocupação no Paleolítico Médio, imaginai -- andou por ali o Homo Neanderthalensis muito antes do seu zénite civilizacional na passada sexta-feira, já do outro lado monte, nas abas da calçada da Estrela...
S. Exc.ª o Presidente da República Portuguesa convocou o Conselho de Estado para hoje. O presidente do arquipélago dos Açores tem assento no Conselho de Estado da Repúblia Portuguesa, mas não vem porque hoje é dia dos Açores.
Mercado de Abril, Belém, 1960-69.
Artur Pastor, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
« No dia 19 de Maio de 1963 (domingo) é inaugurada a carreira 42 de autocarros, que substitui o serviço da carreira 18A assegurando ainda a ligação ao Bairro da Madre de Deus.
A partir de Alcântara-Mar, esta carreira circula pela Rua do Cais de Alcântara, Rua Vieira da Silva, Largo de Alcântara, Rua Maria Pia, Rua do Arco do Carvalhão, Rua de Campolide, Rua Marquês de Fronteira, Avenida Duque de Ávila, Arco do Cego, Avenida Rovisco Pais, Rua Visconde de Santarém, Largo do Leão, Rua Pereira Carrilho, Praça do Chile, Rua Morais Soares, Alto de São João, Avenida Dom Afonso III, Rua da Madre de Deus, Rua de Xabregas, Calçada de Dom Gastão, Calçada do Grilo e Rua Dom José de Bragança até ao Largo da Madre de Deus, onde efectua terminal. No sentido inverso, entre Alcântara e Alcântara-Mar circula pela Rua das Fontainhas e Rua da Cozinha Económica.»C. Filipe, A minha página Carris.
Autocarro [42 ?], Rua da Madre de Deus antes da Cruz da Pedra, 1968.
Fotografia do Arquivo Fotográfico da C.M.L..

Vista aérea do B.ª da Madre de Deus a Alvalade (adaptação), Lisboa, c. 1955.
Mário de Oliveira. Arquivo Fotográfico da C.M.L., A24574.
Legenda:
A – Quinta dos Machados ou do Dr. Villaça (em sombreado); B – Quinta dos Machados (casal da mesma quinta, além do caminho de ferro, onde se vendiam ovos).
1 – Casa do Dr. Villaça (o «convento»); 2 – Caminho da casa desde a Calçada da Picheleira (actual R. Faria de Vasconcelos); 3 – Convento de Chelas; 4 – Horta da Maruja (onde o Metropolitano passa o viaduto e se enfia debaixo do chão da Quinta do Armador ou vice-versa); 5 – Quinta do Armador; 6 – Quinta das Olaias; 7 – Casal do Monte do Coxo; 8 – Areeiro; 9 – Bairro da Picheleira (antiga quinta do/da Porciúncula ou Casal dos Ladrões); 10 – Bairro da Madre de Deus.
Pois é! Quando o estudo é apressado, a lição vem mal sabida.
Quando me apressei a publicar «O convento» há dias, entusiasmado com uma fotografia de meia casa do Dr. Villaça, estudei mal os mapas do Levantamento da Planta de Lisboa (1904-1911) e saiu-me a afirmação descuidada de que para trás (Norte) confrontava esta quinta do Villaça com a dos Machados e esta por sua vez com a das Olaias...
Errado!
A Quinta do Villaça era a dos Machados. Já o lá emendei -- os mapas 12L, 13L e 13M são claros; em todos eles vem escrito Quinta dos Machados ou Quinta do [Dr.] Villaça.
Bom! Pegando na vista aérea dos anos 50 que mostra esta quinta e muito mais, a quinta dos Machados era mais ou menos como se tira da imagem adaptada. Mas, e quem foi o Dr. Villaça?...
No arquivo da C.M.L. acha-se um processo com sugestiva descricção -- Planta de alargamento e rectificação da calçada da Picheleira até à calçada do Teixeira, aprovado em sessão de Câmara de 11 de Fevereiro de 1904. A planta indica o terreno pertencente a Teodolinda Amélia Cristina Leça da Veiga Vilaça que cedeu gratuitamente para a via pública e a que se refere o seu requerimento designado pelo nº 8510, que se encontra em anexo (PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/09/02841). Mesmo sem consulta aos documentos, a pista é óbvia.
