Domingo, 26 de Fevereiro de 2017

Margarita e o espectador/espetador

 Espectador vem no Aulete de 1881 (1.ª ed.) como pronunciando-se es-pé-ta-dor.

«Espectador», Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza, 1.ª ed., Imprensa Nacional, Lisboa, 1881


 Por acaso apanhei esta manhã no canal da Assembleia da República a audição da Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto ao Centro de Estudos de Linguística Geral e Aplicada onde se amesenda uma neologista do Português, natural de Carabobo na Venezuela, de sua graça Maragrita Correia. A audição é fastidiosa e a arenga da tal Margarita já a conheço, de modo que lhe apenas dei atenção ao que disse sobre espectador e espetador.

 De espectador disse que a escrita é à vontade da pronúncia ou do freguês, pelo que valem as grafias espectador ou espetador; ela própria opta por espectador porque, diz, pronuncia o 'c'. Não sei se a aprendeu do castelhano ou... No Aulete não foi.

 Espetador (de espetar), disse, não estava dicionarizada. Não negou o seu uso, mas afirmou a sua ausência dos dicionários. Pois eu não fui vê-los todos nem acredito que os ela visse. Mas procurei no Corpus do Português e, em cerca de 45 milhões de palavras de quase 57.000 textos em português. Nem uma só vez, historicamente, há ocorrência escrita de espetador. Nem por espectador nem de espetar. Há todavia 3609 ocorrências  do radical espect- em c. 90 flexões: espectador, espectáculo &c.

 Presumamos com boa razão, pois, que ninguém nunca haja escrito o nome espetador derivado do verbo espetar. E presumamos na mesma medida, mas com maior razão, que a ausência daquele vocábulo aberrante também prova a inexistência histórica da grafia espetador como corruptela de espectador. — Sequer por se pronunciar es-pé-ta-dor, como ensina a 1.ª ed. do Aulete, espetador foi alguma vez usado!

 O que concluo é óbvio. Os inventores do Acordo Ortográfico aborto gráfico pariram uma grafia disparatada para espectador, que em séculos de tradição escrita nunca se usou.

 E diz a tal Margarita que com o «Acordo» a ortografia ficou mais transparente — ela usa este transparente com sentido de evidente. Ora evidente é que por séculos nunca ninguém achou obscuro ou equívoco escrever espectador, espectáculo &c. mesmo não pronunciando o 'c'. Mais. Todo este processo histórico parece atestar o valor diacrítico daquela consoante tal como afirmou Gonçalves Vianna.

 O que vai dito para espetador serve para receção e não só.

 Uma nota final. A muleta da tal Margarita no I.L.T.E.C. e na audição (um Zé Pedro Ferreira) usa barbarismos como estandardização e rodriguinhos lexicais como interpretadores. Grande intérprete havemos nós aí na vanguarda da lexicografia do português com este acordita, hem!

Escrito com Bic Laranja às 21:55
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14 comentários:
De muja a 27 de Fevereiro de 2017 às 18:41
Quem espetasse com eles cá sei eu bem onde, é que nos fazia grande serviço...
De Bic Laranja a 27 de Fevereiro de 2017 às 21:17
Temo bem que desta sarna já nos não livramos.
Cumpts.
De ftr a 28 de Fevereiro de 2017 às 23:24
Só não nos livramos se não quisermos.
De Bic Laranja a 3 de Março de 2017 às 00:07
A corja alapada ao poder não se mexe. A vontade dalguns e a indiferença geral não os demove. Vence a inércia, que nos puxa para o fundo sem parar.
Cumpts.
De [s.n.] a 28 de Fevereiro de 2017 às 02:19
Ouvi algures que o A/90 ía ser anulado e a língua portuguesa voltar ao que era, Será verdade?Se for o caso, então quererá dizer que os milhões gastos em novos livros, cadernos e demais material escolar, etc., feitos pelos anualmente pelos pais dos alunos, à razão de centenas de milhares de euros, material este que era inutilizado no final de cada ano lectivo, para no início do ano seguinte todos os gastos voltarem a ser efectuados pelos mesmos encarregados d'educação, com brutos ganhos para os autores dos ditos livros e de pessoal ligado ao Ministério da Educação, chegou para satisfazer a ganância de quem desses milhões beneficiou? Será que os autores do Acordo e os muitos ligados à educação, já ficaram satisfeitos com as centenas de milhões que roubaram ao contribuinte desde a adopção obrigatória do A/90 no ensino e no sector público, sem esquecer outros muitos que directa e indirectamente também lucraram uns bons milhões com a afronta que governantes, por interpostos linguístas oportunistas e anti-patriotas, fizeram intencionalmente à língua portuguesa? Deve ser isso.
Maria
De Bic Laranja a 28 de Fevereiro de 2017 às 16:24
Não acredito. O estado de putrefacção nacional impede-me de crer que se torne ao que estava bem e não precisava de haver sido mexido.
Mas hão-de mexer na ortografia, sim. Para pior e sobretudo a bem das negociatas da edição.
Já nada disto leva emenda.

