- Duma vez apareceu aqui um figurão do Cercal que tinha fama de grande caçador. Trazia espingarda, mas dizia ele que era por causa dos maus encontros. A desculpa era ver se comprava uma porção de aveia, porque não a havia lá nos sítios, e a que recolhera não chegava para os gastos da casa. Eu sabia que ele vinha de propósito para me dar um bigode às perdizes, mas disfarcei como quem não quer a coisa, e perguntei-lhe se lá pelo Cercal havia muita caça. Vai ele diz que coelhos havia muitos, mas relativo a perdizes era uma cítula aparecer uma. Os caçadores do Cercal, para verem perdizes, têm que ir até perto de Sines ou Vila Nova de Mil Fontes... Na minha opinião é a caça mais bonita que há.
«Disse-lhe que por aqui há muita perdiz, e que se ele quisesse iríamos dar uma volta, depois de almoço, por onde elas estão mais crençudas, não precisando andar muito para as vermos às dúzias.
«Abalámos de casa, engolido o bocado, e quando chegámos àquele matinho ralo da lagoa da Ordem, muito farto de caça, eu disse ao sujeito: “- O chumbo fez-se para os pardais; às perdizes não se atira senão bala.”
«O homem embezerrou, mas disse que sim, e tratou de meter balas na espingarda, uma rica espingarda de dois canos, que lhe tinha custado cinquenta e tantas libras em Lisboa.
«Larguei-lhe então esta: “- Como o amigo é caçador afamado, fica justo que só atiramos à cabeça das perdizes.”
«Ia-lhe dando uma coisa; mas das tripas fez coração e disse que sim, resmungando entre dentes: “- Veremos quantas derrubas.”
«Por volta do sol-posto, quando demos a caçada por concluída, eu tinha dezoito perdizes na mochila, todas sem cabeça, e ele trazia um rico ánaco à cinta. Não quis jantar, o raio do homem, e abalou, note fechada, a caminho do Cercal, levando seis perdizes que eu lhe meti na mochila, sem ele dar por isso.
Brito Camacho, Quadros Alentejanos, 2ª ed., Bonecos Rebeldes, Lisboa, 2009, p. 27, 28.

(Capa: Fernando Martins, in Aspirina B)
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