Segunda-feira, 31 de Agosto de 2015

Dos aguadeiros certificados

 O desfecho adivinhava-se. Adivinhei-o, mas só em parte...
 Os aguadeiros municipalizados responderam-me tão cheios de razão, tão cheios de razão, que louvado seja Deus de me haverem telegrafado a resposta por e-mail. Se não, era certo e sabido que me custaria mais outro sêlo do correio.
 Assim foi. Tinham razão em me estimar consumos porque, de lei, só têm dever de ir ler o contador de seis em seis meses ou uma fórmula legal assim. Tinham por conseguinte razãozíssima em me cobrar sucessivas estimativas de acordo com o histórico, em vez da água (que não consumi) e, sobre tudo, nem lhes falha o inalienável direito a receber no prazo... — Só não sei onde orquestraram o meu histórico de consumo de água porque só passados meses do fornecimento foram lá ler o contador.
 Mas tinham ainda mais razão: extravios de facturas são da conta dos correios; nada consigo (com eles). Portanto consigo estava tudo certinho, contas são contas. De somarem à minha a cartinha rezistada com aviso de corte por extravio de facturas nos correios, nem me lembro o que disseram, se disseram alguma coisa...
 Ponderando e sendo-lhes claro agora o histórico do meu consumo de água ser zero, a estimativa verteu-se a nada (Aleluia!) — Nada, salvo seja... Salvas as taxas e taxinhas, suas (deles) ou do diabo do governo a cavalo neles. E todos eles a cavalo em mim. O acerto far-se-ia...
 Uma conclusão que tiro, limpinha: ando a financiar aguadeiros municipalizados, primeiro, pagando-lhes por sete meses água que não consumi; segundo, acabando seu credor em módica dezena e coisa de euros, aguento pacientemente o saldo de contas, factura a factura, mês a mês, por mais dois meses.
 Outra conclusão, que não vou tirar porque me havia de sujar com palavrões, é sobre a cobrança de juros de mora da factura extraviada em Maio e liquidada de boa fé em 23 de Julho. Não me queixo do valor, òbviamente. É da moral que rege toda esta m... — perdão, este comércio!...

Água com $elo de qualidade. $erviço público certificado &c. &c. &c...

Escrito com Bic Laranja às 21:16
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...

Arco da Travessa do Monte, Graça (J.A Bárcia, 190...; A.P.C.M.L., A7602)
Arco da Travessa do Monte, Graça, 190...
José Arthur Leitão Bárcia, in archivo photographico da C.M.L.

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Domingo, 30 de Agosto de 2015

Faca e alguidar, jornalismo e sindicalismo

 Do caso do homem que matou três pessoas com caçadeira, diziam nos telejornais que foi desentendimento antigo de vizinhos por causa dum cão — disseram há um pedacinho no canal de informação da R.T.P que o cão foi ponto da discórdia. —  Imagino o brado nas redes ditas sociais se tem morrido o cão...
 Também não sei que releva ao caso o comentário (ou comunicado) do sindicato da polícia pedindo mais meios...
Capturar.jpg

Escrito com Bic Laranja às 21:20
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Guardador de margens

  A toada do «Guardador de Margens» tem o langor de noites estivais. Como hoje. Sinto nela o mormaço de noites modorrentas em que para aqui estamos... — Grande poeta, o Tê. Estupenda interpretação ao vivo de Rui Veloso no já longínquo concerto do Coliseu. — 1987!... Onde ele vai... — O Jaime foi quem comprou o álbum. Passei os anos 80 desligado do Rui Veloso. Só lhe liguei lá pelo fim da década, em 88 ou 89, quando me soava o Rui Veloso ao Vivo da cassete que gravei do disco do Jaime e quando, também por esse tempo, ouvia as mesmas cantigas ao bonacheirão do Luís Duarte nas Noites de Luar e na Casa da Lina. Saudosos tempos!

  Deu-me agora aqui para isto; a soedade a bater deve ser do Agosto a avizinahar-se do Setembro e do Verão a acabar-se...


