Terça-feira, 15 de Setembro de 2015

No tempo em que o ano lectivo começava em 7 de Outubro...

... E como ao depois dos amanhãs a cantar os anos lectivos entravam em Novembro e Dezembro sem haver professores...

 Há dias ecoou-me dum noticiário domingueiro a coordenadora do tijolo da canhota «nunca a escola pública começou tão tarde…». Bem sei que à esquerda o mundo só começou agora, mas, na realidade nunca começou tão cedo.
 Não é tão tenrinha aquela coor'nadora?...

Escola primária n.º 24, B.º de S. Miguel (A. Serôdio, 1956)
Escola primária n.º 24, B.º de S. Miguel em Lisboa, 1956.
Armando Serôdio, in archivo photographico da C.M.L.

Escrito com Bic Laranja às 09:00
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Segunda-feira, 14 de Setembro de 2015

Redondilha maior

Garrett, «O Romanceiro», Simões Lopes, Porto, 1949 (In Livros Suméria)

 

Ora da nau catrineta (*)
Dela vos quero contar!
Ouvide agora, senhores,
Uma história de pasmar.

                == // ==


Lá vem o João Ancinho
Que tem muito que plantar
Sacos, alfaias, sementes,
E a Dyane a transportar.

— Bom dia! — Viva! Bom dia!

*  *  *


 
No sossego dum destes serões lia calmamente eu a Garrett no Romanceiro: Esta é sem questão a mais geralmente sabida e cantada de nossas xácaras populares, a «Bela Infanta», cujos versos são aqueles — Estava a bela Infanta // No seu jardim assentada // Com o pente de oiro fino // Seus cabelos penteava &c.Estranha coisa a dos referenciais. A verdade dela, que me deixa até nalguns cuidados, é que no ritmo dos versos que lia e trauteava mentalmente vinha-me à ideia aquela velha ladainha publicitária da Citroën Dyane, que aprendi de ouvido em pequenino: Lá vem a D.ª Maria // Mais o seu belo carrinho // Leva os meninos à escola // Faz as compras de caminho. // E eu a vê-los passar...
 Os meus cuidados são, pois, aflição fácil de entender a quem me conheça: a xácara da Bela Infanta, a mais geralmente sabida e cantada das nossas xácaras populares, nunca a conhecera eu de tradição oral, nem de lê-la sequer, senão agora nesta idade que a lia. E no entanto o reclamo da Dyane (uma coisa moderna e lá de fora) aprendera-o em tenra idade como por... tradição oral. Que ironia!
 Metido nestes cuidados, pois bem, lembrei-me d' A Nau Catrineta, o único rimance aprendido de que retinha memória; bem certo que lhe não sabia mais que um par de versos (que aflitiva falta de cultura, Jasus!), mas pelo menos tinha-o de ouvir dizer. E folheando adiante o Romanceiro que lia sempre o achei — Lá vem a nau Catrineta // Que tem muito que contar! — A semelhança com aqueles Lá vem o João Ancinho // Que tem muito que plantar é evidente, mas nunca tal me ocorrera até ali. Bem lhes percebo, agora, aos do anúncio, a inspiração. Já lá vamos...
 O caso é que A Nau Catrineta, como todo o romanceiro português, esqueceu. Se se ouve é como curiosidade etnográfica; se sobrevive é em livros que poucos lêem; pode até dar (e talvez deia) nas TV, mas como coisa de museu, nada como as ladainhas repetitivas e efémeras da publicidade hodierna. Aquele velho e vivo repetir dos romances populares na voz das gentes acabou; hoje trauteiam-se outras coisas...
 Desculpo-me da minha ignorância do romanceiro português com fracos argumentos, pois bem. E com uma descoberta: nestas cogitações apercebi-me do saber literário e da destreza poética do publicitário por estribar-se habilmente nos versos d' A Nau Catrineta; se bem que gente em geral como eu nem haja aprendido o seu romanceiro, o ritmo que ancestralmente nos fazia, aos portugueses, com toda facilidade reter de ouvido os romances da tradição era a redondilha maior, que é muito do génio da nossa linguagem. Vejo por conseguinte como são os versos da Citroën Dyane todos em redondilha maior e como me por isso ficaram até hoje no ouvido. Se n' é cousa de pasmar, é bem ela de admirar.

