José Hermano Saraiva, O autocarro roubado
(Horizontes da Memória, R.T.P., 27/4/1997)
Se está bom, não mexe! — era uma máxima que se aprendia dantes na tropa, a modos de variante militar do dito civil — Está bom! Se estiver melhor não presta.
Isto era noutro tempo.
Ante a notícia há semanas do capitão do exército que se queria motorista dum secretário de Estado (Alexandre Malhado, «Secretário de Estado tenta contratar capitão amigo para motorista», in Sábado, 23/III/19) e, nestes dias, a do pára-quedista de Tancos (de Tancos!…) que foi achado morto [alegadamente] pelo... namorado do amante... (T. Laranjo e F. Gomes, «Ricardo foi vítima de um triângulo amoroso e morto por ciúmes», in Correio da Manhã, 25/IV/19), cuido que a velha máxima da tropa portuguesa é hoje mais ao jeito açucarado do que vai escarrapachado aí acima em título.
Nada disto deve admirar. Desde o dia do grande acidente nacional, há 45 anos, em que se viu a tropa portuguesa a enfeitar os canos das espingardas com florzinhas, desistindo de lutar, que, chegarmos a isto seria mera questão de tempo.
Tropa florida, Portugal, 1974.
A. n/id., in Backyard Tours (=Turismo pelas Traseiras).
Não consigo saber quando vi pela primeira vez livros aos quadradinhos. Lá em casa havia alguns destes.
Interessei-me genuinamente pelo seu conteúdo por altura da 2.ª ou da 3.ª classe (antes disso acho que pensava que serviam para arrancar folhas e testar canetas Bic). Mas só pelos bonecos, as letras ainda davam muito trabalho. Porém, chegado à 4.ª classe lá lia toda a conversa com sotaque inscrita nos balõezinhos.
Mas o pior estava para vir.
O meu irmão, que enveredara pela idade do armário, namorava uma moça que decidiu fazer de mim um juvenil. No Natal de 76 recebi deles uma prenda decepcionante:
— Um… livro?! — balbuciei.
— É dos Cinco — disse ela. E sorrindo perguntou — conheces?
— Não.
— É para leres, ouviste! — disse o autoritário do meu irmão.
Fiquei aflito. Abri o livro e em quase 100 folhas voando debaixo do meu polegar não vi senão meia dúzia de ilustrações. Era palavreado a mais. Com tão poucos bonecos eu não ia conseguir perceber a história sem ler. Como sabia que eles me perguntariam algo sobre o livro, não tinha remédio senão ler aquilo.
— Leio um bocadinho por dia — pensei — se me perguntarem, não há muito a dizer.
No dia de Natal li o primeiro capítulo (e aprendi que o livro se dividia em capítulos).
— Então, gostas do livro?
— É… Já li um capítulo.
Durante quatro dias a cena foi a mesma. Eu aflito e eles percebendo…
No dia a seguir, que era quarta-feira, os Cinco salvaram o tio e… eu. Fora uma fabulosa aventura por passagens secretas no castelo da ilha Kirrin. Os espiões foram presos e o tio Alberto fez grandes descobertas científicas. E eu tinha acabado o livro!
Enid Blyton, Os cinco salvaram o tio, Lisboa, Emp. Nac. de Publicidade, 1974.
Quando o meu irmão chegou do namoro perguntei-lhe se a namorada tinha muitos livros dos Cinco.
— Eu peço-lhe para ela te emprestar os dela — e sorriu. Em 1978 deu Os Cinco na televisão.
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______
[A recordação — em 8/8/2005, às 10h29 da noite — foi inspirada por isto. — É tornada a recordar hoje, pelo paganismo dos santos dos dias.]
Ontem celebrou-se o dia mundial do livro e do direito de autor… Dantes era o dia de S. Jorge. Agora andamos nisto. Enfim!… Amanhã havia de ser o dia de S. Marcos evangelista. Deu no que sabeis.
Do dia de ontem fizeram os blogos do Sapo evangelho, de acordo com o figurino pagão desta (des)civilização. Amanhã, dia de S. Marcos fá-lo-ão de novo…
Seja.
O meu primeiro livro, «a sério», como dizem os sapudos promotores de blogos e de dias pagãos — possìvelmente para descartarem os Zés Cariocas ou os Almanaques Disneys que circulavam de mão em mão. — Recordo a «História de Portugal» da Agência portuguesa de Revistas (13.ª ed., Lisboa &c., 1968). Ainda a tenho. Era do meu irmão. Folheava-a e deliciava-me com os bonecos. De tanto folhear e querer descobrir além do que via nas formidáveis ilustrações de Carlos Alberto, comecei a ler as legendas dos cromos. Aprendi muito.