*   *

 

Enquanto a cidade inteira vai digerindo o seu jantar
E todas as ruas e praças se lavam com essência de luar
Enquanto as estátuas famosas bebem brandies e aveledas
E as tílias se entreolham meigamente nas alamedas

Vou guardando as margens
Velando os lírios do jardim

Enquanto à meia-noite encerra mais uma sessão
E o senso-comum ressona tranquilo e pesado no colchão
Enquanto a cidade inteira lava os dentes e faz toilette
E os taxistas recolhem as sombras que restam da noite

Vou guardando as margens
Velando os lírios do jardim

Enquanto a luz do promontório ensina a costa ao barqueiro
E arde o rum forte no zimbório e traz lucidez ao faroleiro
Vou pondo malha sobre malha com o labor dum tapeceiro
Palavra, acorde, o som, a talha e a devoção de um mestre oleiro

Vou guardando as margens
Velando os lírios do jardim

Enquanto a cidade inteira vai feliz na sua faina
E o Sol boceja na ladeira ao som do martelo e da plaina
Saúdo a bruma e o orvalho e a luz do dia madrugado
Guardo as cartas no baralho, meu sono é enfim chegado

Vou guardando as margens
Velando os lírios do jardim  
Escrito com Bic Laranja às 01:04
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Sexta-feira, 28 de Agosto de 2015

Questões de semântica além da forma

 Peguei no vol. de el-rei D. Fernando da série dos reis de Portugal do Círculo e li três capítulos. Não peguei na crónica de Fernão Lopes da Livraria Civilização por menos trabalho. O português medieval encanta-me, mas justamente por ele dispersar-me-ia. O volumezeco de Rita Costa Gomes (prof.ª dr.ª) é de 2005, mais ligeiro; pareceu-me que havia de ir por ele mais a eito. Ou pensava eu...

  Há décadas que as cousas modernas por cá tendem aos baldões. Sem espanto notei que a onomástica e os topónimos no livro daquela prof.ª da Universidade Nova lhe saíam meios desgarrados. Fernão Lopes é tanto como é, como vem em ser «o cronista Lopes». Aleatòriamente. Estilo hesitante da autora, portanto.
  As personagens históricas ora vêm grafadas em português, ora não, embora a forma escolhida seja ao depois coerentemente continuada pela autora. Assim, D. João Manuel, grande de Castela e pai da rainha D.ª Constança Manuel — a que foi mulher do nosso rei D. Pedro —, é D. Juan Manuel. Mas D.ª Constança nunca é Constanza. Nem em solteira lá em Castela...
  A filha do rei D. Pedro, o Cruel, de Leão e Castela não é Constanza nem Constança; é Costança, mas deve ser gralha.
  Afonso XI de Castela não é Alfonso, mas a sua favorita é Leonor de Guzmán, não de Gusmão. Henrique de Trastâmara (Henrique II de Castela) também não é Enrique, valha-nos...
  João de Gante aparece sempre à portuguesa, o que lhe fica bem, mas é duque de Lancastre em vez de Lencastre.
  Inês — ou D.ª Inês — de Castro é «a Castro», não sei se pela tragédia se por desprezo... Sem porquê, sua irmã é Juana e não Joana de Castro.
 Critérios.

  Nos topónimos reparei que as terras castelhanas tendiam a vir em castelhano (Toro — onde Afonso XI teve prisioneira D.ª Constança Manuel antes de casar com o nosso D. Pedro I —, Ciudad Rodrigo...)
  Cuidei descobrir aqui um certo padrão: o pendor descai no português, salvo se for terra de Castela. Admitem-se excepções.
  Das «cidades prósperas» do «corredor europeu da Europa mais densamente povoada» [?!] como Bruges, Estrasburgo, Colónia, Basileia, Génova e Florença nada aponto ao uso destes topónimos consagrados. Estranha é a referência a «localidades estremenhas como Tomar, Abrantes, Leiria e Alenquer». Nem estremenhas no Ribatejo hão-de ser, incluída ou salva Leiria que não é lá...

