Segunda-feira, 3 de Abril de 2017
«Memórias» de Raul Brandão: a edição que fazia falta...

Raul Brandão (Alex V. Palacios)Raul Brandão
(Alex V. Palacios)

 Quando há uns 15 dias ouvi a vereadora vimaranense das bibliotecas muito empolgada numa entrevista à maçónica T.S.F., apregoando a reedição das Memórias de Raul Brandão, porque já fazia falta, fiquei cá desconfiado. — Então não tem a Relógio d'Água as Memórias no catálogo, em edição recente?! — Não parece que esteja esgotada. Nem o preço é proibitivo. Foi subsidiado...
  Esta edição parte — lê-se na nota — da versão de 1925 (actualizada ortograficamente e expurgada de gralhas e lapsos); e em notas numeradas procede ao registo das variantes [...] da 1.ª edição, da 2.ª edição e da edição do «Jornal do Fôro» (1969), fixada esta última por Manuel Mendes a partir das notas e emendas deixadas por Raul Brandão nos exemplares que possuía. Tem, além disto, um índex alfabético em cada tomo e, a completar o 3.º, uma tábua biográfica relativa às pessoas mais importantes ou as mencionadas por mais de uma vez ao logo das Memórias.
 
Não conhecia então estas Memórias, nem nada, de Raul Brandão (começara o Húmus mas não prosseguira nele além das primeiras páginas). Quando as vi no escaparate da livraria por módico preço (louvado Instituto Português do Livro e das Bibliotecas!) não hesitei. Nem me arrependi. As Memórias são muito boas e a edição também.

Raul Brandão, «Memórias» (3 vols.), Relógio d'Água, Lisboa, 1998-2000.

  O José publicou na Porta da Loja ontem umas páginas da tal edição nova que fazia falta, da Quetzal. O verbete que ele destaca, de Janeiro de 1926 (3.º vol.), passa de Eça de Queiroz (filho) a Jaime Batalha Reis, a Lenine e nada o marca como na edição da Relógio d' Água (v. supra). Muda de capítulo só chegando ao Magalhães Lima: — ORREU [sic] UM DIA DESTES... (v. infra, p. 581)
  —
Ah pois 'orreu! 'as é que 'orreu 'esmo!
  Mas bem: era preciso enfiar a nova cacografia do governo também agora no Raul Brandão, enfim!... Vêde vós com que esmero!...

Raul Brandão, «Memórias», Quetzal, 2017, pp. 576-577.

Raul Brandão, «Memórias», Quetzal, 2017, pp. 578-579.

Raul Brandão, «Memórias», Quetzal, 2017, pp. 580-581.

 

 Quem se dê bem com a leitura electrónica pode achar o 1.º vol. na ed. da Renascença Portuguesa de 1919 gratuitamente aqui. Pelo menos não terá de aturar «conce[p]ções» ou «Egi[p]tos».

 

(As páginas da paupérrima e acordizada ed. da Quetzal são do José; os quinaus são meus.)



Escrito com Bic Laranja às 17:45
Verbete | Comentar

6 Comentários:
De Tiago Carvalho a 3 de Abril de 2017 às 20:05
Que tareia tão bem dada!


De Bic Laranja a 3 de Abril de 2017 às 22:46
Espero que sim, pois estavam a merecê-la.
Obrigado.


De dh a 3 de Abril de 2017 às 23:08
Caro Bic

Aqui tem para a troca:

https://openlibrary.org/works/OL3150539W/A_conspiração_de_1817

https://openlibrary.org/works/OL3150526W/Memorias

https://openlibrary.org/authors/OL501105A/Raul_Brandão?sort=old#editions

E' sempre um gosto dar uma vista de olhos ao seu blogue.

Bem haja



De Bic Laranja a 4 de Abril de 2017 às 13:56
Obrigado!
Enriquece o verbete.


De trt a 7 de Abril de 2017 às 22:46
Li em 1ª edição, suponho que era a que havia cá em casa e creio que depois comprei outra que estará por aí. Esta de agora, em acordês, não a leria.
São interessantes, as Memórias, mas lembro-me que quando as comecei as ler, na adolescência, me avisaram que era preciso ter algum cuidado, que havia algum facciosismo.
E, mais tarde, numa releitura de umas páginas percebi que sim, que é preciso ter alguns cuidados.


De Bic Laranja a 8 de Abril de 2017 às 20:31
Pode ser. Mas como impressões de época são cheias de interêsse:
Porque foi, por exemplo, morto D. Carlos? É fora de duvida que até os monarchicos receberam com alegria a sua morte. «Não vi lagrimas»—diz Julio de Vilhena. Eu avanço mais: só vi aplausos. E no entanto já hoje se pode afirmar sem erro que D. Carlos não foi morto pelos seus defeitos, mas pelas suas qualidades. Respirou-se! respirou-se!—o que não impede que, a cada anno que passa, esta figura cresça, a ponto de me parecer um dos maiores reis da sua dinastia. Já redobra de proporções e não se [290] tira do horizonte da nossa consciencia. O rei tinha na verdade defeitos, mas—diga-se! diga-se!—não foram os seus defeitos que o mataram, foram as suas qualidades. Só o assassinaram quando elle tomou a serio o seu papel de reinar, e quando, com João Franco, quiz realisar dentro da monarchia o sonho de Portugal Maior. Foi esse o momento em que, talvez pela primeira vez na historia, os monarchicos aplaudiram um crime que os deixava sem chefe, e se abriram de par em par as portas das prisões, congraçando-se todos os politicos sobre os corpos ainda mornos dos dois desventurados.
Memórias
, 1.º vol., Renascença Portuguesa, Porto, [1919], pp. 289-90.

Cumpts.


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