Segunda-feira, 9 de Maio de 2016

A homilia ortográfica do Diário de Notícias



  O Diário de Notícias (um diário brasileiro que se publica em Lisboa) traz parangonas hoje como há dias o foro da T.S.F., a inculcar subliminarmente no leitor um fatalismo falacioso sobre o Acordo Ortográfico.
  — Eh pá, pois é! Agora os miúdos da primária até ao ciclo preparatório já só sabem escrever assim (se souberem e, se escrever assim fosse saber escrever...)
  Todavia o pois é! e agora que já está?! é menos do que quando a asneira foi metida a ferros e logo servida a preceito pelo Diário de Notícias. Houve porventura, então, parangonas insinuantes do género?...

PORTUGUESES ALFABETIZADOS SÓ ESCREVEM PELO ACORDO ORTOGRÁFICO DE 45

  Pois parece que não.
  Para alfabetizar 9 ou 10 milhões que já só escreviam pelo Acordo Ortográfico de 45 não se levantaram dificuldades. Não obstante ainda arranjaram prestes um facilitador, o Lince. Curiosa tecnologia, que só foi pensada, concebida com diligência e graciosamente outorgada com dinheiro de impostos no propósito de lubrificar todo um povo tornado subitamente analfabeto com o novo Acordo. Calibrá-la agora para endireitar «Alunos até ao 6.º ano [que] já só escrevem pelo Acordo Ortográfico» é que chiu! nem falar.

 O Diário de Notícias infelizmente é como dizia o outro — só não muda quem é burro — e nada se pode para consertá-lo. Mas o Lince já alguém consertou de maneira a desfazer documentos em acordês vertendo-os em Português.
 Para que conste.

Escrito com Bic Laranja às 12:18
Verbete | comentar | comentários (4)
Domingo, 8 de Maio de 2016

Programa de variedades

 A cantora deixa algo a desejar, mas a banda é boa. Recria a melhor versão que conheço do tema; a dos Carpenters.

Laurel Martel & Band — This Masquerade
(Savoy Hotel, s.d.)

Escrito com Bic Laranja às 21:00
Verbete | comentar
Sábado, 7 de Maio de 2016

A idade do armário e Os Maias

Eça, Os Maias — (c) 2016


  No tempo em que as paulas eram ùnicamente paulas e as cristinas singelamente cristinas, e em que uma Paula Cristina fôra estranho caso que me apareceu, a ponto de me cultivar no neo-realismo de Namora, confesso, não tinha vontade nenhuma de ler Os Maias. Mais me parecia outro daqueles livros chatos que havia de ler para escola. Sucede porém que Os Maias tinham carácter mais necessário que o Trigo e o Joio mai-la Paula Cristina por junto e, como tudo o que é e não pode deixar de ser, vi que me não livraria da sarna que me havia de calhar. Congeminei sublimar a necessidade de ler Os Maias e o desprazer de tal obrigação como a uma mente assim atormentada pôde parecer: com subterfúgios dum viciante fascínio e viva curiosidade ganhas pela escrita antiga do Português, mas de que só cheirara vapores  em autos vicentinos, na lírica medieval do 10.º e nas maravilhosas páginas do Livro das Armadas estampadas na História do 8.º ano do Pedro Almiro Neves:

 No Anno de 1500 — Partio Pedralvz. cabral pera a Jndia ẽ 9 de Março por capitão mór de treze vellas &c.

Armada de Cabral, 1500 (in Livro das Armadas)

 

 Ocorreu-me que num alfarrabista — cuja existência descobrira com meu amigo Jaime na feira da Ladra, logo lá resgatando por uns módicos 200$00 um velho e desconjuntado Diccionario da Lingua Portugueza de Fonseca e Roquette, impresso em Pariz no anno de 1863 — num alfarrabista, portanto, talvez pudesse achar impresso na orthographia antiga que me fascinava, a obra que por imperativo escolar estava condenado a ler. Vai daí e, não sei já como — a conselho do meu imão ou sugestão do Jaime —, desaguei certa tarde na Barateira da Trindade (que a voragem do tempo levou e o deus dos livreiros haja; e à Sá da Costa, e à Portugal...) onde me vi meio perdido, meio ansioso, de nariz no ar olhando as estantes carregadas de velhos livros. Foi assim que por lá descobri um volumezinho em meia inglesa esgatanhada, maçado do uso, miolo escuro do tempo e a cheirar ao velho a que ainda agora cheira, mas ainda assim firmemente cosido, sem se haver de desconjuntar. Era só o primeiro volume. Porém, ponderado o preço — 250$00 —, cabia perfeitamente na contia que levava na algibeira. E satisfazia-me no principal: não dizia a data mas, logo de entrada, vi que o «sombrio casarão de paredes severas» que era o Ramalhete, era nas Janellas Verdes. Janellas! Não cuidei de mais e paguei-o; o segundo volume talvez se houvesse de achar, quisesse a Fortuna...

