Sexta-feira, 7 de Novembro de 2014

As «lições» de linguagem do analfabetismo com ar de entendido

 Um acordita comentou-me aqui há dias de ser a reforma ortográfica de 1911 uma aproximação descarada e trapalhona à grafia do castelhano. Presume-se que por razões do iberismo...

 Em tempos tropecei num comentador no «Delito de Opinião» convencido justamente disto (calhando era o mesmo). Essoutro até dava «provas»: os sufixos dos gentílicos portuguez, francez, os topónimos Brazil, Mossambique, o exótico assucar, a respeitável egreja e o revolucionário egual, cuja grafia veio a dar no que temos por reles imitação do castelhano.

 Gonçalves Viana levou a vida, é certo, com a mania de «simplificar» a ortografia e dissolveu dúvidas no latim e no castelhano; já se era iberista não sei. Sucedendo que a reforma ortográfica de 1911 se deu pelas razões de ideologia politica que mudaram a bandeira nacional, devo, porém, sem novidade e com mais razão entendê-la quanto às suas opções lexicográficas como corolário do devir histórico do latim vulgar na Hispânia. Nestes termos cuido forçado crê-la como decalque cego e primário do castelhano, de mais a mais por mero propósito de iberismo político. Colhe antes o argumento algo obsessivo de Gonçalves Viana em esconjurar a ortografia do português do jugo dessa tradição postiça e presunçosa de ortografia helenizada e alatinada (Ortografia Nacional, Lisboa, Viuva Tavares Cardoso, 1904, p. 12). As opções lexicográficas, portanto, nos casos apontados e em geral, fundaram-se na história do idioma, mais nas raízes (orais) do português antigo, e menos no português clássico que do séc. XVI ao séc. XIX buscava o Latim.

 A base para a regularização da ortografia portuguesa tem de ser a história da língua no tempo e no espaço; convém saber, o exame detido e científico dos seus monumentos escritos, desde os primeiros tempos, e o conhecimento metódico dos seus vários dialectos actuais. As línguas estranhas, cujo conhecimento se torna necessário para ficsar, e sobretudo para aplicar essa ortografia, são a latina e a castelhana, estas duas mesmas sómente como aussílio para resolver os casos duvidosos; (Op. cit., p. 7)

A terminação dos gentílicos

 É da tradição portuguesa que os gentílicos português, francês &c. se formam com s final: tradição hispânica e românica decorrente da sufixação oriunda do latim -ensis que nos deu -ense por via erudita e -ês por via popular. O caso não tem dúvida e por conseguinte nem estranho a ausência de gentílicos formados com z final no Corpus do Português Medieval.

 No Corpus do Português, que abrange do séc. XIV ao séc. XX, o primeiro caso que achei é dum certo Jsaque francez, mencionado nos livros da  chancelaria de el-rei D. Duarte. O próprio rei D. Duarte, porém, não deixou de escrever -- quiçá de seu punho -- no Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela: Nem tenho que hũu ingres ou frances se bem corregesse em hũu cavallo de sella gyneta de curtas estrebeiras, se antes em ella nom ouvesse custume d’andar (liv. 3-1, cap. 7, f. 103r); -- Pode o ingrês vir ali com desusado (ou popularucho) rotacismo, mas dúvida me não resta em que o sufixo -ês é o que rege em curtas estribeiras os gentílicos que tiveram o costume de andar em -ensis .

 É mais do que basta para assentar este caso.

Os topónimos Brasil e Moçambique

 O topónimo Brasil é grafado assim, com s, por João de Barros na Primeira Década da Ásia (Liv.º 5.º, cap. II); do Brasil disse com certa razão e, talvez ainda, actualidade: 

 Per o qual nome Sancta cruz foy aquella térra nomeáda os primeiros annos: & a cruz aruorada alguũs durou naquelle lugar. Porem como o demonio per o sinal da cruz perdeo o dominio que tinha sobre nós, mediante a paixã de Christo Jesu consumada nella: tanto que daquella térra começou de vir o páo vermelho chamado brasil, trabalhou que com este nome ficasse na boca do pouo, & que se perdesse o de Sancta cruz.

 Pero de Magalhães de Gândavo escreveu sempre Brasil na sua Historia da Prouincia de Sancta Cruz (1575).

