Terça-feira, 28 de Junho de 2016
A noute, António Melo e António Lopes Ribeiro

— Ó Melo, diz lá boa noite aos senhores.
Melo: — Boa noute!
(Museu do Cinema, com o saudoso António Lopes Ribeiro.)

Ant.º Lopes Ribeiro, Museu do Cinema (J. M. Tudela)

 

 Certa vez, rapazote e patego, vi-me encaminhado para a biblioteca da Gulbenkian para fazer um trabalhinho de grupo — Foi no tempo do Fumaça; o trabalhinho era sobre os Egípcios. — Pois estando por lá, na Gulbenkian, dei em cirandar e num auditório vi que estava um orador magro de olhar vivo, calvo, já velho, mas cuja voz me soava familiar e cuja palestra era sobre cinema; por ela prendia uma plateia atenta e em venerável silêncio. Cheguei-me à porta com pés de veludo e calado, com medo de perturbar ou ser notado, mas apanhado por aquela voz. E quando cheguei a casa tentei explicar à minha mãe quem fora que vira, decerto famoso, talvez da televisão, que me prendera a ouvi-lo, nem sei bem...
 — Ah! Se falava de cinema há-de ter sido o António Lopes Ribeiro — foi a minha resposta [i.é, a que recebi].
 Pois era. Foi a única vez que o vi ante mim. Olhe que era admirável a atenção daquela plateia e como o seu discurso a cativava.
 Não me recordo do Museu do Cinema, porém.
 Recordar-me daquelas D.ªs Amélias já não é mau.

 

(Imagem: António Lopes Ribeiro, Museu do Cinema, in Colorize Media.)



Escrito com Bic Laranja às 23:29
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A noute e a importância do nome Amélia

 A primeira vez que ouvi pronunciar noute em vez de noite foi à D. Amélia, a mãe do Luís. Achei esquisito e disse à minha mãe que a mãe do Luís dizia boa noute e não boa noite.
 — Pois diz filho. Talvez seja porque nunca foi à escola.
 Admirei-me de a D. Amélia não saber ler mas fez sentido; julguei então que dizer noute em vez de noite era por isso...
 É curioso que havia mais duas Donas Amélias lá na rua e ambas eram explicadoras. Havia a D. Amélia, a avó do Carlitos e a D. Amélia do 8. E havia ainda a Amélia dos jornais que não era dona, com certeza por ser dos jornais. À D. Amélia do 8 ia o Vijó levar algumas vezes garrafas de vinho branco lá da taberna do pai. Íamos muito os dois; ele deixava-as à porta sem bater e depois íamos brincar. Mas onde o Vijó andou na explicação foi na outra D. Amélia, a avó do Carlitos.
 Não imagino Lisboa na primeira metade do séc. XX, das avenidas novas aos bairros antigos, sem haver imensas (*) Amélias: costureiras, criadas, floristas, vendedeiras, avós, tias, senhoras, algumas quadrilheiras, donas, meninas... O nome Amélia era mais vulgar que hoje, com certeza por a rainha D. Amélia se chamar assim. Os nomes são como as roupas: há-os com naftalina e há-os em plástico. Uns andam comidos pela traça, outros queriam-se no... ecoponto...

Palacete Silva Graça, Lisboa (J.Benoliel, post. 1908)

 Não tenho a certeza mas, depois da D. Amélia, a mãe do Luís, acho que nunca mais ouvi ninguém pronunciar noute por sua fala natural. Talvez nos Açores... Mas a D. Amélia não era de certeza de lá. Tenho ideia que até era lisboeta... Na verdade não sei (**). Sei é que o duplo emprego de ouro/oiro, louça/loiça é comum e acho que cada um opta pelo que calha. A forma noute (e dous também), parece-me eu, apoia-se já só no cajado da naftalina; enquanto a traça das amélias lhe não dá.


Fotografia:
Palacete Silva Graça (depois Hotel Aviz) e senhoras subindo o troço inicial da Av. 5 de Outubro, Lisboa, post. 1908.
Joshua Benoliel, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
[Publicado originalmente em 18/8/2006 às 6h26 da tarde. Revisto em 20/8/06.]

Notas em 28/6/16:
(*) Imenso é o mar; hoje escreveria inúmeras ou numerosas.
(**) A D.ª Amélia, a mãe do Luís, era de Setúbal, disse-me o Carlos cujo pai tinha um táxi e que morou lá no prédio.



