Segunda-feira, 1 de Novembro de 2010
Avenida da República, 37

 Esta agora serve de recado para uma Aguirre Newman e uma outra imobiliária sonante que pespegaram há meses na fachada uma tela a dizer «vende-se edifício».
 — Os senhores costumam arruinar as propriedades que têm para vender?
 De há meses até sexta-feira passada havia duas janelas entreabertas na mansarda do lado da Miguel Bombarda. Pois na dita sexta-feira — precisamente: o dia em que choveu que Deu-lo dava, com alertas da protecção civil e tudo — à hora de almoço passaram as tais janelas da mansarda a ver-se despudoradamente escancaradas; as duas do lado da Miguel Bombarda e mais uma (esta foi novidade) do lado da Avenida da República. Isto é o que vê quem passa, porque nas traseiras sabe Deus a incúria em que irão...
 Este prédio tem pormenores de Arte Nova, cada vez mais raros de achar nas avenidas graças à bruta avidez das imobiliárias e à grosseira conivência dos entendidos da Câmara. Já em 1969 o prédio parece que era para demolir; a fotografia abaixo assim o indicia. Um banco, e ao depois uma loja de cozinhas espanhola, mutilaram-lhe desgraçadamente a fachada. A Sociedade Portuguesa de Matemática foi arredada do 4.º andar e mandada um quarteirão para diante há dois ou três anos. O 3.º andar assemelha-se a um desses parques de empresas que todos os autarcas hoje fazem nos termos dos concelhos com tortuosas rotundas pelo caminho: Lisinur, Euro-atlântica, Imoatlântica, Sodege. Tudo imobiliárias ou parecido. Tudo negócios idóneos, não duvido. Mas amontoam-se todas no mesmo andar? Talvez repartam o custo a renda; talvez passem testemunho umas às outras... 
 No meio disto dois cafés e uma florista vão mantendo porta aberta (e o prédio de pé?). Por quanto tempo mais?


Av. da República, 37, Lisboa (J.H. Goulart, 1969)
Prédio para demolir, Lisboa, 1969.
João H. Goulart, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..



Escrito com Bic Laranja às 16:18
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7 Comentários:
De [s.n.] a 1 de Novembro de 2010 às 19:13
"(...) porque nas traseiras sabe Deus a incúria em que irão..."

Eu compreendo, creia, a moderação que põe nas suas palavras. Em qualquer caso, é sempre a forma mais correcta, civilizada, de agir. Mas, tudo visto, do que a vida nos tem ensinado, tratando-se de imobiliárias, de construção civil, mesmo sem provas no que ao caso concreto concerne, apetece chamar-lhe "dolo".

Costa


De Bic Laranja a 1 de Novembro de 2010 às 22:37
Tudo indica que sim. Cumpts.


De Álvaro Reis a 3 de Novembro de 2010 às 02:23
Boa noite!

Peço desculpa mas este meu comentário não tem a ver com o seu post. Estou a fazer uma tese de mestrado sobre lisboa. Preciso de informação sobre a zona oriental, sobretudo de Belém a Xabregas. No fundo, preciso de informação que me ajude a caracterizar historicamente a zona.

Se me puder ajudar com alguma bibliografia ficaria-lhe eternamente grato. Se não puder não faz mal... Agradeço, de qualquer forma, o blog. Pois acabei de dar com ele e já aprendi muitas coisas.

Obrigado.
Cordialmente,
Álvaro


De Bic Laranja a 4 de Novembro de 2010 às 00:35
Caro senhor,
Certamente o seu orientador de tese já lhe há-de ter indicado a "Ribeira de Lisboa", de Júlio de Castilho. Abrange a beira-Tejo desde a Madre de Deus a Santos-o-Velho. Há uma cópia pública na Biblioteca Nacional Digital que pode ler pela Internete.
Mais recente sobre o lado oriental tem o Caminho do Oriente; Guia Histórico, vol. I que cobre a beira-rio de Santa Apolónia até Xabregas.
Sobre o Paço da Ribeira no séc. XVI, obra recente de Nuno Senos, Editorial Notícias, 2002.
Para ocidente a caminho de Belém tem «A Ponte de Alcântara e as suas circunvizinhanças», in Vieira da Silva, Dispersos, vol. II, Publicações Culturais da C.M.L.., 1960, pp.41-75. No mesmo volume pode ainda interessar «Uma vista inédita de Lisboa do 3º quartel do século XVIII» (pp. 7-16) com a descrição da beira-rio entre o Corpo Santo e o Conde Barão. Há cópias electrónicas dos vols. da obra no G.E.O. (http://geo.cm-lisboa.pt/).
Para lá de Alcântara tenho memória de ler algo sobre o paço real que houve para os lados do Calvário em Angelina Vidal, Lisboa Antiga e Lisboa Moderna, Vega, 1994.
Sobre as muralhas de Lisboa junto ao rio atenha-se às obras de Vieira da Silva sobre o assunto (A Cerca Moura de Lisboa e A Cerca Fernandina de Lisboa).
Para ruas em concreto cf. Lisboa de Lés-a-Lés, de Luís Pastor de Macedo e para descrições de percursos na cidade v. as Peregrinações em Lisboa de Norberto de Araújo.
Para mapas tem o Atlas do Filipe Folque e o Levantamento da Planta de Lisboa do início do séc. XX, ambos editados pela C.M.L.. Encontra referências a elas aqui pelo blogo.
Há mais que isto, por certo, mas não me ocorre agora.
Para imagens use e abuse do Arquivo Fotográfico da C.M.L., na Rua da Palma.
Se lhe servir dalguma coisa o blogo, faça favor, mas ficar-lhe-ia grato que referisse a origem.
Votos do melhor sucesso.


De [s.n.] a 24 de Novembro de 2010 às 03:04
Muito Obrigado!

Farei referência deste espaço...

Cumpts.


De euro-ultramarino a 4 de Novembro de 2010 às 15:35
A dis-sociedade do camartelo vai de vento em popa. Qualquer dia aterro na Portela e já não reconheço Lisboa. O mesmo está a passar em Buenos Aires, outrora francesa, e agora... colcha de retalhos. Dizem-me que é ódio ao passado... Parabéns pelas fotos e pelos comentários. Un fuerte saludo porteño .


De Bic Laranja a 4 de Novembro de 2010 às 22:08
É mais que dis-sociedade. É dissolução de toda uma civilização.
Cumpts.


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