Theodolinda Amelia Christina Leça da Veiga Villaça (ant. 1840 - ?) filha do comendador José Manoel da Veiga (*) (1794 - 1859) e de D.ª Maria Dorotheia da Veiga. Casou em 1860 na igreja de S. Bartolomeu do Beato com António Augusto de Sousa Azevedo Villaça (1830 - ? ) e era viva em 1904, a depreender do que consta no arquivo municipal. Teve uma filha, Joana Augusta Christina da Veiga Villaça (1862 - ?) que casou em 1886 com Augusto Cesar de Sousa. Viveu D. Theodolinda com seu marido na R. da Boa Vista 91, 2.º, freguesia de São Paulo, onde baptizaram a filha. Mudaram-se para a quinta dos Machados em data incerta («Genealogia de Reis de Lima Chaves», in My Heritage). Especulando eu, talvez entre a data do falecimento do pai (1859) e o nascimento de sua filha (1862).
É verosímil que Quinta dos Machados fosse propriedade do pai de D.ª Theodolinda, o comendador José Manoel da Veiga, deduzindo de que se casou ele, tal como a filha veio a casar-se, na igreja do Beato, por ventura a paroquial mais chegada ao lugar da quinta. Não excluais porém a hipótese de a quinta vir à mão do Dr. Villaça sem ser pelo casamento com D.ª Theodolinda. Certo, certo, de toda a maneira, é que o nome de Villaça veio à quinta dos Machados por via do marido de D.ª Theodolinda, o bacharel de Direito António Augusto de Sousa Azevedo Villaça, dos Villaças da Rua do Terreiro em Barcelos (que é hoje a residência do D. Prior de Barcelos). Comendador, fidalgo da Casa Real, juiz de 1.ª Instância e advogado em Lisboa, o Dr. Villaça foi administrador do 2.º Bairro (**) da cidade de Lisboa (cf. António Júlio Limpo Trigueiros, «Família Leal Gonsalves e Barroso da Veiga», Geneall.net, 10/3/2003).
D.ª Theodolinda publicou em Lisboa, em 1857, os Elementos de instrucção moral para uzo da Mocidade Portugueza. Dedicados a sua Alteza, a Senhora Infanta D. Maria Anna (Lisboa, F.X. Sousa, 1857). Innocencio faz-lhe menção no Diccionario Bibliographico Portuguez, bem assim como às obras de seu pai, Dr. José Manoel da Veiga. Deduzo que sr.ª D.ª Theodolinda tenha servio na Casa Real...
Nada achei sobre a origem do nome dos Machados. Imagino se haverá alguma ligação ao visconde de Benagazil, da família dos Machados, e abastado proprietário e negociante grossista com quinta na Portela...
Apesar da menção ao Dr. Villaça nos mapas do Levantamento da Planta de Lisboa (1904-1911), o nome da quinta dos Machados foi mais perene. Mas até ele se perdeu. Há tempos o sr. do café dizia-me com raro acerto que o nome da Encosta das Olaias era um engano; que as Olaias assentavam em chão doutra quinta: a dos Machados. É só meia verdade, mas é extraordinário que ele o soubesse. O centro comerccial das Olaias e o clube estão, de feito, nas terras da Quinta das Olaias. Todavia o bloco do lado par da Rua Arantes de Oliveira, a Escola das Olaias e os prédios novos dos anos 70 nas franjas ao norte da Calçada da Picheleira estão no perímetro da esqueccida quinta dos Machados. E mais verdade é ser o próprio arquivo municipal a encarregar-se de baralhar a memória. Uma entrada nos seus índices reza assim:
Urbanização das Olaias: quinta dos Machados (1966)
- Seabra, António Francisco Cruz Carmona Saragga
- Gonçalves, Eurico Ferreira. 1916-2005, engenheiro civilÂmbito e conteúdo: Projecto de urbanização das Olaias, na quinta dos Machados, situado na chamada zona marginal à calçada da Picheleira.
