Sexta-feira, 28 de Junho de 2013
O Oeste

 Há cada vez mais a maneira de referir-se a província da Estremadura como o Oeste. Fala-se nas Caldas, é no Oeste; ouve-se de Torres (Vedras *), fica no Oeste; da Lourinhã, do Bombarral &c., idem. Não sei de quando vem isto. Podia parecer que alguém se pôs a olhar de Oriente para Ocidente e baptizou aquelas terras, mas não. Ele há decerto de ter sido quando a administração do território passou mais a ser feita sobre o mapa nas secretarias em Lisboa do que no terreno.
 As províncias -- os seus nomes -- carregam História: segredam-nos a formação gradual do reino de Portugal. E do que soube, porém, nem as já ensinam na instrução primária. Das entranhas do passado os arúspices da religião vanguardista pouco mais sabem do que papaguear umas sensaboronas capitais distrito do Liberalismo às criancinhas da 3.ª classe. Ora por mais regiões de nomes modernos parvos que inventem debruçados sobre o mapa de Portugal, a realidade é que os agentes da ordenação do território ignoram tudo o que ele representa. A culpa talvez nem seja sua, mas antes de quem lhes negou educação capaz. Os nomes das províncias nem seriam difíceis de qualquer criança perceber...
 Dos tempos anteriores à fundação foi na progressão de gente cristã vinda da Galiza e do Minho e da sua perspectiva em marcos no terreno que se formou o nome de Trás-os-Montes. Uma perspectiva geográfica tomada do Minho, òbviamente. Os montes são a serra do Marão, como fácil será de entender. Para lá do Marão só se sabe dos que lá estão desde que a província foi colonizada por galegos minhotos que lhe levaram este nome. Antes era um ermo **.
 Já sobre o Sul, a perspectiva tirada do Douro é a da Beira -- da beira de lá do Douro, por oposição à beira de cá (do lado do Minho e, já agora de Trás-os-Montes). Ao contrário de Trás-os-Montes, as terras da Beira não eram ermas; havia por ali moirama e a Reconquista levou o seu tempo até se chegar ao Tejo, à Extrema Durii. --  Ora bem! sobre o Tejo, a província da Estremadura não oculta a perspectiva de quem a alcança e baptiza in extremis... desde o Douro. E mudamos de marco. O Tejo. Para trás (e para a memória) ficaram as beiras.
 Alentejo é aglutinação de além Tejo, uma perspectiva ribatejana (de cima do Tejo -- riba = cima), ou estremenha, para não darmos demasiada importância a Lisboa. -- Aliás Lisboa ganhou só importância depois da Reconquista por para si confluírem os abastecimenos do Ribatejo e da Estremadura. Nem na antiguidade nem no período muçulmano fora Lisboa grande cidade. Mas Lisboa sobrepôs-se; ainda há poucos anos ouvi do governo querer mudar a designação da região vinícola da Estremadura para região vinícola de Lisboa, ao que parece por Lisboa ser agora mais sonante que Estremadura. É. mas a intenção de mudar o nome aos vinhos é idiota.
 Adiante.
 Deixado atrás o Tejo, o além Tejo estendia-se até ao Algarve, nome dum reino muçulmano (al-Gharb al-Ândaluz) com identidade mais do que firmada ao tempo da sua reconquista pelos portugueses para se tornasse perene. Tanto que se manteve o nome e o reino até ao fim da monarquia portuguesa (e ainda hoje se o ouve dizer). Significa o Ocidente, perspectiva de quem o conquistou vindo do Oriente, os árabes naturalmente. Dessarte chamaram os mouros igualmente Algarve ao Norte de África, a Marrocos isto é. Não os distinguiam. E daí os reis portugueses se terem clamado por séculos senhores dos Algarves, daquém e dalém mar em África.
 Pois bem. Com todo este caminho até ao Algarve e do que se disse parece que continuamos no Oeste.

Alentejo, Portugal (Cartier-Bresson, 1955)
Alentejo, Portugal, 1955.
Cartier-Bresson / Magnum, in Velho Portugal.