  Edições decentes de livros de História, em português e não mui antigas, são já doutro tempo, e eram doutro modo, enfim!... Cuido se lhe punha maior rigor, havia regra de seguir o nosso cânone e a onomástica portuguesa consagrada. Talvez os vocabulários, prontuários &c. se hajam entretanto tornado supérfluos ante o internacionalíssimo novo saber da Academia portuguesa. Vai daí tornarem-se raridade manuseada só por certos bichos do mato.

  E ia em intermitências cogitando nisto através do 2.º ou do 3.º capítulo quando achei a rainha D.ª Beatriz de Castela, mãe de D. Fernando, «em estreita associação com a famosa D.ª Isabel de Aragão sua sogra». E adiante outra vez «D.ª Isabel de Aragão» (*).
  Bem verá o benévolo leitor, a custo, a sogra; trata-se da rainha Santa Isabel, a do milagre das rosas, rainha da paz, mulher de el-rei D. Dinis.
  Ora cá está outro padrão, deste não tenho dúvida: mil vezes falasse a autora na rainha Santa, mil vezes lhe omitiria a santidade, ainda que no-la ensine famosa e... sogra. É o padrão laico, republicano e socialista, o que vigora na Academia.

Rita Costa Gomes, D. Fernando, 1.ª ed., Círculo de Leitores e Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa [ah, pois é Portuguesa, é!], 2005.

 


(*) A tirada completa é D. Beatriz tinha vivido, ela mesma, em estreita associação com a famosa D. Isabel de Aragão sua sogra, da qual parece ter continuado muitas iniciativas e até um certo estilo de intervenção política em situações conflituosas e é, nos sublinhados que lhe ponho, não um certo mas todo um estilo do discurso corrente contemporâneo. O do jornalismo das TV e dos jornais. Ora vede se estreita associação em iniciativas de intervenção política não soa belìssimamente nos telejornais, hem!?...

Escrito com Bic Laranja às 23:02
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Da vida em «pack»



 Tirei hoje umas calças lavadas do guarda-vestidos — a sexta-feira é o dia informal («queijoal» à «amaricana»), mas mesmo assim… — Achei-lhe 0,50 € na algibeira. Foram à máquina de lavar e à engomadeira sem se perderem. Olha, deram-me há pedaço para uma bica no «vending».  — Barato! Tive demasia…

«Vending», a realidade da apresentação


 Reflicto. O «vending» é tão bem apessoado!... Em loiça, cremoso, aromático, quase se cheira. A realidade é que vem em copo de plástico.
 Também há jornais assim, mas em saco...

(Sortido de imagens made in Google.)

Escrito com Bic Laranja às 11:15
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Quinta-feira, 27 de Agosto de 2015

Dos gatinhos e doutros animais...

 Um gato vadio esparramou-se a mandriar num dos bancos esponjosos do pátio. Duas senhoras enternecidas prostram-se de ante em admiração e inquirem colegas de trabalho se querem um gato. Tal o enlevo!...
  Quando mo preguntam (*) respondo-lhes se já preguntaram ao gato se me quere ele a mim.
  Acham-me graça, creio dos sorrisos que me dirigem. Talvez me admirem a tirada de respeito pelo felino sem me medirem muito o alcance...
  Retiro-me com sua licença e com o recado de se me oferecerem um cavalo, aceito.

Campinos no Colete Encarnado, Vila Franca de Xira (A. Ferrari, 1950-70; A.P.C.M.L., FER006431)
Campinos, Vila Franca de Xira, 1950-70.
Amadeu Ferrari, in archivo photographico da C.M.L.

(*) V. preguntar / perguntar.

Escrito com Bic Laranja às 12:56
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Quarta-feira, 26 de Agosto de 2015

A bravata serôdia, pois é!

 Com este também não vamos longe. Arrola ainda por cima o acordita Seixas da Costa para defender o português e resvala na «coação» (por «coacção»). Vê-se bem como anda: é como omite o caco gráfico. Conversa.

 O português não interessa senão aos Portugueses. Se interessou a outros foi sempre para sacarem qualquer coisa. Andar em quimeras de português «língua global» ou «língua internacional» não é trabalho; são enfeites. O português vale o que os portugueses valerem e não vale nada sem portugueses, com portugueses apátridas, ou a falarem «amaricano» porque sim, por causa da globalização, dos mercados, do chique, da estupidez, enfim!… O resto são quimeras. Usem os Portugueses naturalmente a sua linguagem e o resto (com licença) cagando e andando.
 Estes gajinhos todos -- todos! -- há muito venderam as mães: a língua e a progenitora.
 (Já pedi licença.)  P.q.p.!