Inclui a memória descritiva, anuncio do concurso, programa, caderno de encargos, prescricções especiais, características, cálculo de colectores, de volumes, medicções, mapa de trabalhos e orcçamento, planta de pavimentos, de esgotos e bacias hidrográficas, perfis longitudinais, caixas de inspecção e queda para cano de manilhas, planta de sargeta de boca com sifão, caixa com cifão interceptor, perfis transversais, perfis tipo e planta da sargeta de grade com sifão.
(PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/10/293, sublinhado meu.)
Dizer projecto de urbanização das Olaias na quinta dos Machados é o mesmo que dizer projecto de urbanização do Rossio na Praça da Figueira. A memória é curta, confunde-se na bruma do tempo e cristaliza nas peneiras. O resultado não ficou famoso, como atesta o célebre caso da jovem que, morando na Picheleira, deu em crer que morava nas Olaias sul depois de edificada a chique Encosta das ditas à margem do velho bairro. O corolário é a osmose da Picheleira nas Olaias e/ou vice-versa num conceito geral, hoje... Salvou-se da fama a quinta dos Machados, valha-lhe o esquecimento.
Pois tornando a ela e para acabar.
A única filha de D.ª Theodolinda e do Dr. Villaça, a D.ª Joana Augusta Villaça de Sousa casou em 1886 com Augusto Cesar de Sousa (n. 1858). Sei que estava viúva em Agosto de 1900. Dos netos do Dr. Villaça e de D.ª Theodolinda -- D.ª Maria Victoria Villaça de Sousa, D.ª Luzia Villaça de Sousa Freire de Meneses, José Villaça de Sousa e Augusto Villaça de Sousa -- não sei se herdaram, venderam ou lhes foi expropriada a quinta dos Machados. Dela (da quinta), como contei, só conheci a ruína a que a rapaziada chamava «convento» e o casal além do caminho de ferro (que cuidei fosse doutra quinta), onde ia com a minha mãe aos ovos.
(*) Jurisconsulto. Recebeu ordenação sacerdotal mas alcançou dispensa da Santa Sé para poder casar.Dedicou-se à advocacia em Lisboa e redigiu o Código Penal publicado em 1837 por Passos Manuel (M.ª de Fátima Bonifácio (ed.), Memórias do Duque de Palmela, 1.ª ed. Alfragide, Dom Quixote, 2011, p. 333).
(**) Em 1890 incluía a Conceicção Nova, Encarnação, Madalena, Mártires, Pena, Sacramento, Santa Justa, S. Jorge de Arroios, S. José, S. Julião e S. Nicolau (Augusto Vieira da Silva, Dispersos, vol. II., 2.ª ed., Lisboa, C.M.L., 1985, p. 75.
(Revisto ao meio dia e vinte de 16.)
« — Quem ha de ser? é o arcediago de Barroso, um homem sem religião, de pessimos costumes, que tem vivido amancebado toda a sua vida, e que, de mais a mais, tem o desaforo de casar uma das suas concubinas ahi não sei com quem, e disseram-me que continua a viver adulterinamente com ella... Fóra o adultero! Não lhe faltava senão esta!...
— E vm.ce conhece-o?
— Conheço muito bem, oxalá que não. Fomos companheiros no seminario, e já lá prophetisei a rôlha, que viria a ser o senhor Leonardo Taveira... Depois, via-o pelo Porto, e fui jantar a casa d'elle, e sahi escandalisado porque teve o desavergonhamento de sentar comnosco á mesa uma rapariga que tinha em casa...
—Sabe como ella se chamava?
—Sei, sim, senhor. Chamava-se Anna do Carmo...»Camillo Castello Branco, A Filha do Arcediago, 2.ª ed., Porto, Cruz Coutinho, 1858, p. 61.

Chelas, Lisboa, 1983.
(Biblioteca de Wood , n.º 1573, AEC Regal III, HG-13-94 no serviço da carreira 13 em 17 de Outubro de 1983.)
Convento de Chelas, Lisboa, séc. XIX. Archivo Pittoresco, vol. XIV, 1864.
-- A36.
-- Boa tarde! A36, aqui tem a senha...
-- Boa tarde!
-- ... e a A37. E também a A38.
Toca o besouro e doutro canto da loja alguém chama.
-- Senha A37!
