Domingo, 11 de Novembro de 2012

Povo que Lavas no Rio (um poema)

Amália, «Povo que Lavas no Rio», Columbia/V.C., 1963 Vai a gente à Wikipaedia pelo «Povo que Lavas no Rio» e que nos sai? — «Uma canção portuguesa, um fado». — Nada mal.  Porém, factos, é só. Data da composição (letra e/ou música) nada; quais as várias (se as há) gravações em disco por Amália, zero; menção ao «Fado Victoria», nicles — a Joaquim Campos, sim, mas só de passagem, como autor da música. A Alain Oulman, que aparece às vezes referido ao fado (v.g. «Encontro Amália e Don Byas», Columbia/Valentim de Carvalho, 1974), népia.
 Que sobra?
 Lavagem do poema com Omo antifascista, pejando-o de descabida dimensão política em alternativa ao «Fado de Peniche». Mas é isto redigido assim, displicentemente e sem fundamento nenhum. Só insinuação, vede a introdução da teoria:

« Talvez devido a esse mesmo facto, as opiniões quanto à interpretação da letra de Pedro Homem de Mello, poeta português de excelência, divergem em absoluto: enquanto alguns críticos crêem que o poema imortalizado por Amália Rodrigues seja um depoimento de amor ao povo português o qual, ainda segundo esta linha de pensamento, enfrentava uma situação de grande pobreza no tempo da ditadura salazarista, considerando o país da época como sendo rural e economicamente pouco desenvolvido face à industrialização europeia [...…]»

 Pois é: talvez. Teoria por sugestão para catecúmenos esquerdóides. Factos, como manda o fugurino em qualquer enciclopédia? Que importa.
 O caso piora.
 Aquele apôsto «de excelência» a Pedro Homem de Mello não é inocente. É, afinal, o novo detergente Homo em acção. O enciclopedista apropria-se do «Povo que Lavas no Rio» e engrossa o disparate logo a meio do 2.º parágrafo em que o guia o seu atormentado espírito: o enlevo de fanchono pelo poeta Homem de Mello que, só dessa condição (não duvideis), não podia ser senão «de excelência». Vai daí o autor mune-se de lixívia gentil na nova lavagem arco-íris:

« [...] outras correntes tendem a ver nas suas estrofes uma lírica de cariz fortemente ligado à homossexualidade masculina, acentuada pelos contornos de incursões às tabernas populares, onde o narrador teria procurado os seus parceiros, e visto recusadas as suas investidas ou, mais ainda, qualquer envolvimento sentimental mais profundo.»

 Daqui ao fim, o verbetezinho é um ridículo desconchavo, insinuando a imoralidade da gente das tabernas por não tolerar e ter como indecoroso o comportamento homossexual. — Muito certamente era assim pela «grande pobreza no tempo da ditadura salazarista»!... — E eis como é subvertido num hino à homossexualidade um fado que é elemento da cultura dos portugueses, um poema que muito simplesmente canta a força do povo no seu viver agreste, para lá de «haver quem [no] defenda» ou de «quem compre o [seu] chão sagrado» (quem no ofenda, portanto).
 Mais, a comunhão do narrador com aquela condição, –que o povo não deixa de reconhecer pois até na morte o cuidará, talhando-lhe a força de braço «as tábuas do [seu] caixão», isto é, dando-lhe sepultura digna. --, pois até essa comunhão do narrador com o povo nos factos da vida é reduzida pelo doutrinador verbete a egoísmo exibicionista de reles larilas nessas sempre tão apregoadas paradas «gay». Grande elogio ao poeta «de excelência», não haja dúvida! Não fôra a carga de sentimento que as guitarras de fado carreiam e o canto sublime de Amália e aquelas estrofes não teriam, como não têm, mais colorido nenhum do aquilo que se nelas lê. Mas a Wikipaedia é isto, enfim: obsessão introdutória antifascista e quatro supositórios de paneleirice pegada.

(Capa do single no Museu do Fado.)

Escrito com Bic Laranja às 18:30
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Sábado, 10 de Novembro de 2012

Entre vista do Rossio


Portugal. Rue de Lisbonne [Calçada do Carmo], 1900-1919.
Foto: Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House.
Escrito com Bic Laranja às 14:14
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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2012

Ai é o Verão que ajuda?!...

E ajudou a quê, realmente...?
 