Alto do Parque Eduardo VII, Lisboa, 2007 (in Adamastor)
Alto do Parque, Lisboa, Dezembro / 2007.
In Arquivo de Brandão Ferreira.

Escrito com Bic Laranja às 22:37
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Get Smart númbaro 1

18758650_6jdAe.jpeg

Enviado do meu Smart Phone...

Escrito com Bic Laranja às 20:15
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Diario hypothetico d'uma republica menos revisionista

Diaro hypothetico d'uma republica menos revisionista

Escrito com Bic Laranja às 17:31
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Terça-feira, 25 de Agosto de 2015

Trabalhar por objectivos

A criatura não deslarga

E o tempo urge...

Escrito com Bic Laranja às 21:55
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Palmyra

3903_001.jpg (O Diabo, 25/VIII/15.)


 O que diz o recorte é verdade, especialmente a parte dos humanos e o leão. Mas de Palmyra já alguém viu realmente o templo rebentado? Eu não. Nem, parece, os das notícias.

 Mais. Ao trophéu de caça ninguém aceita o frete de o transportar para a sala de caça do dentista caçador, mas as relíquias de Palmyra muitos hão-de comprar.

Escrito com Bic Laranja às 11:06
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Domingo, 23 de Agosto de 2015

Cousas!

 O programa «Visita Guiada» é interessante. Mostra cousas de ver. Do que tenho visto os convidados são claros e sóbrios na exposição. Aprende-se. Já da apresentadora, a M.ª Paula Pinheiro, nem sei que diga: louvaminheira em exagêro, evidenciando-se com gestos exuberantes, irritantemente interpeladora, interrompe a cada passo e a despropósito, para dizer o quê?
 Lugares-comuns. Tolices. Cousas que se esperaria do excursionista deslumbrado e inconsciente da própria ignorância, mas que à nata do jornalismo letrado, como parece que é a apresentadora...
 Ao biógrafo do abade de Baçal, João Jacob, chega a corrigir a referência a achados archeologicos como documento (histórico) chamando-lhe objectos. Velada, mas imediata foi a resposta: — fosse um documento escrito, fosse um documento archeologico. — Tal a curteza de vistas que não vejo como ela (ou quem realizou o episódio) o chegue a alcançar... Já no arranque do programa castigara a syntaxe do português: — Neste museu estão reunidos grande parte dos achados archeologicos &c.
  Grande parte estão
, ou grande parte está? — Pois!...
 Isto para nem falar do genérico bilíngue do programa, sendo ao depois a locução toda em... português.

Visita Guiada, Ep. 4, Museu do Abade de Baçal (R.T.P. 2, 1/VI/15.)
(Visita Guiada = Guided Tour, Ep. 4, Museu do abade de Baçal, R.T.P. 2, 1/VI/15.)

Escrito com Bic Laranja às 21:54
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Sexta-feira, 21 de Agosto de 2015

600 anos

 Os do canal da memória tiveram-na de hoje pôr o prof. Hermano Saraiva num dos seus Horizontes da dita sobre a tomada de Ceuta. Os telejornais nem sei se o lembraram. A rapaziada do governo, se ouviu de Ceuta, há-de ter sido por algum eco de import/export que por lá passasse...

 O prof. Saraiva terminou o programa evocando Camões, declamando-lhe versos salteados duma elegia escrita estando o poeta em Ceuta (*). O tema da elegia são os temores da infidelidade da amada que ficara em terras de Espanha. Separado dela pelo mar, inspira-se no alto do monte Ábila contemplando o Calpe, do lado das espanhas, onde se ela quedara.
 No exórdio Camões compara o seu destino infausto ao da ninfa Eco, condenada por Hera a não se fazer ouvir e poder apenas repetir as últimas sílabas dos outros; assim o poeta em Ceuta, condenado a sòmente ecoar o seu próprio ser primeiro em que teve a plenitude do amor.

