Domingo, 4 de Dezembro de 2022

De Artur Pastor

 Em dias pardacentos de Inverno, assim como está (hoje nem é dos peores), mas também em dias soalheiros, de Inverno ou doutra estação mais quente, muito tenho publicado eu de Artur Pastor; a falar eu disto ou daquilo, mas, cujo valor por inteiro daquilo que aqui vai publicado são as chapas de Artur Pastor. Serão à roda de 140-150.

 Há-as do tempo da pesca, do tempo do moliço;  do da Tinturaria do Chile, da Confidente, da Farinha 33, do autocarro 47 (o original), do Tutti Mundi drugstore que parece é agora mais uma mercearia do merceeiro-mór, antes de, certamente, passar a ser um lugar da fruta de bengális… (Êste à parte pode não parecer já sôbre Artur Pastor, mas bem que o país de contrastes retratado por Artur Pastor é muito menos um contraste em si se comparado com essa espécie de Portugal que resta por aí agora.) — E há do mar português que sobra, aos campos de Portugal que foram ou, de simples esquinas que já não são, de meros recantos que também não lembram, de carroça, de burro, à nora

 E ao depois há agora um álbum com 264 fotografias pelo centenário de Artur Pastor de que tive conhecimento, cujo editor lhe parece haver tomado primeiro conhecimento do formidável legado fotográfico de Artur Pastor, aqui, nêste blogo. Gentileza dêle, de certo. Ainda não tive o gôsto de folhear o álbum. Fui de fugida por êle à biblioteca de S. Lázaro, mas não no tem. Sem tempo, já não desci ao archivo photographico da Câmara. Quando o faça direi mais.
Artur Pastor – Portugal país de contrastes, Majericon/C.M.L., 2022.
Artur Pastor; Portugal País de Contrastes, Majericon/C.M.L., 2022.

Escrito com Bic Laranja às 10:57
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Quarta-feira, 30 de Novembro de 2022

Suspiros mudos, queixumes silenciosos

 


 Se os anjos cantam deve ser assim. E a partitura há-de ser de Bach.

 Não me canso de ouvir esta ária. Tôda a cantata. Ainda agora, com este dia escuro e chuvoso…
 Há um ano corria ainda a febre louca em que deu êste mundo… Pus-me de parte em Dezembro. O mês tôdo. Desterrei-me na província: Sol sempre radioso, tempo ameno, quis Deus, em Dezembro; pinhal em redor, paz, sossêgo. Na telefonia a emissora 2, companhia habitual a preencher os dias. Uma tardinha, já noite, antes de jantar ou por aí, um encanto: Bach, Mein Herze schwimmt im Blut, cantata BWV 199, Sabine Devieilhe.
 Sabine Devieilhe? BWV 199? Que sabia eu dêle?…
 De início não dei muita atenção, estava só com a rádio em fundo. Porém aquela voz celestial, a doçura do canto, o melodioso oboé, as pausas, a cadência, tudo… Encantei-me! Tomei nota no fim quando o locutor da rádio repetiu o título e… Passou-se.

 Seis meses depois, Junho, mesmo lugar, mesmo sossêgo, mesma companhia da rádio; soa-me outra vez na emissora a mesma cantata de Bach naquela voz celestial com a mesma desatenção inicial. E logo, dando-me conta — qual era a cantata? Qual o nome da soprano?
 Sabine Devieille; havia-lhe escrito mal o nome…

 Fica a ária n.º 2 completa, a alguém que aprecie. A cantata e tôdo o disco, dádiva do Céu, ouvem-se de graça.

 
Sabine Devieilhe, Stumme Seufzer, stille Klagen
(João Sebastião Bach — Cantata BWV 199 «Mein Herze schwimmt im Blut»)
Sabine Devieilhe, Raphaël Pichon, Orquestra Pygmalion, Bach e Handel, Erato/Warner Classics, 2021.