« O Verão de 2012 foi o melhor da história da TAP, o que permitiu que no terceiro trimestre do ano, o grupo que agrega a companhia aérea de bandeira atingisse lucros de 87 milhões de euros, mais 29% do que no homólogo. Este valor não terá sido suficiente para anular os prejuízos do semestre.»
Jornal de Negócios, 8/XI/12 (sublinhado meu).
 

Portanto, cessem já ideias de encarecer a privatização venda   dação.

Escrito com Bic Laranja às 12:45
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Terça-feira, 6 de Novembro de 2012

Dum ministro da «inducação»

 Não sei se o benévolo leitor o tem por hábito mas aconselho-o. Se fizer favor, vá clicando no símbolo do «Não ao Acordo Ortográfico!» aí na margem. Há ali sempre novidades que nunca transparecem nos noticiários da situação (especialmente os da TV). Há dias a Professora Maria do Carmo Vieira observou no Público a ilustração duma notícia onde...

... o Ministro da Educação, emoldurado numa sala de aula do 1º ciclo, tem por detrás de si um quadro, preenchido com um trabalho de Língua Materna, especificamente de gramática (classificação morfológica dos vocábulos de uma frase). Para além da aberração ortográfica  [...] «alegria» passou, repentinamente, de substantivo abstracto para adjectivo, tal como está escrito, pelas mãos de uma criança, assim ensinada a fazê-lo, no referido quadro. Erro grosseiro inadmissível e, com ironia, associado ao Ministro da Educação, em visita a uma sala de aula do 1º ciclo, coluna de todo o Ensino.
Maria do Carmo Vieira, «Aberração ortográfica e erro grosseiro», in I.L.C. Contra o Acordo Ortográfico, 4/XI/12.

 E é ver o ar de leve enlevo do sr. ministro mai-lo desvanecimento da (presumo) regente escolar aformoseando a asneira. A exacta mesma expressão que vi nuns tolos a içarem bandeira nacional ao contrário faz ele um mês.

Palerma aformoseando asneiras (Público, 31/10/12)
Fotografia: Publico, 31/X/12.

Escrito com Bic Laranja às 17:32
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Coisas do diabo

O meu passo-social de 1985 diabolizado hoje em 1.ª página.

Escrito com Bic Laranja às 09:53
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Segunda-feira, 5 de Novembro de 2012

Jogo mental

No Mentalista, o novo chefe é um homem branco.

Jogo mental...
(Imagem pirateada na rede.)
Escrito com Bic Laranja às 23:34
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Sábado, 3 de Novembro de 2012

Reunir, v. pr.

 No Corpus do Português há 7 registos, 7, do emprego da flexão verbal de sentido reflexo «reuniram» com a preposição «com»; todas do séc. XX, todas na imprensa; 5 na brasileira, 2 na portuguesa. Apenas numa das 7 se usa o verbo mutilado de pronome: Várias organizações de produtores, quer de pêra quer de maçã, reuniram com responsáveis do Ministério da Agricultura («Promoção da pêra rocha recebe 180 mil contos», in Jornal de Leiria, 22/VIII/1997).
 Procurando mais além no Corpus, da expressão «reuniu com» há 34 registos: 1 académico, 33 na imprensa. Destes 33, 21 são na imprensa brasileira, todos com pronome proclítico reflexo (fulano se reuniu com sicrano), como é normal no Brasil; na imprensa portuguesa, 8 casos em 16 usam o verbo com sentido reflexo e sem qualquer pronome, proclítico ou enclítico. Três (maus) exemplos de três jornais diferentes:

  • Jerónimo de Sousa reuniu com a administração («Comunistas denunciam 'paralisia do Plano Mateus'», Jornal da Beira, 15/V/97).
  • Pinto da Costa reuniu com a equipa técnica (Miguel Amorim, col., «Ninguém está mais triste que eu -- lamento de Robson sobre a perda da Supertaça», O Jornal, 3/V/96).
  • Otto Lambsdorff reuniu com o Presidente de a [sic] Federação Russa (Público n.º 8025, 1991).

