Domingo, 31 de Dezembro de 2017

À roda meia-noite

Eléctrico 333, Alcântara-Terra (T. Boric, 1978)

Legenda do fotógrafo: eléctrico da carreira 19 em lisboa, á espera c. da meia-noite no terminus em Alcântara (Tim Boric, 1978).

Escrito com Bic Laranja às 23:55
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Sexta-feira, 29 de Dezembro de 2017

O umbigo de Marcelo

 Marcelo de Sousa, disseram há pedaço no telejornal, tem dois caixotes de documentos e livros no quarto. Este volumezinho já o ele leu mais duma vez no post operatório. Leu e gostou.


(A lista de Marcelo outrora na periférica.)

Escrito com Bic Laranja às 20:13
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Tio Zé Lapa

  No tempo do bilhete operário o tio Zé Lapa ia e voltava do trabalho no carro eléctrico. Era também costume naquele tempo, à medida que o eléctrico seguia o seu percurso, o cobrador [condutor, vulgo, pica-bilhetes] ir dizendo alto o nome dos sítios principais onde passavam.
 — SOCORRO! — avisava ele por alturas do Martim Moniz. — INTENDENTE! — dizia a seguir, a caminho de Arroios. — ANJOS! — E assim por diante.
  Vezes houve no regresso a casa que o tio Zé Lapa lhe dava tal moleza que se deixava dormir no eléctrico. Era um dormitar de orelha meia arrebitada, entremeado aqui e ali pelos pregões do pica-bilhetes. Numa daquelas vezes pegou no sono mal quase se sentou. Ouviu talvez um distante e sonolento «SOCORRO!» logo ali na Rua da Palma e ferrou a dormir. Quase que despertou, ao depois, com um sonoro «ANJOS!». Mas sem abrir os olhos só se ajeitou no banco para prolongar a soneca até Arroios. 
  — INTENDENTE!
 Mau!... Intendente?! Ali o tio Zé Lapa esbugalhou pela janela os olhos estremunhados. Que diabo! O carro eléctrico já ia de volta; descia em boa marcha a Rua da Palma! Saltou do atribulado eléctrico mal ele estacou no sinaleiro da Rua São Lázaro. Apressado, atravessando a rua, deu notícia do pica-bilhetes o fitar anunciando aos passageiros:
  — SOCORRO!

Rua da Palma, Lisboa (E. Portugal, 194...)
Rua da Palma, Lisboa, s.d..
Foto de Eduardo Portugal.

  Naquele dia o tio Zé Lapa chegou mais tarde para jantar. Nunca se convenceu que a sopa tardia não tivesse um saibo de malícia de pica-bilhetes.

(Publicado originalmente em 27 de Setembro de 2006 às 10 menos 24 da noite.)

Escrito com Bic Laranja às 16:02
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Cenário de esquerda com carreta à direita (I.V.A. à taxa legal)

 Agora que se fala em partidos, merece a pena ler a legenda [o mural, queria dizer]. O governo parece que era de direita. Mas o cenário é, todo ele, de esquerda; incluída a carreta funerária à direita e a base do arco grande do aqueduto 25 de Abril.
 O autocarro foi da Carris. Antes de ser nacionalizado.

Autocarro da Serafina, Campolide (M. Rhodes, 1983)
Autocarro do B.º da Serafina, Campolide, 1983.
Mike Rhodes, in Flicker.

Escrito com Bic Laranja às 15:29
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Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2017

Rui... rio...

Subo e desço este rio
De Miranda ao Areinho
Sob a torreira e o frio
Faço a escarpa brotar vinho

Sonhei que era o Mississipi
E que Mênfis era no Pinhão
Vindimando ao som de adufe
Bandolim e acordeão

Rio abaixo rio acima
A dar aos remos no rabelo
Rio abaixo rio acima
Sayago paira por cima
O sonho vira pesadelo

Vinha eu no meu caíco
A ouvir das águas do Douro
Velhas lendas de fronteira
Entre o cristão e o mouro

Quando vi um pescador
Olhando o rio inconsolável
Que é da enguia e do robalo
Da tainha e do sável

Rio abaixo rio acima
A dar aos remos no rabelo
Rio abaixo rio acima
Sayago paira por cima
O sonho vira pesadelo

(bis)


Rui Veloso, Sayago Blues
Concerto Acústico, 2003.