* Torres, em singelo, toma-se sempre, ao que cuido saber, por Torres Vedras. Nunca o ouvi a assim referido a Torres Novas.
** Se porventura houve nome autóctone dado a esta província, não sei nada dele. Sei é que mesmo o provérbio para lá do Marão sabem os que lá estão é de quem está de cá do Marão.



Escrito com Bic Laranja às 18:25
Verbete | Comentar | Comentários (28)

Quinta-feira, 27 de Junho de 2013
Dia de greve geral


Carregadores de pedra, Aterro da Boavista (Lisboa), 190...
Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House.



Escrito com Bic Laranja às 10:51
Verbete | Comentar | Comentários (5)

Quarta-feira, 26 de Junho de 2013
Défice jornalístico



Escrito com Bic Laranja às 18:10
Verbete | Comentar | Comentários (7)

Le tivo



Escrito com Bic Laranja às 10:11
Verbete | Comentar | Comentários (10)

Terça-feira, 25 de Junho de 2013
Portugal

Campinos, Pombalinho (M. Gomes, 2011)
Campinos, Pombalinho, 2011.
Manuel Gomes, in O Pombalinhense.



Escrito com Bic Laranja às 01:04
Verbete | Comentar | Comentários (3)

Domingo, 23 de Junho de 2013
A aurora da civilização madrugou para todos

 Já me tinha cheirado que os mansos, à sorrelfa, tinham calado a tauromaquia na televisão. A aurora da civilização madrugou de mansinho para todos. Siga a imprensa.

Feira de gado, s.l. (Ch.-Flaviens, G:E:H., s.d.)
Feira de gado [saloios], Portugal, 1900-19.
Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House.



Escrito com Bic Laranja às 23:30
Verbete | Comentar | Comentários (3)

Ainda a linha do Corgo. E Trás-os-Montes...

Linha do Corgo (Rui Barbosa, 1978)
Linha do Corgo, 1978.
Rui Morais de Sousa, in Portugal Velho.

A provincia de Traz-os-Montes é um sertão desconhecido, um retalho de Portugal segregado da civilisação; mas não deixa por isso de ter uma chronica de tradições barbaras, que virá archivar-se em folhetins, quando os caminhos de ferro, construidos pelos capitalistas da Ovelhinha, aproximarem o contacto das intelligencias com as florestas virgens d'aquella região polar.
 Esse dia amanhecerá bem cedo. A aurora da civilisação madrugou para todos. A viabilidade discute-se á lareira. Mais d'um juiz das almas se extasia nas vastas theorias do caminho de ferro. O regedor de parochia rural, auxiliado pelo cura, apostolisam no adro, aos domingos, a theoria do augmento do salario pela facilidade dos transportes. Ha lavradores que addicionaram á leitura do Borda d'Agua as prelecções escriptas de economia politica do snr. dr. Carneiro. Alguns esperam concorrer ao mercado de Sevilha com cereaes e repolhos nas proximas colheitas. O enthusiasmo é universal. A expansão fervente dos interesses materiaes, a febre eloquente da viabilidade, os traços profundos e rasgados, com que as intelligencias financeiras fixam cathegoricamente o dia supremo da nossa prosperidade, não são já um exclusivo da mocidade jornalistica.
 O meu collega Ricardo Guimarães, que salta de noite em cuecas, fóra da cama, sonhando-se impellido por um wagon, doudeja de jubilo ao vêr-se comprehendido, no seu ardente apostolado, desde Monção até ao Cabo da Roca. Lateja-lhe o enthusiasmo nas bossas frontaes, cada vez que o alvião do operario rasga no seio da terra o tumulo do carroção ignobil! (Isto era escripto em 1853...)
 [...]
 Mais tarde, os pavidos moradores da Campeam, illustrados pela leitura repentina, e pelos artigos de fundo, virão, de sócos e coroça, nas azas do carril, applaudir os cavallinhos, saborear um ponche no Guichard, e influir seriamente no futuro da empreza lyrica.
 Então, sim! Mondroens, Villarinho de Cotas, e Canellas terão uma associação industrial, uma caixa filial, um gabinete de leitura, e um centro promotor das classes laboriosas. O cavador, na hora da sesta lerá, na vinha, de barriga ao ar, o Tymes, e Benjamin Constant. O proprietario, entregue ás subtilezas economicas, que distinguem o cabedal da renda, andará em guerra littetaria com o seu visinho da aldeia proxima, por causa d'uma falsa interpretação aos sophismas de Bastiat. N'esse dia, serão banidos os estupidos da face da terra. O proletariado, filho da estupidez, não virá coberto de farrapos pedir um bocado de pão, no banquete social, por conta do futuro fomento. Pouco ha-de viver quem não vir tudo isto.

