Sábado, 12 de Agosto de 2006

Vitimar aviões?

 A metáfora do avião cheio de crianças é uma bola de neve. É uma avalancha.
 É um plágio dos antigos — coisa requentada lá de fora, vendida neste umbigo rectangular como se fora original. O texto — injusto e descortês para a aeronáutica civil — é afinal a parte mais... criativa: «todos os anos cai um avião cheio de crianças em Portugal»; interessante é a elipse em «todos os anos a velocidade nas estradas vitima um avião cheio de crianças», que se presta a nexos de causalidade absurdos:
Foto: P.R.P.  — Então a velocidade vitima um avião? Que é lá isso?! O que vitima, ou melhor, o que faz cair um avião é o oposto: a falta de velocidade. Entre outras coisas...
 Ou leituras mais ou menos gramaticais:
  — Um sujeito veloz na estrada tem como predicado vitimar de tanto acelerar acaba voando e... choca com um objecto directo do voo - um avião - vitimando-o. Para piorar, é um avião com um complemento circunstancial intensamente povoado de crianças.
 Ora aí tendes o mais importante: um complemento circunstancial (va bene, leia-se crianças). Mas apesar da intensidade (avião cheio), a tragédia agrava-se com o outro complemento: o de tempo  — «todos os anos...»
 Esta avalancha criativa dos publicitários ultrapassa em alta velocidade a P.R.P., capaz só de campanhas a 10 à hora, do tipo «se conduzir não beba» ou «comigo a criança vai sempre atrás». O custo de produção desta original campanha foi vertiginoso: atingiu meio milhão à eura — já com I.V.A. e avião incluídos. Coisa assim, só possível a esse Fórmula 1 cheio de energia que é Galp. Eis a anti-sinistralidade rodoviária à grande vitesse — que é o mesmo que à grande e à francesa — e que é coisa bonita de ver a uma empresa pública... Perdão! É uma S.A.
 Não quis o sr. ministro Costa do interior ficar atrás e toca de acelerar a 1 milhão à eura com o Fundo de Garantia Automóvel no grande prémio da divulgação. Pública. Na comunicação social: pública e privada. E... (qual pescadinha de rabo na boca) nos 800 postos da Galp!
 Se bem que os aceleras hajam de continuar só a ouvir os subwoofers da estereofonia do carro, as crianças que andam de avião hão-de ficar mais felizes.
 E as que os pais tenham empresas que facturem a divulgação da campanha ao sr. ministro Costa do interior também.
 Ora aí tendes o mais importante: complementos circunstanciais.

 O mais triste é que face ao que se adivinha já sobre aviões e segurança, as pobres crianças — seja na pele delas ou na pele de adultos — nem uma garrafa de ¼ de litro de água haverão de poder levar na cabina: pode ser explosiva. Uma ironia para os mais de 60% de água que o corpo humano é.

Escrito com Bic Laranja às 08:21
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8 comentários:
De Bic Laranja a 13 de Agosto de 2006
Caiê: há muita mistificação por aí há! É precisa redobrada atenção aos discursos e às pronúncias para nos não deixarmos enganar. E eu nas pronúncias regionais deixo-me sempre encantar por todas. Grato pelo aviso. Cumpts. // Tron: se o que quer dizer é que o sr. ministro não corrige o disparate, olhe que a coisa é obra dele. E sabemos bem como ele é autista. Cumpts.
De tron a 12 de Agosto de 2006
mas o ministro da administrção interna coça os tomates
De Caiê a 12 de Agosto de 2006
A maneira de escrever ou dizer uma notícia é a maneira de a fabricar... o brainwashing anda aí!
pst... não existe um sotaque açoriano! Cada ilha tem um sotaque particular e bem diferente, varia muito de umas para as outras! O que chamas de sotaque açoriano é o da ilha maior que, infelizmente, é o que se vende como "açoriano" no Continente, sendo também o mais cerrado e menos bonito...
De Bic Laranja a 12 de Agosto de 2006
Obrigado! Cumpts.
De BS a 12 de Agosto de 2006
Ainda por cima, o edifício da BBDO em Portugal parece uma máquina de lavar.
Brilhante análise. Escrita fina.
Cumprimentos.
De Bic Laranja a 12 de Agosto de 2006
É tudo 'jumbo', não é, amigo Manuel? // A felicidade desta gente é a compra e venda entre si; por norma tornando árido o Erário. Um bom cenário - já vê amigo Paulo - para outros camelos 'aterrarem'. // Um abraço aos dois.
De Paulo Cunha Porto a 12 de Agosto de 2006
Meu Caro Bic Laranja:
Já se sabe que os políticos e a felicidade linguística são menos encontráveis do que os cactos e o gelo. Mas, ligando ao "post-scriptum", que admira que um conjunto de camelos transforme as asas da vida, tornando-as estéreis como um deserto?
Abraço.
De Manuel a 12 de Agosto de 2006
Meu Caro Amigo, tem a minha assinatura por baixo. E o avião é especial de corrida, sim. À descolagem, transforma-se num 747. Um abraço

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