  O caso foi que, no liceu, Os Maias que eu desencantara destoavam sensacionalmente. Enquanto os meus pares carregavam (os que carregavam) a insípida edição dos Livros do Brasil, a um conto de réis o volume e ortografia vulgar, eu possuia uma curiosidade typographica com «philosophia», «bric-a-brac» e... «hespanholas»; entre o grego, o afrancesado e, bom, o resto... resolveram os colegas que a minha edição d' Os Maias parecia uma Bíblia. E assim ma baptizaram.

  Sucedeu ao depois nesses dias da bíblia queiroziana que fui catequizado: Eça, afinal, não era nada, nadinha enfadonho como a chateza neo-realista dos Esteiros (7.º ano), dos Novos Contos da Montanha (8.º) ou do Trigo e o Joio (9.º, mai-la Paula Cristina). Livrei-me dum trauma juvenil e dum preconceito ignorante (mas ninguém nasce ensinado) da literatura portuguesa. Claro que para completar a leitura tive de me contentar com um segundo volume meio desirmanado do primeiro que já havia; arrematei menos mal uma sexta edição em capas de brochura, de 1923, que mais tarde mandei encadernar numa tipografia da Fonte Nova em Benfica e que não ficou nem bonito, nem feio, nem barato... — A orthographia, porém, era a do tempo de Eça; não destoava do primeiro volume e era o que me importara desde o início.

Eça, Os Maias — (c) 2016


  Ontem, por nada, peguei nestes volumes para me pôr à coca da edição do primeiro deles. Nunca a pude identificar porque lhe falta o rosto. O que me moveu a comprá-lo foi o devaneio que já contei. Do que valoriza os livros só muito mais tarde tomei melhor noção. Sem folha de rosto (a única que lhe falta) tomei nota das «obras do mesmo auctor» no verso do anterrosto e do n.º de páginas (458) a ver no que dava. Bem que as edições das obras indicadas possam ser anteriores à 1.ª ed. d' Os Maias (1888) — a edição refundida d' O Crime do Padre Amaro é de 1876; a Reliquia é de 1887; só a 3.ª ed. d' O Primo Bazilio e a 2.ª do Mandarim é que não soube... — descartei logo ali a hipótese de possuir a 1.ª ed. pois o registo bibliográfico da Biblioteca Nacional de Lisboa dá 456 págs. ao primeiro volume dessa 1.ª edição. Sucede, em tanto, que o acervo da Biblioteca Nacional de Lisboa há um exemplar da 1.ª ed. d' Os Maias que pertenceu a Fialho de Almeida. Esse exemplar tem cópia pública na B.N. digital e a última página do primeiro volume está numerada com... Adivinhai!

Eça de Queiroz, Os «Maias: Episodios da Vida Romantica», [1.ª ed.], Porto, Chardron, 1888.
Eça de Queiroz, Os Maias: Episodios da Vida Romantica, [1.ª ed.], Porto, Chardron, 1888.

Escrito com Bic Laranja às 20:15
Verbete | comentar

O Trigo e o Joio

O Trigo e o JoioFernando Namora, O Trigo e o Joio, Lisboa, Círculo de Leitores, [1973].


 Uns camponeses numa courela muito pobre, muito pobre, com uma burra para trabalhar a courela muito pobre, muito pobre que não dá sustento e que, ou vendem a burra e se sustentam da sua venda antes de morrerem sem sustento porque ficam sem a burra para trabalhar a courela, ou, lavram a courela com a burra sem na vender e morrem de fome porque a courela é muito pobre, muito pobre, que não dá sustento.

 ...

 Foi a Paula Cristina, a minha colega de carteira no 9.º que, por via duma sugestão de leituras do professor de Português, fez questão de mo emprestar.

Escrito com Bic Laranja às 00:08
Verbete | comentar
Quarta-feira, 4 de Maio de 2016

Rossio de Lisboa à noite

Rossio em noite de temporal, Lisboa (Fot. não ident., 193...)
Rossio em noite de temporal,
Lisboa 193...

Leilão de Soares & Mendonça, in archivo photographico da C.M.L.

Escrito com Bic Laranja às 23:54
Verbete | comentar | comentários (7)

Foros da T.S.F.