Camillo Castello Branco, Scenas Contemporaneas, 2.ª ed., Cruz Coutinho, Porto, 1862, p. 133 e ss.



Escrito com Bic Laranja às 22:34
Verbete | Comentar | Comentários (3)

Quinta-feira, 20 de Junho de 2013
Linha do Corgo

Viaducto do Corgo, Peso da Régua (R.M.Sousa, 1978)
Linha do Corgo, [Peso da Régua], 1978
Rui Morais de Sousa, in Portugal Velho.



Escrito com Bic Laranja às 10:05
Verbete | Comentar | Comentários (3)

Quarta-feira, 19 de Junho de 2013
Sacor

Camiões cisterna da Sacor, Portagem de Sacavém, anos 60-70.
Camiões cisterna da Sacor, Portagem de Sacavém, anos 60-70.
In Restos de Colecção.



Escrito com Bic Laranja às 09:15
Verbete | Comentar | Comentários (3)

Terça-feira, 18 de Junho de 2013
Alto do Pina, 1972

Alto do Pina, Lisboa (Rui Trancoso, 1972)

 Acha-se esta publicada no Portugal Velho com um título meio sensacional, meio esquerdóide: A Vida num Bairro de Lata, Lisboa, 1972. -- Não ocorreu porem-lhe bairro de lata com vistas 5 estrelas, já que até deitava vista para o Sheraton? -- Havia de ser ironia refinada de mais, cuido. Ou de certo andarão as vistas mais fixas na lata do que nas estrelas...
 Depois, lendo lá os comentários, entrevejo desnorte e palpites de subúrbio que não dão para localizar a cena senão num lugar-comum: o Terceiro Mundo. Do vulgar achismo palpitante tiro sòmente que os horizontes são bem mais curtos na classe média hodierna do que no dito bairro de lata lisboeta em 1972. Pelo meio daquele alvedrio de subúrbio sempre escapa alguém secamente a atinar com o Norte: Rua Barão [de] Sabrosa.
 A final sempre era bairro, sim. Popular, não de lata. Se falamos de condições para a gente habitar, procurai o lugar no séc. XXI, a ver se lá mora hoje alguém em melhores condições do que no tempo do Terceiro Mundo.

Rua Barão de Sabrosa, 75-79, Alto do Pina (A. J. Ferandes, 1967)
Rua Barão de Sabrosa, 75-79, Alto do Pina, 1967.

 


Fotografias: Rui Trancoso (Portugal Velho) e Augusto de Jesus Fernandes (Arquivo Fotográfico da C.M.L.).



Escrito com Bic Laranja às 23:05
Verbete | Comentar | Comentários (11)

Segunda-feira, 17 de Junho de 2013
Das pilecas e dos lusitanos

Governo extinguiu Fundação Alter Real

  [...] Com cerca de 50 funcionários, a F.A.R. foi criada a [em] 1 de Março de 2007, após a extinção do Serviço Nacional Coudélico, no âmbito do Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado. O projecto da F.A.R. reuniu um grupo de 30 fundadores privados [i.é, particulares] que investiram 50 mil euros cada, além de se comprometerem a pagar uma quota anual superior a dois mil euros. Nos últimos anos, a F.A.R. acumulou um passivo de 2,5 milhões [leia-se dois milhões e meio] de euros e dívidas a empresas prestadoras de serviços [...]
TVI 24, 13/VI/13.