História de Portugal, 15.ª ed., Agência Portuguesa de Revistas, Lisboa, &c., 1968.
In Enciclopédia de Cromos…
Uma colecção de cromos não é um livro «a sério», poder-me-íeis dizer. Supondes que se aprenda mais nos livros «sérios» de História para os [meninos] dos 6 aos 10 editados hoje?…
Amanhã, dia de S. Marcos, diz que é feriado em todo o país por uma razão parva qualquer. Pode ser, mas só na metrópole e ilhas adjacentes. No Ultramar não.
(Revisto no dia de S. Marcos do ano 19, às 11h00 da manhã.)
José Hermano Saraiva, Glórias e Ruínas
(Horizontes da Memória, R.T.P., 20/4/1997)

Lisboa – © 2019

Terrenos da Av. Almirante Reis, Lisboa, ante 1909.
Fototipia animada do original de Alberto Carlos Lima in Arquivo Fotográfico da C.M.L.
Durante os primeiros 40 anos da sua existência a Av. Almirante Reis terminou em Arroios …

Autocarro de João Candido Belo & C.ª Lda., Setúbal, 1972.
Jean-Henri Manara, in Portugal (Flickr).
José Hermano Saraiva, A Raiz e a Flor
(Horizontes da Memória, R.T.P., 13/4/1997)
![Calçada de S. João da Praça [i.é, Rua da Adiça; i.é, Rua de Norberto de Araújo], Lisboa (Machado & Souza, 1898-1980) Calçada de S. João da Praça [i.é, Rua da Adiça; i.é, Rua de Norberto de Araújo], Lisboa (Machado & Souza, 1898-1980)](https://live.staticflickr.com/7909/47600655031_271ef55bc0_b.jpg)
Calçada de S. João da Praça [i.é, Rua da Adiça; i.é, Rua de Norberto de Araújo], 63, Lisboa, 1898-1908.
Original em p/b de Machado & Souza, in archivo photographico da C.M.L.
![Panoramica da Graça sôbre o Castello, Lisboa, [18...] Photographia de auctor não identificado, in archivo photographico da C.M.L. Panoramica da Graça sôbre o Castello, Lisboa, [18...] Photographia de auctor não identificado, in archivo photographico da C.M.L.](https://live.staticflickr.com/7858/32657815847_aa0eb48117_b.jpg)
Panoramica da Graça sôbre o Castello, Lisboa, [18...]
Phototypia animada do original de auctor não identificado, in archivo photographico da C.M.L.
Assaz verosímil, não…?
Ao fim deste tempo todo houve quem nunca desistisse de levar a carta a Garcia. A I.L.C. contra o Acordo Ortográfico foi entregue na Assembleia nacional.
Pedindo desculpa pelo pouco que fiz, agradeço-o, penhorado, esperançoso no melhor desfecho.

Entrega «da carta a Garcia», Assembleia nacional, 2019.
Fotografia dos promotores da I.L.C. contra o Acordo Ortográfico de 1990.