Escrito com Bic Laranja às 15:37
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Terça-feira, 29 de Novembro de 2022

A harpista


Cristina Pluhar — a Harpista, Maria (Sopra La Carpinese), 2010

Escrito com Bic Laranja às 17:07
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Lisboa, 2022

 Espraia-se a miùdagem pelo jardim de ante o Lyceu de Camões. É natural. O liceu está esventrado das grandes obras que lhe fazem. Não fôra isso seria natural à mesma — espraiar-se a miùdagem do liceu pelo jardim. — O liceu é escola e o jardim sempre é melhor praia.
 Hoje estão sossegados. Não estão a reivindicar nem a activistar causa nenhuma, daquelas grandes, que apreendem do ensino oficial, da' redes sociais e das séries on demand. Nada, por conseguinte, de salvar as baleias — ou o planeta, que é causa ainda maior que das baleias. Nada de berrar fobiosamente contra preconceitos ou preconceituadamente contra fobias de todos o géneros. Nada! Sequer um parzinho de jarr@s de mão dada feitos pombinhos ali avisto. Sòmente vejo, digno de realce, um pequeno lilás tranjando todo de roxo, da cabeça aos pés. Tem o cabelo também tinto em roxo-azulado, a não destoar. Bebe qualquer coisa à porta do quiosque, de pé, atrelado na ponta da trela dum cão; nada tão trivial como uma bica, estou em crer. Muito menos um copo de tinto, valha-lhe Deus, se bem que pela côr do pêlo e dos trajos pareça haver derramado vários pela cabeça abaixo.

«Kilos Grafitti», Lisboa — © 2022

Escrito com Bic Laranja às 14:45
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De galegos e alentejanos

 A Sara é uma marca galega e talvez dêle seja a muita atenção que dá às regiões de Portugal e a outros pormenores. Tem uma linha de lojas Sara Man para homens amaricanos. E tem uma linha de lojas Sara Home para homes alentejanos…
 Mandaram-me onte' lá comprar uma fronha e ainda bem que foi só, porque a almofada é à parte.

Fronhas e almofadas (Sara Home, 2022)
Fronha de almofada estampada de flores e folhas, in Sara Home, 2022.

Escrito com Bic Laranja às 13:40
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Segunda-feira, 28 de Novembro de 2022

Opus VI, n.º 1


Jorge Frederico Handel, Grandes Concertos, Opus VI, n.º 1 em sol maior (Allegro).
Marina Fragoulis & Dorian Baroque
Igreja da Epifania, Nova Iorque, 2015.

Escrito com Bic Laranja às 19:46
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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2022

Portugal, 1973

1973APR23WILK0752cs.jpg
Combóio a vapor, Tua (prox.), 1973.
Martim Wilkins, in Base de dados de fotografia de Transportes.

Escrito com Bic Laranja às 17:00
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Segunda-feira, 7 de Novembro de 2022

De cavalgaduras primazes

[Dez dias depois de investir um indiano como primeiro-ministro] Carlos II faz viagem especial para visitar [os] cavalos da rainha Isabel II (Caras — Famosos, 4/XI/2022)

 Ninguém diga que os ingleses perderam seu sentido de humor. Qualquer um proposto pelos comuns para governar a Inglaterra há imperativamente de se antes dirigir ao palácio para lhe o rei dar posse. Todavia há cavalos que impõem ser o rei a dirigir-se-lhes nem que seja só por especial visita. Nem o cavalo cônsul de Calígula foi tão importante.

Escrito com Bic Laranja às 16:11
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Coincidência fabulosa, com milagre de Ourique e mais história pelo meio

Lendas de Portugal: Lendas Heróicas / Gentil Marques. — [Lisboa] : Círculo de Leitores, [1997]. — 428 p.; 23 cm. — Lendas de Portugal, 2


 É uma daquelas coincidências. Tirei um livrinho das Lendas de Portugal da estante para lhe proteger a sôbrecapa com polipropileno transparente. Ando aqui e ali a fazê-lo. Os amaricanos com aprêço por livros empenham-se em preservar da luz e do uso as sôbrecapas com que os publicam. Práticos que são têm até a coisa industrializada a ponto de venderem o artigo em rôlo para se cortar pelo comprimento certo e com uma tira adesiva pronta a ajustar como uma manga à medida da altura da sôbrecapa. Cá não no achei à venda, mas descobri que se vendiam rôlos de polipropileno de 70 cm de largura por 10 m de comprimento numa loja de decoração por um módico equivalente a 558$00 em dinheiro. Com o engenho dos meus 10 anos nas aulas de Trabalhos Manuais corto-o à medida (o polipropileno), dobro-o, vinco-o com uma dobradeira e colo-o com fita-cola em forma de manga a envolver as sôbrecapas que quero proteger. O que me até nem sai mal, mas não se dirija contudo ninguém à loja a pedir polipropileno; o artigo em questão é comummente conhecido do vendedor por papel de embrulho transparente, a-pesar de ser plástico.

