Terça-feira, 19 de Maio de 2020

De pregar

 Os vocábulos pregar e pregar são homógrafos. Sucintamente pregar pode ser uma de duas: pregar pregos ou pregar noutra freguesia. Graficamente não se distinguem, mas deviam; são coisas distintas e soam diferentes; na oralidade, por conseguinte, não se confundem… excepto – lembra-me agora – no caso do raspanete. Oiço pregar raspanetes mas pode bem melhor ser pregar raspanetes, como quem prega sermões...

 Pregar vem do latim plicare (= dobrar, enrolar, enroscar); não sei quando se deu o rotacismo passando o «l» a «r»; o «i» breve do latim clássico cuido que já era «e» no latim vulgar e o «c» também há-de ter abrandado em «g» no latim vulgar, mas não curei de o confirmar.
 Ignoro quando foi que o substantivo «prego» tomou o sentido de «cravo» (do lat. clavus, haste pontiaguda de metal com cabeça); no séc. XV aparece «prego» atestado com esse valor na Contemplação de São Bernardo (& deitaromno sobre a cruz & pregarom lhe a mãao direita com hũu prego muy forte) e o mais que sei é que em falando de «espetar pregos» Tito Lívio diria clauos pangere.

Prègar

 Pregar, porém, tem as seguintes etimologias: preegar <  b. lat. predegar < predigar < lat. praedicare (= dizer publicamente, proclamar, exaltar, celebrar); o ditongo ae do latim clássico deu simplesmente «e» no latim vulgar e veio a fundir-se com a vogal seguinte pela síncope do «d». A síncope do «d», cuido, sucedeu na fase do romanço anterior à formação do nosso idioma do mesmo modo que videre > veer > ver (*) ou  ex-cadescere > escaecer > esqueecer > esquècer. — A propósito de «esquecer» é interessante aprender o que nos ensina o Dr. José Leite de Vasconcellos nas Lições de Philologia Portuguesa (p. 149):

« Excadescere, verbo inchoativo, deriva de cadere «cahir», porque esquècer é como que cahirem da memória as ideias pouco a pouco; o prefixo ex- denota procedencia. O vb. excadescere tinha pois, no latim vulgar da Lusitania acepção metaphorica muito material. Este verbo parece que não se encontra noutras lingoas romanicas. A passagem da ideia de «cahir» para a de «esquècer» é um caso de Sesmasiologia ou Semantica.»

 Nos três casos apontados e em inúmeros outros (cf. Lições de Philologia, pp. 146 e ss.) de crase de vogais houve como consequência o reforço do timbre da vogal resultante. Esta é a razão de pregar manter há séculos o «e» aberto. O fenómeno da crase de vogais sobrevive no português e é bê-á-bá de filólogos. E é ele tanto mais notório ao comum indígena (de Portugal) quanto contrasta com a metafonia do português, esse fenómeno do nosso idioma que de padre faz padrinho, elevando a primeira sílaba de pá- a pâ- só do avanço da tónica. Dele, como entendereis, se tira a falsidade e má fé pregadas (pregadas ou pregadas?...) na nota explicativa do acordo ortográfico pelos seus autores. Eles não podiam ignorar que a supressão de consoantes etimológicas com valor diacrítico nos casos de acção, adoptar, objectivo &c. se não pode justificar com exemplos resultantes de crase em vogais átonas. — Como aduzem então como justificação corar (< coorare < colorare), padeiro (< paadeiro < pãadeiro < panadeiro < lat. panatariu) e pregar?!... (**) — Naqueles casos de acção, adoptar, objectivo &c. foi justamente de não haver nem crase nem nada que valesse às vogais átonas que logo na reforma de 1911 foi entendida a necessidade das consoantes etimológicas para marcar o timbre aberto da vogal átona precedente. Com vantagem de não desfigurar excessivamente o português em relação às demais línguas românicas. Pois os autores do «Acordo» de 90 desdizem esses ensinamentos e socorrem-se cavilosamente de exemplos doutra estirpe para virarem o bico ao prego às lições de sábios bem maiores do que eles.
 Se dúvida houvera, mais prova dessa má fé se lhes podia achar no arremesso dos exemplos franceses objet e projet contra as atendíveis razões de similaridade do português escrito com os outros idiomas românicos. Daqueles objet e projet apresentados por não conservaram o «c» latino no seu devir morfológico, a realidade que escamoteiam é que as formas derivadas objectif, projection &c o exibem garbosamente. O mesmo no cotejo com o castelhano, cuja Real Academia Española legitima objecto na 22.ª ed. do Diccionario de la Lengua Española; apesar de o tachar de arcaico face ao moderno objeto a verdade é que o não suprimiu. Tudo isto os embusteiros autores do dito acordo ortográfico omitiram conscientemente porque lhes não servia o óbvio propósito de submeter o português de 7 países, estável de mais de 60 anos, ao particular capricho brasileiro (cf. «Conservação ou supressão das consoantes...», Nota Explicativa ao Acordo Ortográfico de 1990).