Adiante.
Este ano noto que a Empresa Municipal de [Mobilidade e] Estacionamento de Lisboa (é-mel) estendeu o uso de farda ao pessoal que atende na loja. Viva o luxo. Mais uma fardeta a somar ao sortido delas que se vêem aos fiscais nas ruas.
-- Venho comprar o autocolante para poder estacionar o meu automóvel na minha rua.
-- ?... Ah, bem! Pretende renovar o dístico de autorização de estacionamento a residente.
-- Se põe nesse modo... Aqui tem o autocolante caducado.
A Empresa Municipal de [Mobilidade e] Estacionamento de Lisboa (é-mel) cobra taxa aos automobilistas que estacionam nas ruas de Lisboa. A câmara municipal -- que não é dona das ruas da cidade -- ungiu-a com esse senhorio. A Empresa Municipal de [Mobilidade e] Estacionamento de Lisboa (é-mel) arrogou daí um alto espírito de missão em prol do bem comum e concede-me assim a divina graça de estacionar eu o meu automóvel na rua onde moro sem pagar a taxa ordinária. Mas exige-me que o peça formalmente. Tenho portanto de reconhecer à Empresa Municipal de [Mobilidade e] Estacionamento de Lisboa (é-mel) suserania na minha rua, sob pena de multas certas e contingentes sevícias sobre o meu automóvel. -- Idêntico aos modos do comum torcionário arrumador da cidade, afinal, menos só o colorido -- Chefe. Nao há uma moedinha?! -- A graça do estacionamento é-me assim dada por um ano na forma de autocolante em troca duma soma de dinheiro a título de emolumentos: o equivalente a uns 2400$00 (dois contos e quatrocentos).
-- Ora faça favor de assinar em baixo.
-- Eu não posso assinar este documento.
-- ...?!
A gente que gere esta excrescência municipal de [mobilidade e] estacionamento de Lisboa (é-mel) não se deve ter em boa conta e toma à semelhança de si, por vil, o cidadão que lhe necessàriamente haja de prestar vassalagem. Atira-lhe por isso às ventas com o articulado do Código Penal acerca de falsificação de documentos e aldrabices do género.
-- Não vê vossemecê? Os senhores redigem-me no vosso computador este termo de responsabilidade para assinar em que chapam o artigo 256.º do Código Penal, supondo-me a priori um vulgar aldrabão, se o bem entendo...
-- !
-- ... ao mesmo tempo falseiam no documento a minha data de nascimento. Eu não nasci em 1/1/1910 e a minha carta de condução não caducou nesse dia, bem vê...
Lá fez aquela alma o termo de novo. No fim de pagar perguntei se havia algo mais.
-- Só falta a factura.
-- Factura ou fâ-tura?
Adivinhai.

(Revisto à meia-noite. Faltavam umas mobilidades.)

Este é um verbete que tinha a palpitar havia muito. Faltava-me o móbil. Há anos que andava a ver se me aparecia o «convento». A rapaziada chamava-lhe «convento», talvez das janelas góticas...
A minha primeira aventura por velhas quintas e lugares em vias de extinção foi a explorá-lo, atrás do meu irmão, do Príncipe (o filho do careca da leitaria), do Gabriel (que eu chamava Gabrião por não conhecer o nome) e dum Armindo que hoje bem pode ser comandante na TAP.
O casarão estava em ruínas, sem soalhos nem telhado (ou talvez afinal o tivesse). Tínhamos de andar lá dentro em equilibrismo sobre as traves onde outrora assentaram as tábuas do chão. O que achei graça -- porque nunca então tinha visto igual -- foi a escada para o andar superior que tinha degraus em caracol numa volta de 180º a meio dos andares; ficou-me na ideia e não mai-lo esqueci. Das janelas neogóticas e do anexo à face da rua, tal como do aspecto geral da casa, confesso, já nada me não lembrava. Havia só aquela saudade -- nem sei que idade teria; cinco, quatro, talvez...