Escrito com Bic Laranja às 00:40
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Segunda-feira, 27 de Junho de 2016
Os entreguistas

 Há certa raça de gente muito competente e capaz a dar o que lhe não pertence. Este primeiro-ministro do Rato é dessa raça, cujos pergaminhos de bom coiro remontam orgulhosamente ao Portugal ultramarino e aos portugueses despejados dele.

O entreguismo.

(Diario de Notícias, 27/VI/16).



Escrito com Bic Laranja às 11:09
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Lisboa, Junho de 16

  Este ano os jacarandás da Almirante Barroso esperaram pelas tipuanas da Elias Garcia para darem cor ao alcatrão.

Lisboa, © 2016
Av. Elias Garcia, Lisboa, 2016.



Escrito com Bic Laranja às 09:50
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Sábado, 25 de Junho de 2016
Entardecer de Verão

Entardecer de Verão, Rossio (A. Ferrari, c. 1970)
Entardecer de Verão, Rossio, c. 1970:
Amadeu Ferrari, in archivo photographico da C.M.L.



Escrito com Bic Laranja às 19:50
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Alvorecer na Portela, 1965

Aviões Caravela e Super, Portela (A. Cunha, 1965)
Aviões Caravela e Super Constellation da TAP, Aeroporto da Portela, 1965.
Fotografia: Cte. Amado da Cunha, in col. do Sr. Ant.º Fernandes.



Escrito com Bic Laranja às 06:03
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Sexta-feira, 24 de Junho de 2016
Je suis inglês



 A filosofia do que é e não pode deixar de ser decorria, pareceu-me, duma lei da Física que cuidava já extinta pelo mundialismo do Leviatão europeu. Não caí na conta de que operasse a força centrífuga ainda nas nações da Europa. Pois afinal, na vigarice do que é e não pode deixar de ser, os ingleses não autorizaram comerem-lhe as papas na cabeça. É a diferença das nações que regem os seus destinos e as que os dão aos outros para reger. Neste último caso vejo hoje como ontem os escoceses. À nação inglesa resta-lhe orgulhosamente a fibra com que a vimos històricamente reger-se, a si e a outras nações. Não cuidei que a tivesse.
 Escoceses e irlandeses têm por sua vez mentalidade de protectorado; preferem suseranos; se mais ricaços melhor. A História demonstra a natureza das nações... Emanciparem-se do Reino Unido para se sujeitarem a Bruxelas como antecipam já na ruína britânica há-de ser uma bela independência!...
 Por cá a arenga do Brêxito ressoa ainda agora como em toda a campanha: uma desgraceira sem igual, inculcando no indígena do rectângulo mentalidade de escocês. Claro que o mal do coice inglês à suserania bruxeleiro-kafkiana será só comparável ao bug do ano 2000, que foi terrível. E com isso os nossos me®dia propalam aos sete ventos o papão que aí vem. A prova eram uns pategos da T.S.F. logo de manhã a entrevistarem, apenas e só, os chorosos de cá e de lá, todos escolhidinhos a dedo: uma inglesa com sotaque indiano (há coisas que a rádio não consegue esconder) opinando o mal que se avizinha; uma emigrante em Wrexham arregimentada pelo cônsul (em Manchester?) para catar crimes de ódio que nunca conseguiu provar, mas cujo o referendo é agora a prova irrefutável do racismo inglês.
 É mais ou menos isto...

————
Imagem: Thomas Creswick, Uma vista do castelo de Windsor. Óleo s/ tela. Colecção particular.  In Viático da Vagamundo.



Escrito com Bic Laranja às 13:07
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Quinta-feira, 23 de Junho de 2016
Da vigarice que é, e não pode deixar de ser

 Há uma máxima da Filosofia que define o carácter necessário das coisas como sendo aquilo que é, e não pode deixar de ser.
 Isto do Brêxito, hoje, está a ser um êxito; corre como (cá está!) necessário. O desfecho será (sempre foi) aquele que vai ser e não poderia deixar de ser: na Europa está-se, não se sai. Pode não querer-se ser; pode tentar-se não ser; pode debater-se se é-se ou não é-seaté-se o pode referendar-se. Atesta tudo isso como é boa, livre e democrática a Europa.
 Mas pertencer à Europa é e não pode deixar de ser.
 Do carácter necessário do Brêxito que se leva hoje a cabo na Inglaterra já se viram os indícios em toda a imprensa como um cântico do Bem contra o Mal: o mundo radioso de ser-se, contra as trevas de sair-se; a virtude da nova raça pegada, contra o racismo; a tolerância, contra o fascismo... E toda aquela 5.ª coluna de brexitianos de nomeada a bandearem-se com os bremainianos depois de (aleluia!) verem a luz? — O que reluz pode sempre, afinal, ser realmente ouro...
 Pois bem! O último indício do Brêxito estar a ir bem pelo arranjo do tal fado com carácter necessário foi a notícia ao almoço, juntamente com uma sondagem de 52-48, de se conceder igual à Suécia e até uma coisa do género à Turquia. A afoiteza do anúncio prova-me o que já me cheirava: a confiança dos mundialistas da Europa necessária, que é e não pode deixar de ser, no seu método de desfecho democrático único. No fundo, é como dizia o Henry Ford a quem comprava o seu modelo T: pode escolher a cor que quiser desde que seja preto. Ou como dizia uma outra na eleição das costureiras da Canção de Lisboa:
 — Vamos embora Ernestina que isto é tudo uma grande vigarice.

