Sábado, 13 de Fevereiro de 2016
O typico na hora

 

Pastel de «São Domingos», J.F. S.D.B. (tradição desde 2016)
Pastel typico da J.F. S.D.B. 
(Tradicional desde amanhã)

*    *    *

 Vivemos na era do typico na hora; a tradição agenda-se já para amanhã e pode bem haver de acabar logo... hontem. Imperativos do pugresso e da sapiencia que nos elle traz:

 Depois do Concurso de Pastelaria levado a cabo pela J.F.S.D.B., para a creação de um pastel typico de «São Domingos», que teve como principaes objectivos a promoção, a valorização e o desenvolvimento da nossa Freguesia e da sua economia local, em particular do sector da restauração, e cuja victoria coube ao pastel “São Domingos” confeccionado pela Pastelaria Califa, com a alfarroba como ingrediente obrigatório na receita, é chegado o momento de partilhar a receita [...] Partilha da receita do pastel “São Domingos”», J. F. de S. Domingos de Benfica, 28/1/2016; cacographia da Juncta vertida em orthographia greco-latina por dó; sublinhado dos ingredientes da receita meu.)

 A receita.

 Alguem a quem commentei  este caso pittoresco do typico na hora — meio escamado, eu, porquanto o typico de S. Domingos sei serem umas esquecidas queijadas que Raul Proença refere no conhecido Guia de Portugal (vol. I, Lisboa e Arredores, p. 435) reeditado pela Gulbenkian às carradas e vendido por módicos treuze euros; nem raro de achar ou complicado apprender, portanto... — Pois esse alguem desarmou-me com simplesmente dizer o que me indigna: vulgares conciliabulos entre presidentes de juncta marketeiros e confeiteiros de bairro á cata de augmentar o negocio.  A gente adhere, orgulhosa dos novos pergaminhos de plastico, compra e paga.
 Bem verdade. Desarmou-me. Mas não tira uma migalha á ignorancia das famosas queijadas:

 Mais adiante, na estr. de Benfica [...] deixando à dir. a travessa das Águas Boas entra-se no troço denominado «Cruz da Pedra», onde, à dir. no n.º 216, se vendem as famosas queijadas da região. (Raul Proença, Guia de Portugal, vol. I, reprod. da 1.ª ed. de 1924, p. 434.)

 A alfarroba.

 A alfarroba é o typico typico de quem fabrica o typico sem noção de typico, atypico ou de nada.

« A antiga e amável povoação de Benfica — escreve Ramalho Ortigão —, ainda que tão decaída hoje da alta importância que teve outrora no conceito, caprichoso e inconstante, da alta sociedade da capital, é, ainda assim, no seu tanto, o recantinho suburbano de Lisboa que mais aproximada ideia nos sugere do que é para Roma o  prestígio de Tivoli e de Frascati. Em nenhum outro lugar de Portugal, se exceptuarmos Sintra, se encontrarão reunidas em tão pequeno circuito tão lindas, tão históricas, tão anedóticas, tão saudosas quintas como as que encerra Benfica. Em torno da igreja onde jazem os restos de João das Regras, da bela capela dos Castros, onde repousa a ossada do glorioso governador da Índia biografado por Jacinto Freire, em volta do que ainda resta do convento e da cerca de S. Domingos, imperecíveis na literatura portuguesa pelas imcomparáveis páginas que nas suas crónicas lhes consagrou Frei Luís de Sousa, avizinham-se, quase pegadas umas às outras, num doce rumor de água, chapinhante nas fontes ou corredia e borbulhante na terra pingue dos jardins, dos pomares e das hortas, numa perene verdura de vegetações rurais e vegetações de luxo, num vago e errante perfume bucólico de flores e de frutas, a quinta do marquês de Fronteira, a do conde Farrobo, a dos marqueses de Abrantes, depois da infanta D.ª Isabel Maria, a que foi de Lodi, a do Beau Séjour, do extinto barão da Glória e muitas outras. Já na Crónica de São Domingos o que no século se chamou D. Manuel de Sousa Coutinho escrevia: «Duma e outra parte (do convento), correm quintas que cerram outeiros e vales em roda, algumas de bom edifício, outras mais ao natural; todas ricas de bosques e pomares e cercadas de suas vinhas, com que a mor parte do ano mantém o vale uma frescura e uma verdura perpétua.» (Id. p. 436.)

 Bosques, jardins, hortas, pomares, vinhas, verdura e — salvo o conde de Farrobo cuja quinta era das laranjeiras — ninguem se lembrou de nomear farrobeiras?!... Eis o typico pastel «São Domingos».

 As queijadas.

 As queijadas são o typico cuja memoria esqueceu porque nem o conhecido Guia parece ser lido na freguesia. Paciência!...
 Ainda assim não vou sem dizer: as queijadas vendiam-se logo a deante da Tv. das Aguas Boas, ao n.º 216 da estr. de Benfica, não é verdade? — Pois bem, a juncta de São Domingos, mesmo não lendo, escreve. E, confesso, nem sempre se sae mal. Na monographia São Domingos. História, Arte e Património, cuja orhtographia não vem mutilada com o neo-brasileiro do govêrno — pode ler-se, portanto —, á p. 45 refere sobre o convento de Sancto Antonio da Convalescença:

 Noutros compartimentos dos dois pisos [do dicto convento] situavam-se a Casa "De Profundis", cela do irmão guardião, rouparia, adega, casa dos moços...

 Aos menos informados esclareço que rouparia é regionalismo para queijaria (cf. Grande Dicionário da Língua Portuguesa, VI, Público/QuidNovi, 2002). E sendo que ainda no tempo de Raul Proença (1924) haviamos as famosas queijadas da região  á venda no 216 da estr. de Benfica — a dois passos do antigo convento da Convalescença que tinha a tal rouparia —, cada um associe as idéas e pense livremente como entender. Ao perzidente da juncta do pastel de alfarroba é que peço, por caridade não pense nada.