Não é mau, este Rui rio abaixo, rio acima...

 


Sayago Blues. Letra e música: Carlos Tê / Rui Veloso.



... Mas quando o comparo com o Rui rio abaixo, rio acima ao vivo no Coliseu em 1987… — Pois! Já lá vão 30 anos!…


Rui Veloso, Sayago Blues
(Ao Vivo, 1988)

 

Escrito com Bic Laranja às 21:04
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Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2017

Nesga da Betesga

Eléctrico da Gomes Freire, Rua da Betesga (ou Pr. da Figueira) (T. Boric, 1981)
Eléctrico da Gomes Freire, Rua da Betesga (ou Praça da Figueira), 1981.
Fotografia de Tim Boric.

Escrito com Bic Laranja às 17:52
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Segunda-feira, 25 de Dezembro de 2017

Trinitá

 Do baú dos natais esquecidos recordei certa vez que no tempo das tardes de Natal com o circo do Billy Smart e das manhãs de Ano Novo com saltos de esqui na televisão, também havia irmos ao cinema: havia os filmes do Trinitá... Ir ao cinema era uma das prendas de Natal do tempo da minha infância (tempo em que os abrasileirados presentes pouco se ouviam).
 Por 2014, alguém a dava por finalmente achada, a voz original do «Trinitá, Cowboy Insolente»; na Austrália, em sua casa, no seu sofá, ante uma rica taça de vinho. Annibale Giannarelli.

 

Annibale Gianarelli, «O verdadeiro e original de Trinitá, Cowboy Insolente».
(por Daniele Giannarelli, in Youtube, 2014)



 Trinitá foi um nome que pegou por aí: nalguns bares, cafés ou pastelarias, nalguns pintas mais toleirões... E o assovio da melodia não havia quem no não soubesse; todos os putos lá da rua o sabíamos. Ainda há pouco o ouvi num telemóvel. Era dum manganão da minha idade.

Trinitá Cowboy Insolente, 1970.

Escrito com Bic Laranja às 16:12
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Espírito dos natais presentes

 Em atenção à quadra e ao ermamento lexical oratório-televisivo, estão abolidas as «prendas» na linguagem. Há apenas e só «presentes».
 Siga!


O Natal descartável, subúrbios, 2005.

Escrito com Bic Laranja às 14:42
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Domingo, 24 de Dezembro de 2017

Tempos do fim

 A Polícia de Segurança Pública (portuguesa) fez fingiu uma cantiga de Feliz Natal (em amaricano) na melhor tradição pop contemporânea (amaricana). — Vi no noticiário ao meio-dia.
  No mesmo noticiário a notícia «[A] Venezuela expulsa dois diplomatas do Brasil e do Canadá», dada assim: A Presidente da Assembleia Nacional Constituinte venezuelana considerou o embaixador brasileiro Ruy Carlos Pereira e o diplomata canadiano Craig Kowalik "personas non gratas" no país.
  Personae non gratae
é latim. Personas non gratas bem vejo o que é (*).
  Estamos no advento, sim, mas no advento doutra era.

Personae-non-gratae-(SIC-N,.jpg
Jornal do Meio-Dia, S.I.C.-N., 24/12/17.

_______
(*) A locução latina persona non grata usa-se no nominativo, singular ou plural; personas non gratas é o plural, mas do acusativo; declinar latim a um jornalista, porém, é hoje escusado.

Escrito com Bic Laranja às 13:16
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Sábado, 23 de Dezembro de 2017

Cartão de Natal



Natal, Carlo Maratti, c. 1650 — Óleo sobre tela, 90 x 75 cm (Galeria Gemälde, Dresda)

Natal *

Carlo Maratti, c. 1650 — Óleo sobre tela, 90 x 75 cm
(Galeria de Pinturas, Dresda)


 


 

 

 

Aos benévolos leitores que
generosamente visitam este blogo,
sinceros votos de

 



FELIZ NATAL


A todos


BOAS FESTAS !

 

 

 

 

Escrito com Bic Laranja às 14:56
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Sexta-feira, 22 de Dezembro de 2017

Crepúsculo

Av. dos Estados Unidos, Lisboa (A. Pastor, 197...)

Av. dos Estados Unidos, Lisboa, 197...
Artur Pastor, in Arquivo Fotogáfico da C.M.L.