Lá vem o João Ancinho
Que tem muito que plantar
Sacos, alfaias, sementes,
E a Dyane a transportar.

— Bom dia! — Viva! Bom dia!

Lá vem a Dona Maria
Mais o seu belo carrinho
Leva os meninos à escola
Faz as compras de caminho.

(Nhã nhanhã nhanhã nhã!)

E eu a vê-los passar!

Que diabo de negócio
Eu havia de arranjar:
— Gasolina, mal precisam!
— Oficina, nem falar!

 

 


(*) Sigo a lição da Estremadura ensinada em nota por Garrett, que preferiu seguir no seu Romanceiro a mais geral Lá vem a nau Catrineta // Que tem muito que contar (ed. do Círculo de Leitores, 1997, p. 272).

Imagem dos Livros Suméria.

Escrito com Bic Laranja às 07:45
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Domingo, 13 de Setembro de 2015

Meditações copo-de-leite

IMG_0868.JPG

 Comenta-se por aí a fotografia de plástico. É só o que se comenta. Uns dizem isto, outros aquilo. Alguém me pregunta por que mandou ele aquilo aos jornais, ensaiando pronta a resposta: -- Para mostrar que está na maior?!... -- Não sei. Nem me ocorre razão senão o reclamo à água engarrafada. -- Depois das pizzas, a água engarrafada. -- E de feito, os comensais na fase do arroto àquela mesa não só se não perdem nos negocios, como se vão até achando nalguns... Só faltou lá o Vara...

Escrito com Bic Laranja às 11:55
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Quinta-feira, 10 de Setembro de 2015

Descubra as diferenças...

Alameda, feudo esquerdóide, Lisboa — © 2015Alameda em 26/VIII/2015, Lisboa — © 2015

 

Alameda, feudo esquerdóide, Lisboa — (c) 2015
Alameda em 4/IX/2015, Lisboa — © 2015

Escrito com Bic Laranja às 13:35
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Terça-feira, 8 de Setembro de 2015

Servum pecus

«O Diabo», 8/IX/15

 O Diabo, 8/IX/15.

Escrito com Bic Laranja às 10:18
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Alvores do bairro de Arroios

 Vieram os eléctricos e durante muitos meses os pavimentos ficaram revolvidos. Era o progresso, a civilização à porta. Ainda me lembro da tardinha calmosa em que passou o primeiro, com a bandeirola a dizer «Experiência», vagaroso, tacteando os carris novos, cheio de pessoal, até parecia uma gaiola de estorninhos. Foi um acontecimento. O comércio animou-se. Houve quem desse palmas! Os pinocas do bairro aprenderam a subir e a descer com o carro em andamento: alguns estampavam-se. As meninas caseiras punham-se à janela para ver quem subia e quem descia. As criadas vinham com um banquinho, para que as patroas de saia travadinha pudessem trepar ao estribo, duma altura vertiginosa. Nesse tempo ainda havia lugar nos eléctricos, seu Apolinário: e «carros do povo» e carros do Chora a fazer concorrência!

José Rodrigues Miguéis, «Saudades para a Dona Genciana», in Léah e Outras Histórias, Círculo de Leitores, [s.l.], [1971], pp. 192-193. 


Rua Paschoal de Mello, Lisboa (J.A.L. Barcia, 19...)
Rua Paschoal de Mello, Lisboa, c. 1908.
José Arthur Leitão Barcia, in archivo photographico da C.M.L.

Escrito com Bic Laranja às 09:45
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Sábado, 5 de Setembro de 2015

Dumas terraplenagens na Alameda...