beatrizcosta_1b.jpg

Adenda.



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Quarta-feira, 22 de Junho de 2016
Assim anda o mundo

 Num anúncio da Chicco na telefonia oiço — Sou o Francisco e quando vou passear a minha filha.... e lembra-me de aqui há tempo umas notícias na TV dum jovem cão para adoptar e de mais outros cães para famílias de acolhimento por lhe haver ardido o canil.
 Sendo certo que a linguagem é reflexo irreflexo das mentes simples, aquilo de o Francisco da Chicco dizer ir passear a filha como se dissesse ir passear o cão, ou isto de jovem cão para adoptar mai-lo canil todo como para perfilho em famílias de acolhimento é toda uma mentalidade que se espelha. E que se espalha... Ao comprido.
 Quem tem filhos passeia com eles, como gente, não os passeia como aos cães. Isto é o que me parece. Mas calhando já não...

Passear a filha, passear com o cão. O mundo às avessas!
(Imagem...



Escrito com Bic Laranja às 23:06
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Segunda-feira, 20 de Junho de 2016
Do conceito de Verão


 No meu livro da segunda classe o Verão era representado por uma seara. No Guglo, hoje, são calhaus com olhos.

Conceito de Verão imaginado pelo Google em 2016

Não sei se é empreendorismo, se inovação.



Escrito com Bic Laranja às 18:03
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Sábado, 18 de Junho de 2016
A apanha

 Só ouvi o pregão matinal da reportagem, para ouvir depois às não sei quantas da tarde... Andava o jornalismo moralão ontem a pegar com a servidão nos campos colado a uma investida da A.S.A.E., dos serviços de imigração e da Guarda Republicana na apanha do morango, em Almeirim. Jornalismo de aviário, este, que ferra lavradores como malandrões (mas curiosamente cego a desfalques descarados de banqueiros de primeira apanha), que subcontratam nepaleses ou o que apareça porque se não acha simplesmente aí gente que se possa contratar; nem já ciganos, porque com a instituição de subsídios do governo à indigência e das casas de «habitaçã' sociáli» à custa da câmara, trabalhar na apanha do morango ou trabalhar sequer, é só prejuízo. Além de ser uma canseira. — Quem diz ali ciganos, diz qualquer indigente fomentado a subsídio pelo governo.

 É, pois, jornalismo de aviário, por repórteres de subúrbio Falar-lhes nos ratinhos que iam da Beira às ceifas no Alentejo, em trabalho agrícola sazonal ou à jorna há-de ser escusado. Explicar-lhes o que pode ser um acampamento não sendo para passar dia e meio no festival do Sudoeste será inglório; não admira condenarem, os jornalistas moralões de subúrbio, como sacrilégio atroz «uma casa sem janelas» e denunciarem uma latrina «com o céu como tecto» como condições infra-humanas para os jornaleiros da apanha do morango. Chegam a ser espirituosos, não obstante; não fôra a ironia: um jornaleiro daqueles tem mais mais préstimo que um jornalista. E não só. A prova foi que indo a A.S.A.E [inspecção das condições de trabalho, digo], os serviços de imigração, a Guarda Republicana, mai-los ditos jornalistas, tanta gente formidável numa batida aos jornaleiros da apanha do morango, e deixaram ainda assim fugir quatro deles. Há, por conseguinte, os que apanham e fogem de ser apanhados, os que não apanham nem deixam apanhar e uns espirituososos duma moral qualquer de morangos com açúcar.

Trabalho rural, Portugal (A. Pastor, c. 1960)
Trabalho rural,
Portugal, 196...
Artur Pastor, in archivo photographico da C.M.L.

(Revisto.)