Em tempo achei uma fotografia em que lá estava, ao longe, o «convento», ao fundo dum caminho que partia da Calçada e que veio a ser a Rua Faria de Vasconcelos. Era a quinta do Villaça, que se estendia dali, acima da linha férrea e, para poente até alturas da Ruade Olivença [Aquiles Machado]. Por essas terras fui tanta vez com minha mãe aos ovos, por um carreiro que levava a uma quinta [um casal na própria Quinta do Villaça] além da linha do comboio. Essoutra, hoje, a existir, jaz por debaixo do viaduto do metropolitano.
Para trás (Norte) confrontava esta quinta do Villaça com a dos Machados e esta por sua vez com a das Olaias... [A quinta do Villaça também era conhecida como dos Machados.] O nome da dos Machados não vingou, sobrepondo-se-lhe o da quinta vizinha das Olaias que ficava mais ou menos onde hoje há um hotel e onde -- entretanto que a demoliram -- nos anos 70 houve uma serração; a chamada Encosta das Olaias -- empreendimento de Fernando Martins dos anos 80 com risco do badalado Taveira -- assenta muito mais nas terras da quinta dos Machados do que nos da das Olaias. Toda aquela encosta foi por séculos e séculos um declive suave para o vale da Maruja a montante do milenar Convento de Chelas (este um convento a sério, ao depois também fábrica da pólvora) onde o aterro da linha de cintura ainda no séc. XIX há-de ter sido o primeiro perturbador da orografia natural.
O casarão da quinta do Villaça parece bem do séc. XIX, ele também. Tinha porte fidalgo, com as sete janelas da ordem, e frontão. A casa tem no Levantamento da Planta de Lisboa de 1904-11 um anexo grande no lado poente, que já se não via na fotografia aérea dos anos 50. -- Barracões de alfaias [?] entretanto desaparecidos com a desactivação da quinta? -- Com os aterros das obras de Lisboa do século XX despejados nestas quintas ao abandono, mai-lo parcelamento para urbanização dos anos 70 para cá, naquelas terras já se nada hoje percebe de que foram campos bucólicos. Na fotografia já temos o anexo do casarão visivelmente abaixo da cota da Rua Mira Fernandes ainda em embrião. Mas, das cortinas nos vidros, o anexo parecia habitado. Que histórias guardaram aquelas paredes?...
A fotografia devo-a a um velho amigo que sabe o quanto me isto desperta interesse. Diz-me que a achou no livro das fuças no capítulo da escola das Olaias que, já vimos, devia com mais propriedade chamar-se escola do Villaça por assentar em cheio nos chãos desta quinta e não da outra.
Não me identificou ele a senhora nem o fotógrafo que nos dava novas duma próxima chegada da cegonha por aquele tempo. Teria interesse. O que à partida pode ser tido por um fraco cliché para o álbum de família tornou-se um documento raro e valioso para a olisipografia.
O mapa é o 13L do Levantamento da Planta de Lisboa; 1904-1911 (Lisboa, C.M.L., 2005), desenhado por Alberto de Sá Correia em 1908. Nele temos a calçada (ou azinhaga) da Picheleira, as linhas de cintura e de convergência de Xabregas, a estrada, a estação, o convento de Chellas e as azinhagas da' redondezas.
(Verbete revisto em 15/5 às dez para o meio dia.)
Afinal fui lá espreitar, de marcador encarnado para dar os quinaus. Não avancei da parte A, que me fazia mal. O texto mutilado do Público tem redacção dum indigente:
« Berlengas, arquipélago de ilhas e rochedos com encostas muito inclinadas.»
Ora vai uma. Arquipélago aprendi na minha primária que havia de ser ilhas, mas rochedos?!... Desde quando calhaus meios submersos deram em se designar como arquipélago?
Duas. Ilhas escarpadas, alcantiladas, penhascos, havia de lá poder ser! De «encostas muito inclinadas» é só para o que o vocabulário dá.
Mais indigente que o jornalista que redigiu o texto só o imbecil que concebeu a primeira pergunta mandando os meninos ordenar cinco frases pela ordem em que vinham no texto. Que se pretende avaliar? Se os meninos leram o texto da esquerda para a direita e do cimo para o fim da página...?
Credo!
Exame ofical de Português do 4.º ano (4.ª classe), M.E.C., 2013.
(*) Por cortesia de Zephyrus.