Escrito com Bic Laranja às 18:18
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Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2017

Concessão à bola

Pus-me agora a ver a bola. Ia dizer isto e que o Sportem está a jogar ao contrário; era o que meu pai diria. O meu pai não gostava assim. Era uma daquelas fèzadas de dar galo. Não que desse, mas podia dar. Pois, olha! O Sportem acabou de meter golo.

 

Entrada do campo do Sporting, Campo Grande (E. Portugal, 1938)

Entrada do campo do Sportem, Campo Grande, 1938.
Eduardo Portugal, in archivo photographico da C.M.L.

Escrito com Bic Laranja às 21:38
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Domingo, 17 de Dezembro de 2017

Lisboa moderníssima

Viaduto, Av. dos Estados Unidos (A. Pastor, 197...)

Viaduto da Av. dos Estados Unidos, Lisboa, 197...
Artur Pastor, in Arquivo Fotogáfico da C.M.L.

Escrito com Bic Laranja às 17:35
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Lisboa moderna

Praça de Alvalade, Lisboa, c. 1970 (Artur Pastor, in archivo photographico da C.M.L.

Praça de Alvalade, Lisboa, c. 1970.
Artur Pastor, in archivo photographico da C.M.L.

Escrito com Bic Laranja às 16:43
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Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017

Avó gera neto?!

O jornalismo é bom, a linguagem é que atrapalha:

 Uma avó portuguesa vai mesmo poder gerar o neto. O Conselho de Procriação Medicamente Assistida deu luz verde à primeira gravidez de substituição em Portugal (R.T.P., 15/XII/17).

 Pela ordem natural, quem gera é mãe (e pai); quem incuba é incubadora. Se a incubadora é a mãe da progenitora (agora é mãe biológica), um ventre alugado ou uma chocadeira eléctrica, é o admirável mundo novo em gestação. Mas não é dele a trapalhice da linguagem. Ou é.

Diccionaro Contemporaneo da Língua Portugueza, Imprensa Nacional, Lisboa, 1881.

Escrito com Bic Laranja às 21:12
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Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017

Dos tudantes em chachada, perdão, em luta

 Parece que há um protesto dos tudantes da Faculdade de Direito de Lisboa. A repórter Raquel Leitoa no local diz que já irá falar com presidente da Associação dos Tudantes para que — e cito — nos plique esta forma de luta.
 Antes da plicação vai adiantando que esta forma de luta é contra não sei quê mais os testes critos, e que a polícia está dentro da faculdade.

 (Ninguém pense, porém, agora aqui, em fascismo: bem que há luta, bem que há policia dentro da faculdade mas em fascismo não teriamos polícia dentro da faculdade; ela estaria ocupada pela polícia — de choque; agora, a democracia é um facto e o Estado de Direito não falha. É tudo claro na linguagem.)

 Prossegue a Raquel Leitoa em directo no local:
 — Vou agora falar com o presidente [da A.E.] para perceber as reivindicações dele [sic].
 Ele:
 — Há um incumprimento (*) dos direitos consagrados no regulamento. Os professores não sabem o regulamento. Os professores ensinam leis, não sabem aplicar a Lei.

 (O presidente dos tudantes protesta para que os professores de leis apliquem a Lei. Quererá, em extensão da luta, sanear já os juízes de Direito?)

 Prossegue ainda a Raquel:
 — A polícia está a entrar para dentro [passe o pleonasmo] da faculdade atrás deles [dos tudantes]. Formou um cordão humano [a polícia em democracia é composta de humanos, é também um facto...] Vai pedir a estes tudantes que se dirijam para a escadaria...

  Na democracia em forma de luta, na democracia do protesto dos direitos dos tudantes contra professores que ensinam leis e não sabem nem aplicam o regulamento, a polícia não ordena, pede. Depois protestem que não há condições!... Condigões!...

Untitled

Numa faculdade sem condigões [sic], fecham-se os portões, R.T.P., 12/12/17.
______
(*) A palavra incumprimento é um epifenómeno do inconseguimento geral — e dum aluno de Direito em particular de proferir simplesmente a expressão violar a lei. Ou  o regulamento, vá!

(Revisto às oito e meia da noute.)

Escrito com Bic Laranja às 09:38
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