Aquela que de amor descomedido
pelo fermoso moço se perdeu
que só por si de amores foi perdido,

despois que a deusa em pedra a converteu
de seu humano gesto verdadeiro,
a última voz só lhe concedeu;

assi meu mal do próprio ser primeiro
outra cousa nenhũa me consente
que este canto que escrevo derradeiro.

[...]

 Da tomada de Ceuta e da glória de Portugal tivemos oficialmente hoje menos que mitologia: nem eco.

José Hermano Saraiva, Horizontes da Memória.
(R.T.P., 2002, in Lusitano27BC)



(*) Sigo M.ª de Lourdes Saraiva, Lírica III, Imprensa Nacional, 1981.

Escrito com Bic Laranja às 21:15
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Quarta-feira, 19 de Agosto de 2015

O nicho da imagem

 N' O Diabo da semana passada sugeriam um livro Segredos de Lisboa (Inês Ribeiro e Raquel Policarpo, Esfera dos Livros) nestes termos:

« Uma Lisboa desconhecida está à nossa espera num museu, num parque de estacionamento ou até numa improvável casa de banho [...] No Largo da Sé desça á casa de banho pública e depare-se com vestígios de um prédio anterior ao terramoto [...] Inês Ribeiro e Raquel Policarpo guiam-nos por uma Lisboa repleta de segredos &c. &c. »

 Casas de banho... Confronte-se o estilo com o de Júlio de Castilho a expor novidades antigas, mesmo se até melindrosas.
 O nicho da imagem era na esquina do Caracol da Penha com a Rua de Arroios e deu nome ao sítio, estendendo-se a uma quinta adjacente, a Quinta da Imagem de que já falei e tornei a falar: eis o que nos o mestre Júlio de Castliho contou. E como contava:

« O próprio Caracol da Penha (que parece tão calado), se o interrogarmos, dir-nos-á que ainda em 1857 não era mais que uma estreita e pitoresca azinhaga [...] Ora em 1753 morava no seu palácio junto ao campo de Santa Bárbara, defronte do senhor de Murça (o prédio Mesquitela) o conde de S. Miguel, velho; muito perto ficava o nicho da imagem; aí tinha então uma tenda certa mulher, cuja filha entreteve com o conde Álvaro um romance que não vem para aquí, e que desfechou afinal em ter de se recolher a tendeirinha para não sei que mosteiro.
   Convença-se o leitor que tudo são romances neste mundo, e de que as esquinas de uma cidade, grande e populosa como esta, têm mais histórias para contar do que Dumas ou Júlio Denís. O caso todo está em saber prestar ouvidos.»

Lisboa Antiga. Bairros Orientais, 2.ª ed., v. IX, C.M.L., Lisboa, 1937, p. 172.

 Cheira-me todavia que os ouvidos hoje perdem muito por falta de faro para contar o antigo, não sei... Ouvir as esquinas da cidade podia soar como cheirar aquela casa de banho d' O Diabo e no entanto...
 Deixo a imagem encantada do misterioso nicho da dita como possìvelmente impressionou o mestre Júlio de Castilho e lhe deu azo a várias histórias. Desencantei-a no archivo photographico. Infelizmente não na achei[-a] com melhor qualidade e consta[ndo] que a chapa do negativo em vidro se partiu.

 

Nicho da imagem, Rua de Arroios, 86 (A.P.C.M.L., c. 1900; A1300
Nicho da imagem outrora no gaveto da R. de Arroios com a Marques da Silva (Caracol da Penha)
, Lisboa, c. 1900.

Photographo não ident., in archivo photographico da C.M.L., A1300.

 

(Revisto. Remissões às dez e meia. Ampliação em 21, ao ¼ para as 2 da tarde, que permite ver o vulto uma quitandeira na soleira da porta que dava para o Caracol da Penha; identificar a placa de prohibido affixar annuncios n'esta propriedade e reconhecer uma caravela foreira à direita da sacada, no lado oposto do nicho da imagem.)

Escrito com Bic Laranja às 19:34
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