 E bem, a coincidência fabulosa foi que ao depois de envolvida a sôbrecapa e reposta no livrinho das Lendas (é o vol. 2, o das lendas heróicas), dei em abri-lo a ler a primeira, a do «Belo suldório» que é sôbre o Viriato e, arejando as páginas, lá mais para o fim do volume havia um marcador com um calendário n' «O milagre de Ourique», sinal de que andara já eu pelo livro. — Quando? — O ano do calendário haveria de mo dizer. Só que o calendário, com publicidade a um Centro para Pequenas Empresas da multinacional Maricosoft (a do Kill Gates), não dizia o ano. Pus-me a olhar para a esperteza dalguém imprimir um calendário sem indicar o ano e vi que nêle o dia de hoje, 7 de Novembro, é uma segunda-feira. Descobri, pois, que a inteligência de quem fez tal calendário assim sem menção de ano, foi para ser êle achado nêste ano de 22. Porque se não fôsse assim, não calhava certo.

Calendário sem ano [Maricosoft, s.d.)

Escrito com Bic Laranja às 11:52
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Sexta-feira, 28 de Outubro de 2022

Guimarães a vapor

Combóio a vapor, Guimarães (est.) (R. Bridger, 1972)
Combóio a vapor, Guimarães (est. de c.-f.), 1972.
Roberto Bridger, in Base de dados de fotografia de Transportes.

Escrito com Bic Laranja às 14:58
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Domingo, 23 de Outubro de 2022

A velocidade da ciência ou a vida depressa?


Del Bigtree, «A velocidade da Ciência» (excerto), in The Highwire, ep. 290, 21/X/22.

Escrito com Bic Laranja às 16:51
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Sexta-feira, 14 de Outubro de 2022

O 5 no Areeiro

Caminho do Areeiro, Lisboa (H. Novais, 196…)

 


Autocarro n.º de frota 255 no terminus da carreira 5, Areeiro (Nascente), 196…
Horácio Novais, in bibliotheca d'Arte da F.C.G.

Escrito com Bic Laranja às 12:37
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Quinta-feira, 13 de Outubro de 2022

Duas vistas do Areeiro

Caminho do Areeiro, Lisboa (H. Novais, 196…)

 

Areeiro, Lisboa (H. Novais, 196…)


Vista do Areeiro, Lisboa, 196…
Horácio Novais, in bibliotheca d'Arte da F.C.G.

Escrito com Bic Laranja às 16:23
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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2022

Da evolução para pior

 Nada me frustra mais do que regredir. Se parece que avançamos, pior. Fico arreliado. Penso sempre que se chegámos a tal ponto e está bem assim, para quê mexer? Valho-me sempre aqui da máxima da tropa: — «Está bom? Não mexe!». Os adágios de que «o óptimo é inimigo do bom» ou que «se estiver melhor, não presta» também o dizem.

 Trocou-me o fornecedor de televisão (estranho conceito para quem nasceu com TV em VHF e cresceu com ela assim e mais em UHF) a caixa 4k de televisão por uma caixinha… 4k [?!] de televisão. Nôvo contrato, ofertas disto ou daquilo (canais de filmes e séries que não me interessam nada de nada; só vejo o canal dos bebés). Como aceito a proposta só para continuar mais uns tempos na mesma como até aqui (estou bem assim), vai de agendar a troca do equipamento e — Muito bem! Sim senhores! — aceito-a, cuidando que dada a minha frugalidade de só ver um canal de TV, pior não haveria  de ficar.

 Pois, piorou!

 Uma comodidade tão simples como o comando da anterior caixa 4k comandar o aparelho de televisão além da dita caixa 4k, foi-se. Depois, a modernice que me deixaram no móvel, mais minúscula porque é assim que é o modernaço (salvos os telemóveis, que aumentaram de tamanho), é menos prática de acender e apagar manualmente; tem ela um botãnito escondido de lado, em baixo, em lugar pouco prático, ao invés do redondo botão bem bem ao alcance da ponta do dedo na face superior da caixa. — Ora, duas mariquices (salvo seja) de nada, porém práticas para mim que até sou pouco exigente, esquecidas no salto em frente do progresso e,  sem elas aqui estou eu defraudado por essa tal modernidade tão fatal como o destino.