Cumpts.
De frt a 28 de Fevereiro de 2017 às 23:23
Os interesses editoriais não existem. Se as grandes editoras internacionais editam em várias línguas! É desinformação para que a justa indignação dos portugueses perante um crime cometido em nome do nacionalismo brasileiro, através de tráfico de influências e corrupção.
De Bic Laranja a 1 de Março de 2017 às 21:37
A edição e reedição de livros escolares, é que me refiro. Uma quota de mercado que sempre potenciado na pelas normas ortográficas ditadas pelo governo. Os meninos só podem ser ensinados como o governo entende ou serão cidadãos mal formatados, como se agora diz.
Cumpts.
De frt a 1 de Março de 2017 às 22:14
Não é necessária uma nova ortografia para que as editoras? ganhem com os livros escolares: eles mudam todos os anos. <br>E como se justificaria a "pressão no Brasil" - que pode mudar de manuais escolares a pretexto seja do que for -, pressão confessada por Cavaco?? Ou que os diplomatas brasileiros corressem à Guiné-Bissau para que esta assinasse... é por pressão das editoras??<br>Ah, grandes editoras? em países com tao baixos níveis de literacia!<br>Cada um acredita no que quer.<br>No Brasil, quando rasgaram, em 1954, o acordo de 1945 foram francos e falaram da ortografia nacional brasileira, na linha do nacionalismo linguístico e anti-português que os caracteriza http://www.filologia.org.br/revista/artigo/5(15)58-67.html<br>Ainda há pouco tempo um representante das editoras? portuguesas se queixou e não houve qualquer aumento de vendas para o Brasil - como era expectável. Miguel Sousa Tavares, que é um sucesso comercial no Brasil nunca permitiu que a ortografia de 1945 fosse alterada e isso não prejudicou as vendas.<br>Mas se acha que o Brasil anda ao serviço das editoras? portuguesas, continue, que quem quer impor o acordo, agradece. <br>
De frt a 28 de Fevereiro de 2017 às 23:32
O acordo não está em vigor. Não está em vigor na ordem jurídica internacional - por não preencher os requesitos do direito aplicável, a Convenção de Viena do Direito dos Tratados - e está a ser aplicado em Portugal inconstitucionalmente (nomeadamente o nº 2 do artº 8º da Constituição). É altura de deixarmos de tolerar os caprichos do "eng." Sócrates.
De Bic Laranja a 1 de Março de 2017 às 21:50
Desde 2007 que peroro aqui contra a aberração. Argumentos contra a coisa não faltam. Estou cansado de tanta cobertura dum poder de merda, representado por deputedos ainda mais merdosos à merdografia imposta como se fosse perfume. O cheiro nauseabundo que todos els exalam é insuportável.
P.q. os p.

Cumpts.
De frt a 1 de Março de 2017 às 22:18
Pois é.
Mas a página da net no Supremo Tribunal cumpre a lei que rege a ortografia portuguesa - o Decreto nº 35.228 de 8de Dezembro de 1945 e º 32/73, de 6 de Fevereiro.
Quanto à cobardia não é só dos deputados. E, para além deles há os cúmplices, geralmente com passagens pelos brasis.
De Mandarinia a 1 de Março de 2017 às 06:18
A falta que faz uma boa bandarilha.
De Bic Laranja a 1 de Março de 2017 às 21:40
Ainda ia melhor com pampilho nos lombos e garrochada na cernelha, em alternância ou vice-versa, pelo menos enquanto não houvesse lezíria.
Cumpts.

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