  Deixai-me aqui pensar alto.
  Em 2007 o Serviço Nacional Coudélico não servia para administrar uma coudelaria com quase 260 anos. Fez-se uma fundação. De 2007 a 2013 a fundação de «30 fundadores privados [i.é particulares]» afundou a coudelaria em dívidas. Está bom de ver o fartote, mas levou cinco anos ao governo a perceber...
  Pois siga lá então agora a Direcção Geral de Alimentação e Veterinária ou, por delegação, a Companhia das Lezírias. — Afinal o ordenado dum Director-Geral sempre é tabelado (com tendência para minguar) e já conta no Orçamento do Estado, com ou sem Alter Real a cargo. E ao depois da delegação o salário do presidente da Companhia das Lezírias nem onera mais ninguém pois é tirado do lucro da própria Companhia.
  Já remunerar presidentes de fundações e negócios perdulários são alcavalas extras... Cinco anos dele (disso) que ficam agora aí para as pilecas  contribuintes saldarem.
  Quedemo-nos agora antes com lusitanos...



Pas de trois. Escola Portuguesa de Arte Equestre, Paris, 2006.

(Revisto em 18 às 14h00)



Escrito com Bic Laranja às 22:15
Verbete | Comentar | Comentários (2)

Domingo, 16 de Junho de 2013
Postais de Lisboa (2.ª ed.)

Avenidas novíssimas: Alvalade, Av. de Roma, Areeiro...


Postais: António Passaporte: Lisboa, anos 50. Do Arquivo Fotográfico da C.M.L..


Música: Nat "King" Cole - Pretend -- Capitol Records (c) 1953

(Publicado originalmente há quase seis anos.)



Escrito com Bic Laranja às 15:15
Verbete

Sábado, 15 de Junho de 2013
O posto 6 da Caixa e a pilhagem

 O primeiro caso de demolição dum prédio modernista no eixo da Praça do Chile ao Areeiro foi  na Alameda. Foi demolido c. 1970 o prédio do gaveto do lado de baixo da Carvalho Araújo (Alameda de D. Afonso Henriques, 17; Carvalho Araújo, 103) para se ali fazer o mamarracho de 8 andares que serve de posto da Caixa (dantes era o posto 6, agora há-de ter nome mais pomposo, de certo).
 Não sei por que foi demolido então um prédio de pouco mais ou menos 30 anos. Estupidez e gosma ao dinheiro. Dinheiro público, porque o que se ali fez foi e é do Estado.

Alameda de Dom Afonso Henriques, Lisboa (M. Novais, c. 1948)
Alameda de Dom Afonso Henriques, Lisboa, c. 1948.
Mário de Novais, in Bibliotheca d' Arte da F.C.G..

 Ainda nos anos 70 foi demolido o n.º 66 da Alameda, de fins dos anos 30. Mais recentemente as mesmas mentes permitiram ao seu lado, o hotel mamarracho (Almirante Reis, 188) que está diante do Pão de Açucar.

Alameda de Dom Afonso Henriques, Lisboa (M. Novais, c. 1950)
Alameda de Dom Afonso Henriques, Lisboa, c. 1950.
Mário de Novais, in Bibliotheca d' Arte da F.C.G..

 Às mãos de trastes sem cultura cívica nem noção de História ou património imaterial -- que seria afinal seu -- morrem os restos de Portugal. Não vale a pena dizer mais nada...



Escrito com Bic Laranja às 22:15
Verbete | Comentar | Comentários (10)

Os agramáticos

 Estes do «i» têm também uma qualquer incompatibilidade com conjugações reflexas, vá lá entender-se porquê (*).
 Portugal cola então à Grécia! Cola-lhe o quê?!

«i», 15/VI/13
    («i», 15/VI/2013.)



(*) Vai daí até se entende: não é o nome do jornal um monossílabo...?



Escrito com Bic Laranja às 17:42
Verbete | Comentar | Comentários (9)

Manuel Salgado mandou parar a demolição quando só restavam dois pisos em pé?

Av. Almirante Reis, 233, Lisboa (Público, 15/6/2013)
  (Público, 15/VI/2013).