 Pois bem, não! Isto não me serve, mas, como tornar ao que já tinha e me servia tão bem? — Uma  tortura!…

 Ligar ao fornecedor de televisão (estranho conceito para quem nasceu com TV em VHF e cresceu assim com ela e mais em UHF) é outra tortura. Ao cabo de três telefonemas lá consegui, carregando instintivamente em tantos zeros que já nem sei, furar através da redundante  inteligência artificial (dantes havia um galicismo: cassette) a qual me cerceava de chegar à fala com alguém de carne e osso. Afortunadamente calhou-me até alguém que falava… português. Do autêntico, não dêsse dos trópicos (devia estar eu com o rabinho para a Lua naquêle instante…) Porém senti-lhe o espanto — à pessoa que me atendeu — no silêncio que fez quando lhe disse que rejeitava a modernice que me acabavam de deixar no lugar do que me satisfazia muitíssimo bem e que queria de volta se fizesse favor.

 Foi compreensiva e atenciosa a pessoa. Pediu-me  que não desligasse (deve ter ido consultar a chefia com tão quezilento pedido) e cá tornou à linha alguns minutos ao depois propondo agendamento para a reposição do equipamento na primeira forma, alertando-me que nêste caso não teria a regalia do Amazom Praime (quero lá saber!)

 Ficou assim para um dia dêstes, à tarde. Fiquei sastifeito (até vêr…)

Escrito com Bic Laranja às 17:07
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Domingo, 9 de Outubro de 2022

Esta m… já não leva arranjo

 Atrás de mim no super dois… dois… rapazinhos…? Um, com uma argola cravada no nariz como dantes se punha às bêstas para as prender ou não foçarem, vestia uma saia. Plissada. Fiquei sem bem saber se havia de ignorar os palhacitos do circo em que se o Mundo tornou, se havia de dizer ao de saiinha — plissada — que devia depilar as pernas. Grotesco!

 Nos anos 80 já era assim, mas era-se mais subtil. Ou estúpido, nem já sei!…

 
(Sub)Culture Club, Karma Chameleon
(1983)

Escrito com Bic Laranja às 15:23
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Sexta-feira, 7 de Outubro de 2022

Deve ler só títulos estrangeiros

Destaque do Sapo, Portugal, 7/10/22

A realidade é que já vai bem lançada alienada a gèração, dita, mais bem preparada de sempre.

Escrito com Bic Laranja às 12:29
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Terça-feira, 4 de Outubro de 2022

Instantes

 Na poltrona do escritório. Um cálix de Porto Vasconcellos que abri no Natal. — A rôlha já não vedava; vertia; uma garrafa de meus pais; dos alvores de 80? Se não, de 77 ainda… (de 74 não direi…)  Delicioso!
 No gira-discos Kiri Te Kanawa, Canteloube…


Kiri Te Kanawa (Baïlèro — Joseph Canteloube: Chants d' Auvergne)
Real Orquestra Filarmónica de Londres. Maestro: Carl Davis
Concerto no Teatro Barbican de Artes Cénicas,  Londres, 1989

Escrito com Bic Laranja às 15:24
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Sábado, 1 de Outubro de 2022

...

João Sebastião Bach — Cantata BWV 199 «Mein Herze schwimmt im Blut»
(N.ºs 3-4 — Doch Gott Muss Mir Genädig Sein,Tief Gebückt Und Voller Reue)

Soprano: Sabine Devieilhe; Maestro: Raphaël Pichon; Orquestra Pygmalion.
Filarmonia de Paris, 2018.
© Camera Lucida

 

Escrito com Bic Laranja às 16:21
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Segunda-feira, 19 de Setembro de 2022

À volta dos livros

 Estava a recordar-me… À roda dos livros é que foi, mas «à volta dos livros» é que é o título duma rubrica de rádio que havia e não sei se ainda há (). Duma vez que ouvi a rubrica na telefonia do automóvel resolvi dizer aqui alguma coisa de nada. Palavras de ocasião, conversa, nada importante. Mesmo assim ainda agora digo algo mais, que um blogo é justamente para isto; vem ao caso do que disse então: uma das autoras — Ann Bridge, pseudónimo de Mary Ann Dolling Sanders ou Lady O'Malley — era a esposa do diplomata Sir Owen O'Malley, que foi embaixador da Inglaterra em Portugal; o curioso é que o tirei só há meses do que li na «Correspondência» do embaixador Marcello Mathias com o Dr. Salazar, por quanto a refere ele (M. Mathias) em carta de 10 de Janeiro de 1950 numa passagem sua (dela) por Paris (pp. 147, 149)… À roda dos livros acham-se pontas soltas que se aprendem e atam.