Areeiro, Lisboa – © 2019
(*) Edição da Abril/Controljornal [cop. 2000], trad. de Fernanda César. Não sei se a mais recomendada…
O livrinho parece que anda alçado no plano nacional de leitura, esse por onde andam e desandam o Eça ou Camillo em cada ano lectivo.
Na mão da passageira utente do autocarro, e julgando do amarelo das páginas ou das manchas na frente e na cabeça do livro, é natural que tenha passado bons anos emprateleirado.
Enfim! Tanta conversa porque os tempos são de muita leitura, agora, mas numas maquinetas irritantes que evoluíram do velho telefone. Muita «leitura», não leitura…
José Hermano Saraiva, Mais Vale Tarde que Nunca
(Horizontes da Memória, R.T.P., 6/4/1997)
![Av. do Duque de Ávila [fototipia animada], Arco do Cego (J. H. Goulart, 1964) Av. do Duque de Ávila [fototipia animada], Arco do Cego (J. H. Goulart, 1964)](https://live.staticflickr.com/7844/46642884355_fd88b06b4e_b.jpg)
Av. do Duque de Ávila em fototipia (quási) animada, Arco do Cego, 1964.
João Goulart, in archivo photographico da C.M.L.
Falha o verde-água da capota do táxi, o amarelo do eléctrico, o vermelho do marco do correio, o ocre pálido do palacete da Escola Lusitânia mais o azul do seu gradeamento e portões, que parece ter desbotado para o fato do cavalheiro que atravessa a rua.
Um algoritmo com muita inteligência artificial para melhorar.
Duvido que esta dita «inteligência» alguma vez passe da adivinhação, mas — como testes de laboratório ou qualquer economista nas TV comprova — a adivinhação já tem foro de sciência.
Fora disto, lá que é divertido, é.
O benévolo leitor B.H. descobriu esta carta de região de Lisboa numa biblioteca do Texas.
As circulares.
É esboço anterior ao plano De Groer. As circulares estão só esboçadas geogràficamente, pouco acertadas com o terreno e com inflexões em ângulo.
A 1.ª (a exterior) está lá definida. Havia de dar no Calhariz de Benfica, onde veio a desembocar antes a 2.ª. Porém nunca se fez aquela além do troço correspondente a Av. Dr. Alfredo Bensaúde.
A 2.ª está aproximada, de Cabo Ruivo às Telheiras, porém previa-se que passaria a Sul do Relógio e inflectiria para pouco além da Cruz da Pedra, ao encontro da circular de Monsanto (dita hoje radial de Benfica). — Esta circular de Monsanto nem tinha prevista a ligação da Boavista a Algés, pelo que a 1.ª circular nem completa aqui se apresenta.
A 3.ª circular apontava ao mesmo ponto da 2.ª na circular de Monsanto, por N de Sete Rios, cruzando a Palma de cima (Hosp. de St.ª Maria) e o Alto dos Moinhos. O prolongamento da Av. de Berna, direitinha ao vale de Campolide, é mero plano de gabinete sobre a carta. — Aliás, é o que deduzo para a carta toda, na parte a construir: um plano pouco consolidado.
A 4.ª circular cruza o Areeiro pelo N, partindo da 3.ª (a Av. Afonso III aqui nem contava).
A Av. de Roma nem aparece (ou aparece muito desviada a Nascente quase a par da Av. do Aeroporto) quando em 1948 já se construía o B.º de Alvalade...
Mas, enfim, não deixa de ser interessante o incipiente do plano das circulares, que deve ser da lavra do nosso exército por 1935-42, a deduzir da legenda. Os amaricanos não foram muito além no reconhecimento aéreo nem pelos relatórios de espionagem.
Obrigado!
Gunhilda Carlinga, Never Gonna Give You Up (Rick Astley) à moda dos anos 1920.
(Jukebox pós-moderna)
Comemoração do voo inaugural Amesterdão/Faro, posta-restante de Faro, a 20 dias do grande acidente nacional.
Adamastor (O)
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