Terça-feira, 25 de Abril de 2017
O 25 de Abril, o apagão da História e a vidinha

Barragem de Cambambo, Angola, c. 1969. A. n/ ident., S.E.I.T., n.º 335627, cx. 448, env. 8.

 

 Depois de 25 de Abril de 1974 era imperativo apagar a memória do período de maior prosperidade da História de Portugal e recriá-la, em nome da divina democracia e da santa liberdade, em tom carrregado e linguagem sinistra.

« Mas o Arquivo Salazar, transferido das caves de S. Bento (onde julgo que foi saqueado após o 25 de Abril) para a Biblioteca Nacional (onde creio estar devidamente instalado), continua defeso para os investigadores. Todas as consultas e extensas pesquisas que ali fiz, quando ainda em S. Bento, cessaram, pelo menos para mim, com o 25 de Abril — ainda que segundo parece esteja agora aberto estranhamente à pesquisa política, e apenas à pesquisa política, com objectivos que antecipadamente se confessam comprometidos e orientados num único sentido, e destinados a provar o que deliberadamente se quer provar, sem sujeição à contradita e à rectificação através de investigadores e historiadores.»
Franco Nogueira, Salazar, vol. VI, Civilização, Porto, 1985, p. XV.

 A pesquisa política era a da Comissão do Livro Negro sobre o Regime Fascista, decerto. O objectivo antecipadamente confessado que o embaixador Franco Nogueira refere veladamente é ostensivo e orgulhoso no nome da coisa. O estilo de linguagem é oficial e é como desde 74 se veicula a História investigada por autoridades com chancela e certificados de Abril. O Arquivo Salazar passou entretanto à guarda da Torre do Tombo, mas mesmo agora, acessível a investigadores de geração mais recente, o que acaba saindo dos prelos não é famoso. A História foi mesmo virada do avesso e é como vai.

« E o segundo ponto é este. Quando comecei a a descrever períodos mais recentes, nos volumes IV e V, e a aludir à acção de homens ainda felizmente vivos, deparei com com reacções opostas. Uns teriam querido que eu simplesmente omitisse qualquer referência: sentem horror em que se documente que trabalharam ou que exerceram funções de grande relevo com Salazar. Outros teriam desejado que lhes fizesse alusão, e extensa, mas somente para sugerir que já naquela altura se opunham a Salazar, e que até foram vítimas deste, mesmo quando a documentação demonstra quanto eram seus devotados colaboradores [...]»
Id., ibid.

 Há dias intrigava-se o José na Porta da Loja com o sumiço geral logo no dia 25 de Abril de 1974 da sociedade que compunha o Portugal do Estado Novo. Cuidei eu ter lá comentado ser o caso em tudo semelhante aos adesivos da I.ª República que desabrocharam em tamanha cópia no dia 6 de Outubro de 1910 que até os pergaminhos da véspera se tornaram republicanos. Os adesivos já não lembram, mas o caso com todos e cada um foi o mesmo: cuidado com os ferretes porque ai da minha rica vidinha!


Fotografia: Barragem de Cambambe, Angola, c. 1969. A. n/ ident., S.E.I.T., n.º 335627, cx. 448, env. 8.



Escrito com Bic Laranja às 23:20
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Do evangelho pelo dia de S. Marcos

Escola, Portugal ultramarino (Autor n/ ident., S.E.I.T. 384686, s.d.)


 Dia de S. Marcos, dia de curiosos evangelistas. Das tubas do regímen pregam cravos... Diz que é a abençoada democracia, a santa liberdade... É bonito! Todo o amesendado do regímen tem neste sacrossanto dia um feito notável a contar, algo a dizer... — Há pedaço li nos títulos do Sapo que o primeiro-ministro do Rato passou dia do grande acidente nacional trancado em casa duma amiga. Escondido, ou fazer o quê...?

 Pouco me importa: o evangelho para este dia é livre como o disparate. Uma bênção ao povo; um enjoo para a nação.

 Já ontem, em antecipação, a Helena Garrida rezava a habitual missa pelas Contas do Dia, um rosário matinal da emissora do Estado. Desde Abril melhorámos muito; metade das casas não tinham água canalizada (em 1974); somos mais cosmopolitas, temos melhores empregos... — Ora a gente ouve isto e apetece erguer as mãos aos céus e dar graças... à parvoíce. É que, imbuído nesta fé palpitam-me, irreprimíveis, preguntas à parva:

 Que porção de casas teria água canalizada em Portugal, em 28 de Maio 1926?... — Calhando eram mais que em 25 de Abril de 1974...

 Que falta de cosmopolitismo tolheria o mundo português em 25 de Abril de 1974, quando tinha Portugal fronteiras ultramarinas em África com quase todos os países a Sul do Equador, já para não falar do Senegal e da Guiné (Conakri), ou da Indonésia e da China? Só se fosse cosmopolitismo estrangeirado que, sendo de importação, serve de garridice à tacanhez bem falante...

 Mas bom, temos agora melhores empregos, é verdade — não esquecendo melhores desempregos também... — Ocorrem-me de imediato os da própria Helena Garrida, amesendada nas emissora e radiotelevisão do Estado logo que lhe falhou o emprego no Diário Económico. Não chegando o exemplo, podia somar para cima de 300 multifacetados presidentes da câmara (o poder autárquico, essa conquista de Abril!...) cujo paradigma mais recente é o Me(r)dina da Cedofeita, jardineiro e ás do pedal em Lisboa: democraticamente não eleito, tão livre e capaz no plantio de árvores e de pistas de ciclismo a despropósito num par de avenidas notáveis da capital, como fascista e terrível em não mandar repavimentar regularmente um metro de calçada em qualquer rua ou travessa mais obscura da cidade. E para corroborar dos reais melhores empregos de Abril, é somar-lhe a sinecura semanal na comentadoria tudilógica da T.V.I. 24. Tudo em acumulação e inclusive.

 Pois que valham os melhores empregos. Antes de Abril nunca seriam tão melhores assim. Porque não eram tão mal empregados como agora.

 


Fotografia: Escola primária feminina, Portugal ultramarino (Autor n/ ident., S.E.I.T., n.º 384686, s.d.).



Escrito com Bic Laranja às 20:15
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