 O Corpus regista ainda «reunirá com» (3 casos em 4 no Público), «reúne com» (1 em 1 no Jornal da Beira, 3 em 3 no Jornal de Leiria e 1 em 2 no Público) e «reunir com» (7 em 9 no Público, 1 em 3 n' O Jornal e 2 em 2 no Jornal da Beira), todos sem o devido pronome reflexo.
 Os exemplos deste apanhado no Corpus do Português são dos anos 90. Todos na imprensa portuguesa, menos um ( um grupo de pares do reino reúne com a rainha, Gilles Lapouge, «Windsor na corda bamba», Jornal de Pernambuco, 4/IX/1997). Não achei exemplos deste erro (os progressistas dirão evolução) em texto literário. Não há casos no Corpus desta má conjugação e textos dantes de 1990. Um trejeito moderníssimo, portanto.
 Se a conjugação pronominal como a do verbo lembrar («eu lembro de» por «lembro-me de») definha, sobretudo no Brasil, trocando a gramática pelo falar de cafres, parece-me neste caso que a conjugação reflexa de reunir (a que somaria afundar, inaugurar -- já para não falar em casar...) é mérito laborioso dos maiores competentinhos da nossa linguagem: os jornalistas portugueses. -- De cafres é que não!...


Reunir, v. tr. e pr. (Crioulização do português)

Sol, 2/XI/12.

Escrito com Bic Laranja às 12:29
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Sexta-feira, 2 de Novembro de 2012

Finados



(A.N.T.T, «O Século», Joshua Benoliel, lote 0, cx. G, neg. 310.)

Escrito com Bic Laranja às 07:45
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Elevador da Glória (2.ª ed.)

 Quando fui para o 7.º ano tive direito ao passo por causa de a escola ser longe. Senti-me então -- aos 12 -- como um pássaro a quem abrem a gaiola; podia descobrir livremente toda a cidade em qualquer autocarro ou eléctrico. Podia descer dum autocarro e apanhar o primeiro que viesse a seguir e ir aonde essoutro me levasse. E podia andar no Metro também porque, embora eu não precisasse para ir para a escola, o meu pai foi sempre generoso (sempre, se excluirmos um certo mês em que as notas que tive não foram suficientes para manter o privilégio) e comprou-me sempre a senha L que permitia livre trânsito no Metropolitano.

 O que eu não soube logo e ainda demorou até o meu irmão me dizer foi que o passo da Carris também dava para os elevadores.

Elevador da Glória, Lisboa (E.Portugal, 1931)
Abrigo e bilheteira do elevador da Glória, Lisboa, 1931 [1933].
Fotografia de Eduardo Portugal in Arquivo Fotográfico da C.M.L..


Nota à 2.ª edição:
 Este verbete foi publicado originalmente em 17 de Setembro de 2007. Posteriormente publiquei outro com uma fotografia do mesmo lugar, mas referindo-me ao incêndio de 29 de Janeiro de 1929 no Palácio Foz, em que temos o mesmo terminal do ascensor da Glória doutro ângulo.
 O ano de 1931 dado pelo arquivista à fotografia não parece, porém, certo. Desconheço em que se ele baseou. O filme em exibição no Central Cinema do Palácio Foz, «O Hotel do Amor», estreou-se em Portugal sòmente em 11 de Dezembro de 1933 [segunda-feira] (cf. Base de Dados de Cinema da Internete). A chapa foi batida na semana do Natal de 1933; o cartaz informa-nos claramente: 2.ª semana. Anteriormente a Dezembro de 33 não seria possível a fotografia.

 (Revisto em 4 de Novembro.)

Escrito com Bic Laranja às 00:15
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Quinta-feira, 1 de Novembro de 2012

Halloween?!

Só se for barbarismo para a canga decorada que junge os bovídeos...

Porto. Scene de rue (Ch. Chuseeau-Flaviens, G.E.H, 1900-1919)

Pequena aldeã guiando carro de bois, Porto, 1900-1919.
Foto: Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House.

Escrito com Bic Laranja às 12:51
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Que é «dia das bruxas»?

Portugal. Type: groupe de marchandes de poissons (Ch- Chusseau-Flaviens, G.E.H., 1900-1919)
Tipos portugueses: crianças peixeiras
, Ribeira de Lisboa, 1900-1919.

Foto: Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House.

Escrito com Bic Laranja às 12:45
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Calçada da Glória

Para baixo... todos os santos ajudam.


«Portugal. Rue de Lisbonne», 1900-1919.
Foto: Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House.


Nota: o elevador era de dois pisos.

Escrito com Bic Laranja às 11:53
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