No verbete do analfabetismo do tempo de Salazar há um comentário acerca da fornalha abrileira que derreteu a instrução pública em Portugal e um outro de quem se presume oriundo dessa fornalha e que discorda de se dever cotejar a antiga 4.ª classe com o que havemos hoje.
Eu não me presumo da fornalha abrileira, sou-o necessàriamente. De Outubro de 73 às férias da Páscoa de 74 só por engano havia de dar em «fachista»...
Por ledo engano também, de certo, nutri antes, durante e depois do 25 de Abril um certo fascínio pelos livros de leitura da primeira e da segunda classe, livros únicos do oficialão Ensino Oficial -- «fachista», claro. Guardei-os sempre sem motivação de partidos e qui-los logo desde criança, vá lá entender-se, enquanto a democrática liberdade não teve tempo de substituí-los com ou até sem proveito antes de 76.
Pois logo nesse ano que era o da minha terceira classe 1.ª fase do 2.º ano, o livrinho de leitura revelado pelo novíssimo regime lembra-me bem o seu nome: «Vento Novo»; uma baforada ideológica logo no título bufado às ventas de criancinhas de 8 anos, que era o que a livre democracia gastava então (hoje começa mais cedo). Nunca tive pulsão de conservar este como os outros, não sei dizer porquê. Talvez da liberdade... de o poder desprezar e deitar fora... Do livro da 4.ª classe, esse, nem o nome me ficou, muito por efeito da tal fornalha que começava a derreter-nos, às criancinhas de 9, já não na 4.ª classe (cousa antiquada), mas na pomposamente evoluída 2.ª fase do 2.º ano. Dou-lhe razão, porém, ao que discorda e afirma que devemos ponderar sèriamente as comparações de realidades tão derretidamente diversas. É por demais consabido que um homem é ele mesmo e as suas circunstâncias. Logo, um menino com a 4.ª classe em 1970 (ou mesmo eu em 1977) e um menino com o 4.º ano em 2013 não se hão nunca de haver de comparar sem rigorosa ponderação. Podia lá não ser!... O de 2013, além de 4 anos de meios dias na escola carrega na mochila outro tanto de segundos meios dias em actividades na escola (muito doutrinadamente orientadas, nada de jogatana de bola ou correr o bairro a tocar às campainhas), a que somaremos a bem da liberdade e da democracia mais três anos inteirinhos de jardim-escola ou «escolinha» com, não esquecendo, todas as respectivas actividades orientadas por educadeiras certificadas e viagens de finalistas.
Havemos de admitir: dois democraticos ciclos de ensino pré e primário assim como se praticam em 2013, e em plena liberdade, equivalem no mínimo ao antigo 7.º ano dos liceus com talvez mais o propedêutico. Que pode alguém ser com a 4.ª classe de 1970 (ou mesmo de 1976/77) ao pé disto de agora senão um mono que aprendeu a ler, escrever e contar?!...
Que espécie de gente anda a nação a criar agora é que eu não sei.


A Lengalenga e o Macaco de Rabo Cortado do Livro de Leitura da Segunda Classe...
(Revisto às 11h30 da manhã de 7.)

Hospital de Sancta Maria, Lisboa, c. 1953.
Horácio de Novaes, in Bibliotheca d' Arte da F.C.G.

Palácio de Justiça, Lisboa, 1970.
Horácio de Novaes, in Bibliotheca d' Arte da F.C.G.
Ando às vezes com Salazar debaixo do braço. Ontem vinha com o primeiro volume dos Discursos porque queria passar a forma electrónica as páginas do prefácio à 4.ª edição. O que nele pude ler em escassas 40 páginas assombrou-me pela clareza da exposição de todo um pensamento político e pela capacidade de o sintetizar sem perda em tão pouco papel. Admira-me tamanha simplicidade tanto mais que sei o penoso que me é redigir coerentemente a partir duma meada de ideias que me amiúde assalta e a que tanta vez não acho o fio.