Antigo convento de Sancto Antonio da Convalescença, Cruz da Pedra (E. Portugal, 194...)
Antigo convento e igreja de Sancto Antonio da Convalescença, Cruz da Pedra (S. Domingos de Benfica), 194...
Eduardo Portugal, in archivo photographico da C.M.L.



Escrito com Bic Laranja às 18:16
Verbete | Comentar

10 Comentários:
De Costa a 13 de Fevereiro de 2016 às 19:40
A FCG aderiu com submissa urgência ao criminoso AO90 . O que vejo na ligação para que nos remete o caro BIC , é uma 5ª edição, já de 2014. Tratar-se-á de uma simples reimpressão, ou de uma nova edição convenientemente cacografada ? Faz ideia?

Grato,
Costa (nada a ver com esse outro)

Nota: elegantíssima - para lá de tudo o resto que milita em sua defesa - a ortografia greco-latina que nos vem trazendo. Uma lástima que me saiba impreparado para a utilizar. Resta-me procurar seguir e servir, tão bem quanto puder, a de 1945/73 em que cresci. Já será, passe a imodéstia, sinal de alguma decência.


De Bic Laranja a 13 de Fevereiro de 2016 às 20:38
Boa pregunta. Não faço idéa. A Fundação Gulbenkian é um antro pedreiros livres. Sempre foi, mas agora calha peor.
O vol. I do Guia de Portugal que tenho (3.ª reimp., de 1991, do «texto integral que reproduz fielmente a 1ª edição publicada pela Biblioteca Nacional de Lisboa em 1924»), adquiri-o afortunadamente antes de a demencia tomar por lá conta da cultura. Não sei se mutilaram o Guia, mas não me admirava que sim, pois annunciaram edições electronicas d'elle e, frenéticos com o acordês como os vejo...
Aconselho-o a informar-se antes com elles se assim foi. De toda a maneira cuido que sobrem muitos exemplares de reimpressões anteriores nas livrarias; as tiragens foram de dezenas de milhar. Em último caso, os alfarrabistas, mas esses andam alambazados, aconselho atenção.
Grato do seu apreço.
Cumpts.


De Bic Laranja a 15 de Fevereiro de 2016 às 10:11
A orthographia do Guia de Portugal não foi alterada, disseram-me da Gulbenkian.
Graças a Deus pela inércia.
Cumpts.


De Costa a 15 de Fevereiro de 2016 às 16:36
Grato. E graças a Deus...

Costa (nada a ver!)


De [s.n.] a 14 de Fevereiro de 2016 às 16:55
Que me desculpem os fabricantes do pastel, mas têm muito mau aspecto.
Maria


De Bic Laranja a 14 de Fevereiro de 2016 às 19:49
Imitação. O typico á pressão ainda por cima a cavallo no pastel de nata. Pobreza!
Cumpts.


De [s.n.] a 17 de Fevereiro de 2016 às 06:22
Muito bom. Ao ler isto lembrei-me de uma telenovela que às vezes "apanho" no canal RTP Memória (Chuva na Areia, escrita por Luís de Sttau Monteiro e onde o Presidente da Junta também quer criar um rancho folclórico típico. Criação típica, portanto.
Na página da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica manda-se recado para os outros donos de pastelarias pedirem a receita à Pastelaria Califa. Sejam criativos copiando...
Quanto ao acordo estou em desacordo e como não sou funcionária pública não uso e não há quem me obrigue.


De Bic Laranja a 17 de Fevereiro de 2016 às 20:14
Obrigado. Devo-lhe o mote, porventura...

A «Chuva na Areia», se me bem recorda, tinha algo... atypico também tornado typic, que motivou o Caniço a... fazer o que o Malaca Casteleiro fez às consoantes...

Só desgraças, mas, quanto ao accôrdo, mesmo funccionarios públicos, quem obriga?... Melhor: como? Com tau-tau?...

Cumpts.


De Real a 22 de Fevereiro de 2016 às 17:42
Tau-tau não caro Bic , tem de ser um tapa na bunda senão a galera não entende.

P.S. Frase escrita em crioulo de Vera Cruz.


De Bic Laranja a 22 de Fevereiro de 2016 às 20:33


Comentar

Novembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10

17
18

20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


Visitante

Contador
Selo de garantia
Pesquisar
 
Ligações

Adamastor (O)
Apartado 53
Arquivo Digital 7cv
Bic Cristal
Blog[o] de Cheiros
Caminhos de Ferro Vale Fumaça
Carmo e a Trindade (O)
Chove
Cidade Surpreendente (A)
Corta-Fitas(pub)
Delito de Opinião
Dragoscópio
Eléctricos
Espectador Portuguez (O)
Estado Sentido
Eternas Saudades do Futuro
Fadocravo
Firefox contra o Acordo Ortográfico
H Gasolim Ultramarino
Lisboa
Lisboa de Antigamente
Lisboa Desaparecida
Menina Marota
Mercado de Bem-Fica
Meu Bazar de Ideias
Paixão por Lisboa
Pena e Espada(pub)
Perspectivas(pub)
Pombalinho
Porta da Loja
Porto e não só (Do)
Portugal em Postais Antigos(pub)
Retalhos de Bem-Fica
Restos de Colecção
Rio das Maçãs(pub)
Ruas de Lisboa com Alguma História
Ruinarte(pub)
Santa Nostalgia
Terra das Vacas (Na)
Ultramar

Arquivo

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

RSS
----