 Notícia muito interessante. Vi a chamada hoje de manhã na primeira página do «Público» mas ainda não a tinha lido. Leio-a agora e se quereis que vos diga a obra não parou, eu me parece. Ontem restava só o 1.º andar quando na segunda havia até ao 2.º. Já nada me surpreende nisto, nem a maçonaria andar por detrás destas intrujices, nem a vereação nos andar a encenar patranhas.
 Dei recado aos da Cidadania LX em 24 ou 25 de Maio, já a obra levava uma semana. Em 27 desse mês o recado fora recebido mas não entendido (talvez). Em 10 de Junho disse aqui em que pé estávamos. A verdade, que se entrevê melhor ou pior na notícia, é que estamos pior do que julgamos. E sem salvação, eu me parece.
 Por mim já me resignei. Portugal há muito que acabou, portanto tudo isto é por nada.



Escrito com Bic Laranja às 15:16
Verbete | Comentar | Comentários (8)

Sexta-feira, 14 de Junho de 2013
Tempo verbal sem sentido

 

 

 

 Epiphanio Dias diz-nos na sua «Syntaxe Historica Portuguesa» (§ 253. a) 1): — «Designa-se com o imperfeito o que tendo começado anteriormente, continuava ainda no tempo em que se deu um facto: Estava naquella casa havia 4 meses.» — Quanto se não ouve nem vê hoje: estava naquela casa 4 meses?

Há por havia...
(i, 14/VI/13.)



Escrito com Bic Laranja às 16:15
Verbete | Comentar | Comentários (10)

Quinta-feira, 13 de Junho de 2013
Galeria Camiliana: a filha do arcediago



« É uma bonita menina, para quem gosta d'um rosto oval, olhos azues, leite e rosas na face, labios acerejados e pequenos, dentes como perolas, olhar alegre e penetrante. Conversa com o papagaio, e o metal da sua voz tem aquelle timbre sonoro e puro, que nos faz jurar na belleza de quem falla, sem lhe vermos as feições. O papagaio salta-lhe á mão, e esta mão é pequena, dedos longos, rosados nas extremidades, transparentes como o collo de sua dona, onde o proprio Lucifer de Gautier choraria uma segunda lagrima, por se vêr impossibilitado de armar ás boas mulheres (quando é de suppôr que lhe não vão lá ter as peores...)
  Concordemos em que Rosa Guilhermina era uma bonita moça.
..
»

Camillo Castello Branco, A Filha do Arcediago, 2.ª ed., Porto, Cruz Coutinho, 1858, p. 8.



Escrito com Bic Laranja às 19:50
Verbete | Comentar

Galeria camiliana: a mãe da filha do arcediago



« — Anna do Carmo!...
   — Vm.ce espanta-se? É o que eu lhe digo...
   — Que figura tinha ella?
  — Era uma mocetona tirada das canellas, branca, cheia do peito, com os olhos mesmo concupiscentes como os do proprio demonio, e fallava sem vergonha diante de mim.
   — E sabe se foi essa a que elle casou?
   — Dizem-me que sim, até o homem é estrangeiro, por signal, e tem não sei que officio. Se vm.ce quizer, eu volto cá qualquer dia, e posso saber-lhe tudo isso a preceito.
   — Muito obrigado... eu não tenho interesse n'isso... »

Camillo Castello Branco, A Filha do Arcediago, 2.ª ed., Porto, Cruz Coutinho, 1858, p. 61.



Escrito com Bic Laranja às 07:55
Verbete | Comentar | Comentários (7)

Terça-feira, 11 de Junho de 2013
Chafariz das Terras (*)

 Há meia dúzia de annos escrevi sobre estes lugares lá para os lados da Pampulha, mas o assunto tinha-me passado. Lembro-me de ficar falado com o confrade Je Maintiendrai de nos 'atirarmos' ao Chafariz das Terras quando ou se ele tornasse à blogosfera, o que não sucedeu. E assim  mais esquecidas ainda as Terras ficaram.
 Ora há dias a prezada Helena teve a gentileza de me mostrar esta novidade antiga (entre inúmeras mais), a qual muito me intrigou.

Charariz das Terras, Lapa (A.F.C.M.L., post 1910)
Chafariz das Terras, Lisboa, post 1910.
(In Arquivo Fotográfico da C.M.L., A8294; imagem s/ marca de água por gentileza de Helena Águas.)