Terraplenagens antes da Alameda, Lisboa (E. Portugal, 1939)
Terreplenagens na Alameda, Lisboa, 1939.
Eduardo Portugal, in archivo photographico da C.M.L.


  Em tempos andei às voltas com esta imagem tentando enquadrá-la com os quarteirões edificados a N da Alameda. Consegui percebê-la graças à casa assinalada que, com admiração, então, verifiquei das vistas aéreas ainda existir. O que me mais surpreendeu, todavia, então, foi a dita casa não ter frente para nenhuma das ruas adjacentes; acha-se encravada no interior do quarteirão. Na altura não curei muito mais do caso. Apenas conjecturei que pudesse ter serventia independente para rua através dalgum arco nos prédios que a rodeiam, à maneira de tantas vilas operárias que ainda podemos ver em Lisboa.
  Tem graça isto agora porque ouvi há pedaço nas notícias uma jornalista pé-de-microfone dizer que nas traseiras da casa de que se fala, na Rua Abade Faria, 33 há uma «vivenda»... — Afinal aquela casa que me intrigou faz tempo não tem serventia independente.
  Empreendendo de novo agora no caso, a razão do seu desvio das ruas adjacentes — mormente da Abade Faria — é bem ela pousar no que era orla SE [NE] da velha quinta dos Pacatos (retiro alfacinha dos mais afamados) que dava para a esquecida Azinhaga do Areeiro — antiga Azinhaga do Areeiro, depois Rua Carvalho Araújo e hoje, pois bem, Rua Abade Faria — e ter sido edificada antes (portanto à revelia) do alinhamento do bairro; isto tira-se muito facilmente da fotografia. Como acabou tão recuada, deu azo a que se lhe levantassem capazmente outros prédios à face das ruas do novo bairro sem na demolir. A parcela em que estava deu boa folga ao que o transeunte vê hoje como o 33 da Abade Faria, morada que, no fundo, não deixa de ser ela mesma, a tal casa...
  Uma curiosidade olisipográfica de engenharia civil relativa que fico a dever, no fundo, ao 44 de Évora, que é o que admira mais.

Escrito com Bic Laranja às 21:10
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Sexta-feira, 4 de Setembro de 2015

Mas ele já não tem casa!

Bom, salvas estas.

 

image.jpg

 

Escrito com Bic Laranja às 20:16
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Notícia de inteligência...

 O meu prezado amigo Fernando C. cumprimentou-me hoje com uma pergunta enigmática: se já ouvira a expressão saved by the bell?
 Bom, já, mas, e a sua origem, sabia-a eu?
 Por acaso não.
 — Nos tempos daquelas epidemias que dizimavam numerosa gente acontecia enterrarem vivos pelo meio dos mortos. E então prendia-se-lhes uma sineta na mão que havia de tocar se o «morto» não tivesse morrido. Pois bem, isso era dantes. Agora, está aqui no jornal, os espanhóis descobriram uma maneira melhor de não enterrar vivos: matam os mortos duas vezes...

image001.jpg
Destak, 1/IX/15.

Escrito com Bic Laranja às 13:02
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Quinta-feira, 3 de Setembro de 2015

Almoço ao lume

Pescadores na praia do Barreiro (J.A.L. Bárcia, c. 1900; A.PP.C.M.L., A7314)
Pescadores na praia do Barreiro, c. 1900.
José Arthur Leitão Barcia, in archivo photographico da C.M.L.

Escrito com Bic Laranja às 12:25
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Quarta-feira, 2 de Setembro de 2015

Vista do alto

Panorâmica sobra a Rua Pachoal de Mello, Arroios (J.A.L. Bárcia, c. 1909; A.P.C.M.L., N6725)

Vista sobre a Rua de Paschoal de Mello, Arroios, c. 1908.
José Arthur Leitão Bárcia, in archivo photographico da C.M.L.

Escrito com Bic Laranja às 13:03
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