 Vem isto ao caso de então, pois, mas não ao do que ia agora dizer. À volta ou à roda dos livros, como vou cirandando aqui por casa, acho num e noutro, esquecidos, marcadores e outros papeluchos a marcar páginas e que já me nem lembra quando e como os lá deixei.

 É o caso.

 Na «Batalha de Aljubarrota» (Comemoração do VI Centenário / Academia Portuguesa da História . — Lisboa : Academia Portuguesa da História, 1988) achei agora um folheto das festas da Nave de Haver, terra orgulhosa do meu bom amigo Eng.º Nabais (grande sportinguista). A Nave de Haver só terá de muito remotamente haver de ver com qualquer aljuba rota se ali aparecer judeu raiano de gibão do séc. XIV, rasgado; afora ele, talvez algum contrabandista com véstia do género em atribulada fuga à Guarda Fiscal no séc. XX. De aljuba ou gibão, no séc. XXI o que começa a ser tratado como contrabando são as festas de toiros e, lá chegaremos, a capeia arraiana. Não será o caso em Nave de Haver, pelo menos até 2012, ano do folheto. E eis quando terei andado eu a ler o opúsculo da Academia da História.

Nave de Haver (Festas), 2012

 Tornando ao que ia dizendo, no «D. Sebastião e o Encoberto» (Estudo e Antologia / António Manuel B. Machado Pires. — 2.ª ed. — Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 1982) achei há dias um postalinho do Dia Mundial da Poesia, Fnac Colombo 21 de Março…  de 2004. Terei então andado por lá (pelo livro; e pela Fnac também, talvez…)? Faltam-lhe todavia palavras a «As Palavras» de Eugénio de Andrade. — Editores infelizes, que promovem a poesia e ao depois a publicam só pela metade!… — Dactilografei agora a segunda metade do poema no canto inferior para publicá-lo aqui decentemente. Duma terceira metade de poesia direi mais a deante.

As-palavras (Eugénio de Andrade), Fnac no Dia da Poesia, 2004

 Não é coisa apenas minha, esta, de certo, de deixar marcadores ou o que calha a marcar os livros. Numa 1.ª edição da «Vindima» (ou dos «Novos Contos da Montanha»… — Exactamente! Foi dos «Novos Contos da Montanha») — do Torga, que encomendei a um alfarrabista, achei a páginas tantas um calendário plastificado de 2007 com fotografia no verso dum bebé de fatinho azul. Azul-bebé. Noutra página qualquer do mesmo livro, uma nota de 50$00, daquelas da infanta D. Maria. — A nota parece que vale agora à roda dum conto de réis…

Nota 50$00 da Infanta D. Maria, 1980

 No Dicionário Clássico de Guilherme Smith (Classical Dictionary / William Smith. — [Ware] : Wordsworth, imp. 1996), a que volto vai não vai, achei há tempo bilhetes do teleférico de Santa Luzia em Viana da foz do Lima, e da Santa Casa de Azeitão a cobrar o estacionamento no Creiro: 1,50 €, este; há ele de remontar a Outubro do ano 7 quando tornámos duns dias em Atenas e, com o calor que fazia, somámos uns bons dias de praia. A Sr.ª D.ª M.ª Luísa fazia então do dicionário clássico leitura de praia e com ele ligou as pontas dessa semanita de férias: Atenas e Arrábida. E a rifa do estacionamento teve o fado de ficar esquecida na página das Moirae
 De Santa Luzia não me lembro ao certo em que ano foi. Ficou-me o bilhetinho que acabou a marcar a página dos verbetes Hespéria e Hespérides: palpitar-me-iam no bestunto laranjas ou o Algarve, algo assim… Nesta ordem de ideias, o bilhete a marcar a página do livro e a entrada do dicionário enquadram Portugal de alto a trás, de baixo para a frente e vice-versa.

