Quarta-feira, 1 de Agosto de 2012

Lisboa, Verão de 73

 Onde se vê o Terreiro do Paço pintado de verde com um formidável parque de estacionamento e o autocarro 46 para Marvila, também pintado de verde; a Rua Augusta antes de a mobilidade lhe requalificar o asfalto em favor de hippies e duma feira da ladra com erva à mistura; o Rossio das floristas e com o Teatro Nacional em convencionais obras antes de vir a ser requalificado sem obra nenhuma em qualquer coisa que lhe deu hoje um albergue de mendicidade no pórtico; 30º à sombra; a Rua dos Fanqueiros com um magala a saltar para o eléctrico em andamento; os mais modernos táxis Datsun Peugetot e Mercedes Fintail da praça de Lisboa (além Mercedes 180); a Ginginha sem Rival; a Rua de Santa Justa, o elevador e as vistas; o rio, a Ponte Salazar antes de ser demolida para construir a 25 de Abril... A torre de Belém e o padrão das Descobertas; a Praça do Império com o dito implícito na data do filmezinho. A Feira da Ladra. Os cacilheiros, o Tejo, Lisboa...



Por cortesia do leitor José aqui há dias.
O autor da filmagem designa-se por freak de [filme em] 8mm.

Escrito com Bic Laranja às 12:55
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Mobilidade e outros rodriguinhos

 Mobilidade não é locomoção. A locomoção é o movimento pelo qual um corpo muda de lugar. A mobilidade é qualidade do que é móvel ou mera possibilidade de um objecto se mover ou ser movido. A locomoção é física, produz-se no espaço; a mobilidade é abstracta, elabora-se na mente.
 É habitual os burocratas desconhecerem a realidade e os políticos descuidarem-na. Como são sempre gente «conceituada», elaboram-na [à realidade] assaz conceptualmente… — Pois bem, a mobilidade em si mesma não é nada. O que materializa a minha mobilidade (a minha capacidade de locomoção) são os meios: as minhas pernas, para começar; as pernas doutro animal ou algum meio mecânico em que me eu encavalite, mais indirectamente (e menos cansativo, pois claro). Sobra o espaço. O espaço em que a minha locomoção por esses meios se pode fazer.
 A Câmara de Lisboa tem um vereador da (ou «para a», que é já mais um rodriguinho) mobilidade.
 Tem o seu pelouro municipal por objecto as minhas pernas? — Não.
 Tem por objecto o meu burrico ou a minha carroça? —  Também não.
 Quando muito, falando em meios de locomoção, teria pelouro sobre os transportes públicos (que até cuido terem vereador à parte).
 Sobra o espaço; é principalmente do espaço urbano viário que o vereador dito «da mobilidade» tem pelouro. Este pelouro é na realidade o dos caminhos (melhor: ruas, praças e avenidas — ah! e ciclovias ops! vias cicláveis, pois Lisboa não é uma terra qualquer). Deve ser da vaga noção disto — de ser afinal o vereador dos caminhos — que pariram o pomposo complemento do nome do pelouro: «mobilidade e infra-estruturas viárias». (Olaré! Dos «caminhos» seria simplório...)
 Calhei ouvir anteontem na telefonia este vereador dos caminhos da mobilidade e infra-estruturas viárias numa notícia de «restrições à circulação do trânsito» no Terreiro do Paço agora em Agosto (saiba o leitor que «restrições» é eufemismo para «interdição» e a «circulação do trânsito» é disparatada redundância; a menos que «restrições à circulação» seja trânsito de lá para cá e «do trânsito» seja, por preciosa função poética, circulação de cá para lá — e vice-versa, necessàriamente).
 A notícia é, portanto, da interdição viária no cais das colunas e na Ribeira das Naus (a somar ao que já por ali inventara o trôpego Costa, parece-me). Porque «sobretudo com as deformações do pavimento decorrentes de chuvas e do facto de a obra não ter ficado suficientemente consolidada na altura da sua abertura [quando tivemos S.S. o Papa]» (vereador dixit) o piso «ondulou» e houve «cubos que se soltaram». Ora tudo isto são rodriguinhos de linguagem para dizer que acabaram a obra à pressa para receberem S.S. o Papa e com tanto a calçada se desconjuntou.
 No fim ficou-me que o sr. vereador chama «cubos» às pedras da calçada. Cubos. O labor conceptual de burocratas e políticos explica muito do que nos rodeia, mormente em Lisboa: e com ele a quadratura de calhaus da calçada ser municipalmente entendida como um sólido geométrico perfeito…


Terreiro do Paço, Lisboa, [s.d.].
Mário de Novais, in Bibliotheca d'Arte da F.C.G..

Escrito com Bic Laranja às 07:35
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