Escrito com Bic Laranja às 14:08
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O «bullying» que a cada um calha

 Logo quando o vi em ministro lhe medi a pinta. Este «meu» tinha mesmo, mesmo o arzinho daqueles cromos do liceu que comiam calduços a torto e a direito de toda a gente, até das tipas, porque sempre que abriam a bocarra só saía asneira. Prova-se.



 Portugal é bom para fazer investimentos porque «os portugueses são os que mais horas trabalham na Europa», além de serem muito baratos quando comparados com os franceses, por exemplo, disse ontem o ministro das Finanças a uma plateia de gestores, em Lisboa (Luís Reis Ribeiro, «Centeno: portugueses trabalham muito e são baratos», in Diário de Notícias, 16/VI/15).



Escrito com Bic Laranja às 00:29
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Quarta-feira, 15 de Junho de 2016
Campos do futuro B.º de Alvalade

 O archivo photographico da C.M.L. tirou ha dias (*) a marca d' agua das photographias que faculta na rede. É uma boa novidade e um melhor trabalho, porque se lhe somma a maior resolução de muitas photographias publicadas que, d'antes nem se percebiam.
 Olho um lote d'ellas de Eduardo Portugal catalogadas como «Campo Grande» e acho piada ás descripções do archivista, n'este estylo.

 Panorâmica geral da zona deixando transparecer o carácter profundamente rústico desta zona limítrofe da Cidade antes da fixação dos grandes pólos culturais (Cidade Universitária — anos 50 — e Biblioteca Nacional — anos 60).

 Chamar ás quintas arrabaldinas de Lisboa (n'este caso, em Alvalade), retratadas n'uma velha photographia, «zona limítrofe da cidade» cujo «carácter profundamente rústico» «transparece» n'uma «panorâmica geral» (haverá panoramicas photographicas não geraes?) é menos do que um estylo; soa a locução de telejornal inspirando a redacção ao archivista.
 É pertinente, porém, a opposição campo/cidade expressa.
 Já uma certa idéa de progresso posta na marcha do tempo, insinuada na menção á ulterior edificação por ali da Bibliotheca Nacional e da Universidade (ou «fixação dos grandes pólos culturais») é vício pior: é a mentalidade inculcada ás massas, dos bancos da eschola official á chachada televisiva, que molda o entendimento geral e tolda no prosador contemporaneo qualquer descripção simples. Nem cuido que se o archivista dê conta do que o affecta; a linguagem é um mimetismo tão natural como respirar, e a lavagem ao cérebro dá-se por osmose televisiva. Afóra isto, a menção aos «pólos culturais» ou lá como lhe chama é marginal á panoramica que procurou documentar. Disfarça mal a inepcia em decifrar a imagem (o que de si não seria vergonha; a imagem é difficil), mas baralha o leitor. Assim, melhor fôra estar quieto.


Vista das terras do futuro B.º de Alvalade, Lisboa (E. Portugal, 1945)

  A imagem mostra (mostra realmente, não deixa transparecer) as terras da banda oriental do Campo Grande (a Bibliotheca Nacional ou a Universidade de Lisboa são na banda occidental, não cabem aqui). A chave para percebê-la é o hospital de Julio de Mattos que se avista ao longe, no primeiro terço esquerdo da imagem, mais ou menos sôbre a primeira metade das casas em primeiro plano. O edificio principal do Julio de Mattos identifica-se bem atrás e além d'uma fiada de árvores e, deante de si, para cá, notam-se bem as primeiras terraplenagens da Av. de Roma. A photographia foi, pois, tirada n'um poncto elevado entre a Av. de Roma e o Campo Grande, bem a sul da Av. do Brasil. Calhando, d'onde veio a rasgar-se o trôço da Av. dos Estados Unidos da América entre a Av. de Roma e o Campo Grande. O photographo aponctou d'alli ao Norte.
 O casal em primeiro plano é da Quinta da Quintinha. Encoberto por si (sobresahindo além do annexo mais à esquerda do portão) vislumbram-se os telhados da quinta dos Coroxéos, as unicas casas que sobreviveram á completa rasia que a construcção do B.º de Alvalade fez n'estas terras.
 O que se avista de casaes, depois, em direcção ao Julio de Mattos, são a quinta dos Auditores ou da Sr.ª de Sant'Anna (eschola primaria de Sancto Antonio e ruas adjacentes) e quinta do Bosque (Pr. de Alvalade e Av. de Roma aprox.). Das azinhagas dos Coroxéos e das Calvanas que eram os caminhos ruraes entre dictas quintas, nada se percebe.
 Adivinha-se a Av. Alferes Malheiro (hoje do Brasil) e, seguindo-a com os olhos através da imagem, nota-se bem o casario no logar do Pote d'Agua, a onde levava a estrada do mesmo nome ou das Amoreiras que partia do largo de Arroios; um caminho mal conhecido que serpenteava pelas terras das futuras avenidas de Roma e do Rio de Janeiro para alli chegar. Além da colina que alli recortava o horizonte era a Portella, onde se edificou o aeroporto.
 Mais haverá de dizer...

