Trânsito já é mais estar parado num engarrafamento que sinónimo de gentes em marcha. Daí, talvez o recurso ao vocábulo mobilidade como atributo duma semana para brincar à liberdade de movimento da gente urbana.
Um contra-senso é haver na dita semana da brincadeira um dia sem carros. Ora não é o automóvel (logo por definição) um dos meios que dá maior mobilidade? Ele acrescenta aos humanos velocidade sem esforço; estende-lhes o alcance sem os cansar; leva-os de porta-a-porta (nalguns casos quase à sala de jantar) com maior comodidade e sem mistura com estranhos. Torna-se pois acintoso, numa semana crismada da mobilidade, impedir às gentes o trânsito em automóvel, esse insofismável paradigma da mobilidade, na Rua de S. Sebastião, por exemplo, permitindo aí, porém, o trânsito em veículos de inferior potencial de mobilidade (trotinetas, burricos e humanos... a pé). No limite, hoje, dia europeu sem carros, até um carro de bois (que não deixa de ser um carro, pois então) poderia descer a Rua de S. Sebastião. Um automóvel é que não.
Toda esta palermice (a da iniciativa, não a que escrevo) demonstra bem o empenho em fazer das gentes imbecis com pantomimas de parecer bem (leia politicamente correctas, se preferir).
Outra palermice (a que escrevo) não passa de fraca ironia. A mobilidade (ou a falta dela) é tão só um sintoma de avidez, preguiça e estupidez. A doença do dia europeu sem carros é a ganância imoral dos edis; é o desmando do imobiliário; é o enxotar cidadãos para os arrabaldes; é a preguiça de planear a cidade; é enfim, a falta de tino para sequer pensar que as pessoas não deviam morar longe do trabalho. Coibir o uso do carro particular nem chega a ser paliativo; nas actuais circunstâncias é no mínimo fazer pouco da gente.

Parque Florestal do Monsanto, assinatura do projecto [com o presidente Carmona e o engº Duarte Pacheco], 1938.
Fotografia de Mário de Novaes, in Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa.
Mas vendo este desmazelo, o melhor é esquecer. Este assunto é perda de tempo.
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