Terça-feira, 24 de Novembro de 2009
Quadros alentejanos

  - Duma vez apareceu aqui um figurão do Cercal que tinha fama de grande caçador.  Trazia espingarda, mas dizia ele que era por causa dos maus encontros. A desculpa era ver se comprava uma porção de aveia, porque não a havia lá nos sítios, e a que recolhera não chegava para os gastos da casa. Eu sabia que ele vinha de propósito para me dar um bigode às perdizes, mas disfarcei como quem não quer a coisa, e perguntei-lhe se lá pelo Cercal havia muita caça. Vai ele diz que coelhos havia muitos, mas relativo a perdizes era uma cítula aparecer uma. Os caçadores do Cercal, para verem perdizes, têm que ir até perto de Sines ou Vila Nova de Mil Fontes... Na minha opinião é a caça mais bonita que há.
  «Disse-lhe que por aqui há muita perdiz, e que se ele quisesse iríamos dar uma volta, depois de almoço, por onde elas estão mais crençudas, não precisando andar muito para as vermos às dúzias.
  «Abalámos de casa, engolido o bocado, e quando chegámos àquele matinho ralo da lagoa da Ordem, muito farto de caça, eu disse ao sujeito: “- O chumbo fez-se para os pardais; às perdizes não se atira senão bala.”
  «O homem embezerrou, mas disse que sim, e tratou de meter balas na espingarda, uma rica espingarda de dois canos, que lhe tinha custado cinquenta e tantas libras em Lisboa.
  «Larguei-lhe então esta: “- Como o amigo é caçador afamado, fica justo que só atiramos à cabeça das perdizes.”
  «Ia-lhe dando uma coisa; mas das tripas fez coração e disse que sim, resmungando entre dentes: “- Veremos quantas derrubas.”
  «Por volta do sol-posto, quando demos a caçada por concluída, eu tinha dezoito perdizes na mochila, todas sem cabeça, e ele trazia um rico ánaco à cinta. Não quis jantar, o raio do homem, e abalou, note fechada, a caminho do Cercal, levando seis perdizes que eu lhe meti na mochila, sem ele dar por isso.

Brito Camacho, Quadros Alentejanos, 2ª ed., Bonecos Rebeldes, Lisboa, 2009, p. 27, 28.

 


(Capa: Fernando Martins, in Aspirina B)



Escrito com Bic Laranja às 23:55
Verbete | Comentar |

Comentários:
De MCV a 25 de Novembro de 2009 às 18:51
Tem uma série de livros sobre a zona que era a dele e que é a minha muito interessantes.
Abraço


De Bic Laranja a 25 de Novembro de 2009 às 22:15
Calculava que sim. Abraço :)


De Luciana a 25 de Novembro de 2009 às 21:55
Engraçada descrição da coisa… Não sou adepta de caça, mas mesmo assim achei a história muito curiosa. E imaginar a imensidão do Alentejo é sempre maravilhoso!...

E ainda bem que o Bic deu a “tradução”, senão ficava eu sem “pescar” nada! :-)

Abraço


De Bic Laranja a 25 de Novembro de 2009 às 22:34
Pois nestes Quadros... viaja-se no dito espaço espaço e no tempo.
As palavras, necessariamente tive que ir por elas, que também não sabia o significado. Ficou-me a sobrar ánaco, que não encontro nos meus dicionários de Português e que imagino se será algo exótico (Quechua) pela via espanhola...
Cumpts. :)


De Luciana a 26 de Novembro de 2009 às 16:30
No meu dicionário, da Porto Editora, diz:

substantivo masculino,
novilho de um ano; anaco; anejo;
(Do lat. annicùlu-, «de um ano»)


Será isto? :-)

Abraço


De Bic Laranja a 26 de Novembro de 2009 às 16:32
Também vi essa. A ser não faz muito sentido. Cumpts.


De Luciana a 26 de Novembro de 2009 às 16:38
Se o homem for muito grande e forte pode trazer um novilho bebé à cintura! :-)

Abraço


De Bic Laranja a 26 de Novembro de 2009 às 16:42
Chegou a ver as reticências numa resposta acima? Que lhe parece?
Cumpts.


De Luciana a 26 de Novembro de 2009 às 16:46
O que quer dizer: "se ciñen las indias"? :-)


De Bic Laranja a 26 de Novembro de 2009 às 18:53
Cingem, apertam em volta [da cintura]... - no que se conclui que o Castelhano é subsidiário do Português.
Fora de brincadeira, a definição certa é saia das índias do Brasil; encontrei-a agora no Dicionário Prático Ilustrado; Novo Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro publicado sob a direcção de Jaime de Séguier (ed. actualizada e aumentada por José Lello e Edgar Lello), Lello & Irmão, Porto, 1976.
Cumpts.


De Attenti al Gatti a 25 de Novembro de 2009 às 22:49
Suponho que terá um significado semelhante a "levar uma grade para casa" que, na gíria dos amadores da pesca à linha, quer dízer não pescar nada.
A.v.o.


De Bic Laranja a 26 de Novembro de 2009 às 12:15
É uma boa expressão, essa. A que se deve?
Cumpts.


De Attenti al Gatti a 26 de Novembro de 2009 às 20:12
Conheço-a de otiva há muitos anos. Quanto às origens, quedo-me na perfeita ignorância e nunca obtive qualquer explicação que me elucidasse. Ás vezes, estas coisas tem uma origem prosaica: por qualquer motivo alguém proferiu uma frase, que acabou por fazer escola.
A.v.o.


De Luciana a 26 de Novembro de 2009 às 16:31
Então se calhar eu lá tinha razão ao falar em pesca! :-)

Abraço


Comentar

Fevereiro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28


Visitante
Contador

Pesquisar
 
Artigos recentes

Paradoxos

Variedades: anos 90

Terreirinho das Farinhas ...

Terreirinho das Farinhas

Restos de feira

As grandezas do sr. minis...

Gaieties

...

Variedades: Aretha Frankl...

Do canibalismo arquitectó...

Planta da Real Quinta de ...

Caxias

Arquivo

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Ligações

Alma Lusíada
Ana de Amsterdam
Bic Cristal
Blogo de Cheiros
Blogo da Rua Nove Onze
Bons Tempos, Hein!
Cabo Carvoeiro
Caixa-de-lata
Caminhos de Ferro Vale Fumaça
Carmo e a Trindade (O)
Carreira da Índia
Cidade Surpreendente (A)
Coisa Pouca
Com Blogs de Ver
Combustões
Criativemo-nos
Delito de Opinião
Dias que Voam
Dr. Engº
Eléctricos
Estado Sentido
Eu não pago
Fadocravo
Funes el Memorioso
H Gasolim Ultramarino
Jansenista (O)
Lisboa
Lisboa Antiga
Lisboa Desaparecida
Lisboa S.O.S.
Lisbon Revisited
Luas da Gata Tata (As)
Menina Marota
Mercado de Bem-Fica
Meu Bazar de Ideias
Miss Pearls
Nocturno
Nova Floresta
Pipàterra
Pombalinho
Por Tu Graal
Portugal dos Pequeninos
Portugal em Postais Antigos
Retalhos de Bem-Fica
Rio das Maçãs
Ruas de Lisboa com Alguma História
Ruinarte
Sobre o tempo que passa
Tomar Partido
Twice, Three Times...
Verde Água
Vira-Vento

Fides