Domingo, 9 de Abril de 2017
D' «Os Flechas»

 O Dragão revelou-o com entusiasmo. Pus dúvidas. Ao José também. O acordês bordaleiro que o A. admitiu na «obra» é para rejeição a priori. Todavia, o confrade Henrique tratou de me generosamente oferecer o livro (obrigado!) em condição de ser corrigido para português pelo Lince que ele próprio consertou. (É verdade! O Lince que conserta a ortografia portuguesa em vez da a mutilar existe. — Outra vez obrigado!)
  Vai daí, já o li...

 Sôbre os Flechas aproveitam-se os capítulos 3-5 em português de estilo... possível.

« Outra vantagem muito apreciada pelos militares e pela P.I.D.E./D.G.S. era a sua extrema lealdade e devoção aos seus comandantes. Durante o seu serviço à P.I.D.E./D.G.S., não houve notícia de nenhuma deserção dos Flechas, nem de nenhuma captura sua pelos movimentos insurgentes. Registaram-se, porém algumas mortes de Flechas em combate.
  [...] No período compreendido entre 1970 e 1973, a maioria das operações executadas pelos Flechas teve como área de actuação a Zona Militar Leste [de Angola], num total de 119 missões, das quais 88 ocorreram em 1972. Esse ano acabou por representar um marco na luta contra os insurgentes do M.P.L.A., fruto das rupturas internas do próprio movimento [decorrentes] do desmantelamento de toda a estrutura logísitca proveniente da Zâmbia, das acções dos Flechas e do esforço coordenado entre os militares, a P.I.D.E./D.G.S. e os congéneres vizinhos da Rodésia e África do Sul.

  [...] Na frente Leste, a zona de guerra mais activa em Angola, os Flechas capturaram 46 insurgentes, mataram mais de 134, apreenderam largas quantidades de armas, munições e documentos importantíssimos, bem como libertaram muita da população que se encontrava refém dos grupos insurgentes.
  [...] Numa intervenção dos Flechas, pelas nove da manhã de 18 de Fevereiro de 1971, destruíram-se dois acampamentos do M.P.L.A. perto da fronteira com a Zâmbia, chefiados pelo insurgente Chicungulo. Os Flechas abateram três insurgentes confirmados, recuperaram um homem, três mulheres, seis crianças e apreenderam um canhão sem recuo de 75 milímetros, com tripé e protector de boca. O canhão apresentava as seguintes inscrições na parte posterior da câmara de explosão:

FRESTONG
115 LBS
INSP. B.A.S.
Riple 75m/m
ORD. CORPS U.S.A.
n. 7229965

  [...] O sucedido motivou uma missiva dirigida à Embaixada dos Estados Unidos da América em Lisboa. O então adido de defesa, coronel P. L. Mosier acusou a recepção da carta [...] »

Fernando Cavaleiro Ângelo, Os Flechas. A Tropa Secreta da P.I.D.E./D.G.S. na Guerra de Angola, Casa das Letras, Alfragide, 2017.

 O resto é palha anticolonialista dando a comer aos nunca por demais doutrinados burros do presente os dogmas em vigor. Uma redundante doutrinação, tanto mais estúpida quanto o A., imerso em anticolonialismo e valores de Abril, nem dela deve ter noção. E tanto mais paradoxal ainda quanto tem o dito A. a coragem de afirmar (não propor, nem sugerir: afirmar!) a enorme heresia de que a guerra do ultramar fôra ganha em Angola, no terreno, a guerrilha fôra reduzida a coisa nenhuma e Angola estava pacificada em 1974. No entanto é-lhe impossível sair do caldo de caserna pós-abrilino, metido em carolas assim, que não pensam, apenas reverberam o som emitido dos púlpitos da propaganda:

« Os políticos da Metrópole [...] conseguiram inexplicavelmente hipotecar os árduos ganhos militares conseguidos com sangue suor e lágrimas, ao não consentir uma aproximação e negociação com os movimentos insurgentes.»

 Disto, basta dizer: 1) quem hipotecou tudo (Portugal por inteiro) foi o levantamento de rancho da tropa metropolitana em 25 de Abril de 1974 (quantos daqueles capitães foram condecorados por bravura na frente de batalha?...); 2) negociar era simplesmente capitular, como se depois provou com a tropa toda, lá no Ultramar, baixando as armas (já para não falar duns que acabaram a desfilar em cuecas...)

  Mas isto, era preciso entendê-lo. E porém, deste entendimento falho saem antes tiradas como:

  • «as últimas potências colonialistas de África», referindo-se a Portugal, Rodésia e África do Sul (alvíssaras a alguém que entenda que as fronteiras dos Estados paridos destes malditos colonialistas são tão coloniais como no tempo do... colonialismo);
  • «movimentos insurgentes nacionalistas» que são eufemismo, ao longo de todo o livro, para terroristas e guerrilheiros que combatiam Portugal — o móbil nacionalista é, aliás, neste tipo de doutrinação pelo discurso, descaradamente legitimador da guerrilha, mas no caso da defesa nacional portuguesa é posto em termos de regime («o regime de Salazar» — a defesa do Ultramar foi realmente coisa do tal regime, desde a conquista de Ceuta em 1415 por el-rei D. João I, garantidamente...);
  • a referência anacrónica à Guiné portuguesa, naquele tempo, quase sempre e só como Guiné-Bissau, coisa do P.A.I.G.C., de 1975 (vamos que o historiador o não soubesse...);
  • a referência como «países vizinhos [de Angola]» a República do Congo, a República Democrática do Congo, a Tanzânia [!] e a Zâmbia;
  • &c.

 O texto está pejado de anglicismos* (ou o normal crioulo amaricano como novo paradigma do português), comprovando fraco domínio da cultura portuguesa num oficial da Armada à procura de devir historiador. Ex.: insurgência/insurgente por subversão, guerrilha, terrorista &c.; inteligência por serviço secreto, de informações, espionagem; decepção (do ing. deception — v. to deceive) por ludíbrio, engano; disruptivo por interrupção, quebra, corte, rompimento; revisitar por rever, reconsiderar &c.; Lawrence das Arábias por Lourenço da Arábia...

  O uso do acordo ortográfico no livro comprova a conformação «nacional» deste oficial da Armada Portuguesa. E espelha cabalmente, em suma, o naufrágio português.

  (Não obstante toda esta conformação mal amanhada, a editora Casa das Letras deve envergonhar-se do livro. Tanto que nem se o acha na sua página.)


* Anglicismos semânticos. Convém-me dizê-lo por inteiro porque passam aqui lexicógrafos demasiado emproados para o captarem.



Escrito com Bic Laranja às 20:25
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