A admiração por Salazar, nem que seja por um mero prefácio, não se deve verbalizar, nem muito nem pouco (é exactamente isto a censura) pois o papaguear de chavões e ideias feitas (o ruído -- a censura de hoje) que se ouve em reposta é quase pavloviano. Mesmo que comece por uma admiração formal -- Ah! era ele duma inteligência muito superior. Entendia muito bem os problemas. E acho que era sério. Só fez uma coisa mal: o analfabetismo...
O anlfabetismo?! A que propósito agora esta...?
Parece que para dizer que com intuito de manter o povo dócil pela ignorância.
Como consegue alguém concluir isto doutrem quando lhe acaba de afirmar uma inteligência superior e uma índole séria espanta-me. Mas não vou estar (como não estive, no caso) a perder-me em grande retórica para rebater estes ditos que se dizem. Basta-me um quadrinho com o número dos indígenas cá no reino pelo séc. XX e a porção deles que eram analfabetos, com o bocejo de ver o progresso de 2 milhões e 700 mil que sabiam as letras em algo menos de 7 milhões de portugueses (1930), e compará-lo com 6 milhões e 400 mil alfabetizados numa população de oito milhões e 600 mil (1970); eis aí o trabalho feito do começo ao fim do Estado Novo.
Cada um perceba os factos consoante seja mais ou menos analfabeto ou deixe-se meramente andar na crença em vive.
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do analfabetismo em Portugal (1900-2001) |
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Anos |
total |
analfabetismo (*) |
alfabetos |
|
|
1900 ………… |
|
73% |
|
||
|
1911 ………… |
5 049 729 |
69% |
1 567 941 |
||
|
1920 ………… |
6 032 991 |
65% |
2 099 481 |
||
|
1930 ………… |
6 825 883 |
60% |
2 709 193 |
||
|
1940 ………… |
7 722 152 |
52% |
3 694 278 |
||
|
1950 ………… |
8 510 240 |
42% |
4 955 513 |
||
|
1960 ………… |
8 851 289 |
33% |
5 930 364 |
||
|
1970 ………… |
8 648 369 |
26% |
6 399 793 |
||
|
1981 ………… |
9 833 041 |
21% |
7 768 102 |
||
|
1991 ………… |
|
11% |
|
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2001 ………… |
|
9% |
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Fontes: |
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Censo da População, I.N.E. - Lisboa; |
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(*) António Candeias et al., Alfabetização e Escola em Portugal nos Séculos XIX e XX. Os Censos e as Estatísticas, Fund. C. Gulbenkian, 2007. |
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(Revisto às 5h30 da tarde.)
« É uma discussão intensa há já algum tempo no seio da equipa de tradução portuguesa do WordPress, adotar [sic] ou não o Acordo Ortográfico para a Língua Portuguesa (AO90). Dessa discussão destacam-se dois consensos alargados: a oposição quase unânime ao AO90 e uma enorme resistência em aplicá-lo ao WordPress pt-PT.
Todavia, houve um entendimento geral de que se deveria avançar para a adoção [sic] do AO90 (Wordpress Portugal, Wordpress em português: pré ou pós-AO90?).Muitas pessoas nos perguntam (e ainda mais pessoas se perguntam a si mesmas) o que diabo pode levar alguém a adotar o AO90. Pois bem, a transcrição acima esclarece espectacularmente o insondável mistério: há quem adote porque sim e há quem adote porque também.
Existe uma oposição quase unânime ao AO90 mas não faz mal, adota-se na mesma.
Há uma enorme resistência em aplicá-lo mas pronto, assim como assim, aplica-se de qualquer forma.»J.P.G., «É a adoção por entendimento geral, estúpido!», in I.L.C. contra o Acordo Ortográfico, 26/IV/13.
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História das Carreiras da Carris pub
Ilustração Portuguesa
Jansenista (O)
Jovens do Restelo
Lisboa
Lisboa Antiga
Lisboa Desaparecida
Lisboa S.O.S.
Menina Marota
Mercado de Bem-Fica
Meu Bazar de Ideias
Palaurossaurus Rex
Perspectivaspub
Pipàterra
Pombalinho
Porta da Loja
Porto e não só (Do)
Portugal em Postais Antigospub
Retalhos de Bem-Fica
Restos de Colecção
Rio das Maçãspub
Ruas de Lisboa com Alguma História
Ruinartepub
Terra das Vacas (Na)