 Aventei que a scena fosse na Rua da Buraca que desce assim paralela ao aqueduto que ali passa e também porque ao fundo da qual o aqueduto inflecte para a esquerda, como na imagem. Cuidei então que a estrada em segundo plano pudesse ser a do Calhariz de Benfica. A fisionomia do lugar, porém, não jogava com a Buraca. Havia então de se verem os mapas do Levantamento da Planta de Lisboa - 1904-1911 seguindo primeiro o aqueduto das Agoas Livres, onde nada se via que batesse com a scena; depois eram de se explorar os ramais do dito aqueduto, começando pelo que levava água às Necessidades. Se não, logo se veria o quebra-cabeças...
 Pois bem, logo na primeira inflexão deste ramal do Aqueduto, assunto arrumado.
 A scena é da Rua do Pau da Bandeira. Ao fundo onde se ajuntam as lavadeiras é o Chafariz das Terras e a taberna das iscas e, lá adeante, cruzando a imagem, a Calçada das Necessidades. O palacete ao cimo da calçada sobrevive e corroborou o achado. O arvoredo que se estende e lhe esconde um corpo anexo é a tapada das Necessidades. No vale oculto entre o cômoro de cá e o de lá veio a rasgar-se a Av. do Infante Santo.
  Nas vistas de rua do Guglo comprovei com sastefação que a casinha mais alta da rua à dereita, com duas trapeiras e um pequena clarabóia, é o 46 da Rua do Pau da Bandeira; tem fachada de azulejos com uma imagem de santo sobre a porta e não está devoluta.
 A casa branca sobressaindo, de que se vêem as traseiras com estendais, também parece conservar-se, mas com modificações; é o n.º 17 da Calçada do Arco do Chafariz das Terras (v. http://binged.it/165iOjE).
 Ainda lá estar a  taberna das iscas a par do chafariz é que já era pedir demais.


(*) No título do verbete estava (mal) escrito «Charafiz das Terras», dei por ele há pedaço. Como quem cá passou não disse nada e quem cá não veio não tinha nada que dizer, emendei-o. É um quarto para as sete de doze de Junho.



Escrito com Bic Laranja às 21:25
Verbete | Comentar | Comentários (12)

Mamarracho de 5 estrelas

 Aí por 1970 um novo regozijo no município. Uma estalagem de 25 andares a poder albergar confortavelmente carradas hóspedes (hoje chama-se cliente a este tipo de freguesia); coisa a poder deitar boa sombra também nas ruas adjacentes (hoje chama-se-lhe a envolvente). A panorâmica sobre a cidade a cavalo em 25 andares é formidável, não nego, conquanto não haja mamarrachos iguais a empecê-la. O mais será uma questão de gosto urbanístico. Ou de falta dele.

A80994.jpg
Sheraton em construção, Lisboa, c. 1970.
In Arquivo Fotográfico da C.M.L. (A80994).



Escrito com Bic Laranja às 13:00
Verbete | Comentar

Outubro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


Visitante

Contador
Selo de garantia
Pesquisar
 
Ligações

Adamastor (O)
Apartado 53
Arquivo Digital 7cv
Bic Cristal
Blog[o] de Cheiros
Caminhos de Ferro Vale Fumaça
Carmo e a Trindade (O)
Chove
Cidade Surpreendente (A)
Corta-Fitas(pub)
Delito de Opinião
Dragoscópio
Eléctricos
Espectador Portuguez (O)
Estado Sentido
Eternas Saudades do Futuro
Fadocravo
Firefox contra o Acordo Ortográfico
H Gasolim Ultramarino
Ilustração Portuguesa
Lisboa
Lisboa de Antigamente
Lisboa Desaparecida
Menina Marota
Mercado de Bem-Fica
Meu Bazar de Ideias
Paixão por Lisboa
Pena e Espada(pub)
Pequena Alface (Da)
Perspectivas(pub)
Pombalinho
Porta da Loja
Porto e não só (Do)
Portugal em Postais Antigos(pub)
Retalhos de Bem-Fica
Restos de Colecção
Rio das Maçãs(pub)
Ruas de Lisboa com Alguma História
Ruinarte(pub)
Santa Nostalgia
Terra das Vacas (Na)
Ultramar

Arquivo

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

RSS
----