A9689.jpg

Vista das terras onde se veio a edificar o B.º de Alvalade, Lisboa, 1945 [1930?].
Eduardo Portugal, in Archivo Photographico da C.M.L.


______

(*) Publicado originalmente em 5/IV/14 ás três e um da tarde e publicado de novo com photographia legendada em 15/VI/2016.



Escrito com Bic Laranja às 22:35
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Segunda-feira, 13 de Junho de 2016
Memórias da montanha, i.e. do areeiro, do caldo verde e da loiça de Carlos Reis

 A propósito da Av. dos E.U.A. veio a montanha da leitora Zazie (na verdade a Quinta da Bella Vista). A seu propósito veio a falar-se no areeiro que deu nome ao… Areeiro. E a propósito dele veio que há um episódio do pintor Carlos Reis de quando ele habitou a Quinta dos Lagares d' El-Rei, contado pelo neto Pedro Carlos Reis no livro que dedica ao avô.

  Carlos Reis tinha fortes laços de amizade com a família Guilman, proprietária da fábrica de loiça de Sacavém, de onde tinha saído a bela loiça colorida que usava em sua casa, que muito apreciava e sobre a qual escreve do Areeiro (Quinta dos Lagares d' El-Rei), a 2 de Abril de 1928, uma carta a Senhora D.ª Hermengarda, que a seguir transcrevemos, como testemunho do seu espírito:

    « Minha Exma. e Boa Senhora
    Agora é que é certo! Mas se não fosse a conversa que tivemos o outro dia e a circunstância de andar há mais dum ano a comer a sopa numa azeitoneira e a marmelada num pedacito de prato sopeiro, não seria ainda hoje, que eu lhe enviaria a lista da loiça escaqueirada pelo desalmado pessoal, acompanhada dum fragmento que vai para amostra.
     Os vexames que eu tenho feito passar às minhas pequenas (filhas Leonor e Maria Luísa), convidando pessoas de cerimónia a jantarem em nossa casa, sem me lembrar de que não há loiça, já não têm conto! Disfarço então a minha penúria, dando ao jantar o carácter duma patuscada num acampamento de nómadas do deserto d'Arábia, justificando, assim, a razão de comermos todos na mesma panela o caldo verde, ou o arroz de bacalhau e, a fim de não repararem na solitária azeitoneira, aponto-lhes o Areeiro e digo: "Além é o deserto! Areia e mais areia! Por isso se chama areeiro..." Mas ontem, um dos convidados, malicioso poeta, satírico, piadista das arábias, olhou de soslaio para a mesa e largou-me esta termenda piada:

"... Mas não fica muito perto
Um pouquinho mais além
Neste famoso deserto
... A loiça de Sacavém?!!!

     Foi uma bomba!!!
    De noite, não conciliei o sono e desde a madrugada que penso em lhe escrever, para acabar de vez com tais piadas, implorando à boa senhora D.ª Hermengarda todo o seu caridoso interesse a favor dos condignos recipientes donde possamos comer civilizadamente o nosso bacalhau e o querido caldo verde da minha alma!!
     E.R.M.
     Carlos Reis»

(Pedro Carlos Reis, Carlos Reis, [Lisboa], A.C.D. Edições, 2006, p. 264.)

  O areeiro era (ainda é) a tal montanha.

Panorâmica do Areeiro a partir da Quinta dos Lagares d'El-Rei, Lisboa (E. Portugal, 1947)
Panorâmica do Areeiro tirada da Quinta dos lagares d' El-Rei,
Lisboa, 1947.

Eduardo Portugal, in archivo photographico da C.M.L.



Escrito com Bic Laranja às 20:41
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Domingo, 12 de Junho de 2016
Pela hora do meio-dia nalgum domingo ou feriado

Av. dos Estados Unidos, Lisboa (A. Pastor, 197...)
Av. dos Estados Unidos da América,
Lisboa, 197...
Artur Pastor, in archivo photographico da C.M.L.



Escrito com Bic Laranja às 12:25
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