Elevador de S. Luzia / Hespéria (Classical Dictionary / William Smith. — [Ware] : Wordsworth, imp. 1996)
Elevador de S. Luzia / Hespéria (Classical Dictionary / William Smith. — [Ware] : Wordsworth, imp. 1996)

 

  Há pedaço tirei da «Lírica Completa – II», de Camões (Lírica Completa (3 vols.) / Luís de Camões, Maria de Lourdes Saraiva [pref. notas]. — 2.ª ed. — [Lisboa] : I.N.-C.M., imp. 1994), um cartão do Teodósio, o Rei dos Frangos — The King of Chicken para beef que passe possa entender —, Guia-Albufeira, pois claro! Estava a despropósito nem sei já de quê nas pp. 330-331 a marcar os sonetos De mil supeitas vãs se me levantam e Eu me aparto de vós, Ninfas do Tejo. Mais a propósito haveria de estar a marcar Os reinos e os impérios poderosos que, segundo diz o manuscrito D. 199 da Real Biblioteca de Madrid, é poema dedicado ao Duque de Bragança D. (cá está!) Teodósio. Os versos não no referem nominalmente, mas, lá iremos.

Os reinos e os impérios poderosos,
que em grandeza no mundo mais cresceram
ou por valor de esforço floresceram
ou por varões nas letras espantosos.

Teve Grécia Temístocles famosos;
os Cipiões a Roma engrandeceram;
doze pares a França glória deram;
Cides a Espanha, e Laras belicosos.

Ao nosso Portugal (que agora vemos
tão diferente de seu ser primeiro),
os vossos deram honra e liberdade.

E em vós, grão sucessor e novo herdeiro
do braganção estado, há mil extremos
iguais ao sangue e móres que a idade.

(Loc. cit., p. 284)

 ( Um parêntesis aqui porque é interessante. Houve dois duques de Bragança chamados D. Teodósio: o V.º e o VII.º. A nota da Autora a este soneto refere que se habitualmente o crê (ao soneto) dedicado ao V.º (1532-1563), porquanto o VII.º duque só adquiriu o título em 1583, já Camões era falecido. Ora o manuscrito de Madrid, no que diz — «outro seu [de Camões] ao Duque Dom Teodósio» —, só mostra que D. Teodósio já era duque quando o manuscrito foi feito, não quando Camões fez o soneto e, o soneto não se refere a nenhum duque, mas ao novo herdeiro do braganção estado. M.ª de Lourdes Saraiva frisa que os últimos versos dão a pista certa: os mil extremos iguais ao sangue, e móres que a idade são grandes feitos praticados por quem seria novinho de mais para os cometer. O VI.º Duque de Bragança, D. João, não acompanhou D. Sebastião na infausta jornada de Álcácer Quibir; em vez, mandou seu filho e herdeiro, de 10 anos, D. Teodósio, a representá-lo. Consta que o pequeno herdeiro do braganção estado desobedeceu às reais ordens de ficar sossegadinho na carruagem e se fez à batalha onde se bateu com galhardia igual ao sangue e maior que a idade, até ser ferido e capturado. Foi ao depois como tantos fidalgos portugueses resgatado pelo endinheirado Filipe II de Espanha, que o teve em Castela e o só deixou regressar a Portugal passados anos, em 15 de Março de 1580. Fizeram-se cá então grandes manifestações de júbilo e muitas homenagens. Aventa a Autora, como aventou também o Prof. Hermano Saraiva nalguns de seus programas, que esta cronologia permite conjecturar ser este um dos últimos, se não o último, soneto de Camões.)

O Rei dos Frangos (Teodósio) / The King of Chicken, Guia (Albufeira), s.d.

 Como é este Teodósio mais frangueiro do que Dom, ponho-o agora a marcar as 

Cinco galinhas e meia
deve o Senhor de Cascais;
e meia vinha cheia
de apetites pera as mais.

(Op. cit., vol. I, p. 232)

   … réplica de Camões ao dito Senhor de Cascais, D. António de Castro, que lhe prometera meia dúzia de galinhas recheadas em pagamento dumas coplas e que para princípio de paga lhe mandou somiticamente meia galinha (e é esta a terceira metade de poesia que dizia eu lá para trás).
 Por aqui fica, que a ceia está na mesa.

Escrito com Bic Laranja às 20:30
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Terça-feira, 13 de Setembro de 2022

Hagiológio (*)

 Um «caixote» de atrelado em Santo Amaro, caminho do Alto de São João, anunciando a São Cristóvão, com São Pedro a dar chuva.

Um 17 em Santo Amaro, caminho do Alto de São João, publicitando a escola de condução de São Cristóvão, num dia em que São Pedro mandou chuva, Lisboa (T. Boric, 1978)
Eléctrico 17, Lisboa, 1978.
Tim Boric, in Flickr.


(*) Em dia de São João Crisóstomo.

Escrito com Bic Laranja às 11:11
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