 No Corpus acho Brasil mais de noventa vezes em obras do séc. XVI; a grafia Brazil acho-a por sete vezes e três delas são nas Décadas de Diogo do Couto cuja edição que serve de base ao Corpus é do séc. XVIII, quando sei que foi mais acentuado o hábito de grafar com z o s intervocálico do português. Foi com toda a certeza do falar dos portugueses, que não da sua escrita, que os ingleses tomaram o topónimo e daí escreverem-no Brazil. -- Tivera-o o inglês tomado do falar castelhano e haveriam de o talvez acabar por escrever Brasil com s, pois é «Brassil» que soa em castelhano. O nome Brasil, assim, é bom português (*).

( Abro aqui parêntesis enquanto reflicto sobre o vocábulo português Brasil porque me veio à ideia o zurrar recente daquela cavalgadura de nomeada com alvará de sábio e merecido eco nos areópagos histriónicos de Portugal e Brasil, o ilustre doutor Pimentel:

 Comparar o português com o inglês e o francês e o alemão é como comparar formiga com elefante. São culturas muito diferentes. Essas (i.é, estas) línguas têm muito mais História [...] Eu considero a nossa língua em começo de expansão (in I.L.C. contra o Acordo Ortográfico, 5/XI/2014).

 Este doutor Pimentel é besta tal que, tendo nome de baptismo Hernâni, só conseguiu escrevê-lo Ernani -- se fosse Miguel escreveria Migel... -- Há semanas baralhou-se um tudo nada com os primeiros paços da Aritmética; as boas letras são-lhe ingratas, por isto anda para aí aos tombos com o idioma à procura de que se escreva xuva em vez chuva. Um operário da ignorância voluntarioso e trabalhador, hei-de conceder, mas muito estúpido para perceber que Brasil é uma palavra portuguesa, Braziu não...)

 A razão da grafia Moçambique e não Mossambique soube-a também João de Barros (Liv.º 4.º, cap. III); a transliteração do árabe ao português (que tão ignorada é hoje, importando-se tudo do amaricano) tem regra. E o topónimo Moçambique, dizem vir dum nome próprio Muça Al... qualquer coisa, um mercador muçulmano. Foi a grafia portuguesa, com ç, que deu origem ao equivalente castelhano com z; não foi o castelhano que deu origem ao português.

 Não duvido de que ambos os topónimos nasceram no português como hoje os escrevemos; do português passaram além, adaptados a fonéticas estranhas, menos desvairadas umas, mais bárbaras outras... Dizer, pois, que a recuperação e fixação daquelas formas originais portuguesas em 1911 foi imitação do castelhano é estupidez atrevida e ver o Mundo ao contrário. O tal comentador no Delito, um tal Porto, de tão encarniçado contra a assimilação ao castelhano até podia parecer portuguez de velha cepa. Não. É um acordita: dá palpites filológicos pelo cheiro e redige como pateta. O de há dias por aqui, se não é o mesmo cavalheiro, é igual. São ambos a amostra acabada da ignorância atrevida de todos quantos vejo a defender o caco gráfico.


(*) Já depois do que aqui escrevi consultei de fugida o Dicionário Etimológico de J. P. Machado que entronca o étimo do substantivo comum brasil no it. medieval (séc. XII), referido a uma planta tintureira oriental. O seu uso na Itália dever-se-ia ao ar. wars ou warsīī, algo assim. Conto de ao depois escrever uma apostila a este caso, até porque houve já um brasileiro a querer entroncar este vocábulo no fr. -- Tudo serve à renegação brasileira do português....

(Revisto.)

Escrito com Bic Laranja às 07:46
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Terça-feira, 4 de Novembro de 2014

Teleromance

fotografia.JPG

Produzido pela R.T.P. .... 2014.

Escrito com Bic Laranja às 23:08
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Segunda-feira, 3 de Novembro de 2014

A orthographia e os humores jacobinos

 Em 1770 ainda se publicava em Paris a 7.ª ed. do Abrégé de la Grammaire Françoise, do sr. Wailly, «revista e augmentada», cuja ensinava o imperfeito de aimer como amois, aimois, aimoit....
 Em 1807 houve, em fim, um Nouvel Abrégé de la Grammaire Française, onde françoise (adj.) se vertera em française, mercê da mudança de entoação desse ditongo no séc. XVIII. Nos imperfeitos dos verbos, porém, mantinha-se na grafia o ditongo oi provando que a orthographia dum idioma segue o seu curso, mas, leva o seu tempo. Não é para andar constantemente remexida, mormente por humores de política jacobina.
 A orthographia segue o devir da linguagem, vai-se afeiçoando a ela. — Ou devia...

Escrito com Bic Laranja às 18:37
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