Untitled.png

 Devemos rever a posição do país, uma vez que o Acordo está em vigor com consequências no ensino e na edição livreira?

 Capciosa pregunta. Viciosa modalização — «uma vez que…» — Inculca no interlocutor o receio e a hesitação pelo prejuízo de desfazer o que foi (mal e que nunca deveria ter sido) feito. Mas entremos no jogo:

 A posição do país não é de rever. É de dar a conhecer. O país nunca quis o «acordo», nunca o pediu e nunca lhe foi favorável. É do senso comum e só a censura o critério editorial da imprensa, rádios e TV, assaz subservientes ao poder «democrático», omitiu ao país o sentir geral da Nação.

 O «acordo» estar em vigor é um embrulho jurídico. Desde a não ratificação por todas as partes — do tratado original de 1990 ou do 2.º protocolo modificativo, viciado com a ratificação por três para valer para todos — ao embrulho na publicação no D.R. do aviso do M.N.E. da data de sua suposta entrada entrada em vigor, a concluir no caricato «decreto» por expediente duma resolução do conselho de ministros que, a ser válida, não imporia o «acordo» a nenhum órgão de soberania além do governo... É todo um descaso de Direito tornado torto e tortamente praticado. Coisa de amador e mau, segundo as palavras do embaixador Carlos Fernandes.

 E o ensino mai-la a edição livreira… Ora bem! Fazer, desfazer e tornar a fazer é o motor deste negócio. E é da lei do comércio. Não haverá editor livreiro que o haja muito de contrariar. É, afinal, — perdoai-me o barbarismo — «business as usual».

Escrito com Bic Laranja às 10:32
Verbete | comentar | comentários (4)
Terça-feira, 3 de Maio de 2016

A adivinhar o Verão (pub)

 No tempo em que os blogos foram moda, numa daquelas demandas de diga seis coisas que aprecie e passe a outros seis, lembro-me dizer eu apreciar noites quentes, daquelas modorrentas, de Verão. Esta tarde apanhei 36º na Portela. São agora 10h00 e baixou para os 25º; sente-se a aragem abafada... Vou ali ao frigorífico buscar uma cerveja...


Cerveja Clarlsberg (pub). Horácio de Novais, in bibliotheca d'arte da F.C.G.

Escrito com Bic Laranja às 22:06
Verbete | comentar | comentários (2)

A infernização gratuita do munícipe

 O primeiro-ministro do Rato foi na Avenida. O enxerto que ele meteu na câmara prolonga-o a preceito. Esta manhã engarrafou a cidade da Rotunda ao Lumiar porque começou a plantar árvores na Av. de Fontes Pereira de Melo. Seguem-se meses disto e há-de estender-se à 2.ª circular.

 Alguém, que não os quatro ciclistas que apreciei este ano suando os bofes a pedal Fontes Pereira de Melo acima, me diga da necessidade destas obras!

Capture.JPG
Exnxertado com Lisboa de pernas para o ar a partir de Miguel Baltazar, Jornal de Negócios.

Escrito com Bic Laranja às 10:32
Verbete | comentar | comentários (13)
Domingo, 1 de Maio de 2016

Espectáculo de variedades

Frank & Nancy Sinatra — Downtown/These Boots are Made for Walking
(1966)

Escrito com Bic Laranja às 21:35
Verbete | comentar

Setembro 2020

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
12
13
17
19
21
23
26
29
30

Visitante


Contador

Selo de garantia

pesquisar

Ligações

Adamastor (O)
Apartado 53
Arquivo Digital 7cv
Bic Cristal
Blog[o] de Cheiros
Carmo e a Trindade (O)
Chove
Cidade Surpreendente (A)
Corta-Fitas(pub)
Delito de Opinião
Dragoscópio
Eléctricos
Espectador Portuguez (O)
Estado Sentido
Eternas Saudades do Futuro
Fadocravo
Firefox contra o Acordo Ortográfico
H Gasolim Ultramarino
Ilustração Portuguesa
Lisboa
Lisboa de Antigamente
Lisboa Desaparecida
Menina Marota
Mercado de Bem-Fica
Meu Bazar de Ideias
Paixão por Lisboa
Pena e Espada(pub)
Perspectivas(pub)
Pombalinho
Porta da Loja
Porto e não só (Do)
Portugal em Postais Antigos(pub)
Retalhos de Bem-Fica
Restos de Colecção
Rio das Maçãs(pub)
Ruas de Lisboa com Alguma História
Ruinarte(pub)
Santa Nostalgia
Terra das Vacas (Na)
Tradicionalista (O)
Ultramar

arquivo

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

____