 Tornando a pregar, apesar de a crase estar viva no idioma em casos que decorrem directamente do latim, como pregar e pregador (< lat. praedicator = proclamador público, arauto, elogiador, evangelizador), o certo é que os derivados castiços pregão, pregoeiro ou apregoar se não estribam o suficiente para lhes soar aberto o «e». Já na 1.ª ed. do Aulete (1881) a pronúncia indicada não dava o «e» aberto, o que é sintomático do forte pendor de emudecimento de vogais átonas no português. Tanto assim que já no manuscrito medieval da Coronica do Condestabre de Purtugall comprovamos a pronúncia de «o» átono por «u». É certo que mais cedo do que tarde, sem as consoantes etimológicas, palavras como actor, director e adopção hão-de soar como âtor, dirtor e adução. Esta última, escrita no Brasil sem o devido «p» há mais de meio século, soa muito por lá como à-dô-ção. Sem «o» verdadeiramente aberto, portanto.


(*) Em veedor / veador > vedor a crase é mais notória e deu-se já no português antigo, não no romanço.
(**) Nem o último exemplo que aduzem, oblação, lhes serve ao descaso. Oblação e todas palavras começadas por «o» seguidas de consoante são pronunciadas com ó aberto ou, se tanto, soam com ô. Os da reforma de 1911 não no deviam ignorar, tanto que obliteraram as consoantes duplas nas grafias de occidente, official, opposição &c. sem o pejo que puseram em casos como adopção ou nocturno. De toda a maneira sucede-me ouvir a transmontanos pronunciar como «u» o «o» inicial destes casos. -- Se porém queriam exemplificar que era o a de oblação que era aberto, ledo engano; é tão fechado como o primeiro a de relação. Consulte-se o Priberam.

(Publicado originalmente em em 19/I/13 às 10h00 da noute mas, há sempre gente nova a chegar.)

Escrito com Bic Laranja às 20:00
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Da invasão dos franceses…

José Acursio das Neves, «Historia geral da invasão dos franceses em Portugal e da restauração deste reino», 1810

«Lastimoso período da nossa História, que o homem sensível não pode discorrer sem lágrimas! É reservado às almas ferozes o verem com indiferença aproximar-se o momento de ser derribada às mãos da perfídia uma monarquia de 7 séculos, abatido um trono em que se sentaram tantos príncipes respeitáveis, perseguida e expulsa uma Real Família adorada de seus povos, destruídas as leis, os usos e a própria religião do Estado (p. 185).»


 O vol. 1 da edição da Afrontamento inclui os dois primeiros tomos da «História Geral da Invasão dos Franceses &c.» e versa a invasão, remontando os acontecimentos à ascensão de Napoleão, à campanha do Rossilhão e traição da Espanha, à Guerra das Laranjas, à diplomacia afincada do Príncipe regente D. João para apaziguar as tenções de Napoleão, até à preparação e fuga da corte portuguesa para o Brasil. Com mais miudeza dá conta da invasão, ocupação e saque dos franceses em Portugal e revoltas de Espanha, até Maio de 1808. Os dois primeiros tomos foram publicados em 1810, muito à data do que contam; de actualidade jornalística, poderia dizer-se. O estilo é claro e simples, em português genuíno, sintacticamente actual (a semântica há naturalmente de ser lida em contexto, como texto histórico que é) e nada eivado de galicismos nem (coisa muito hodierna) anglicismos. A ortografia é, naturalmente, a de 1945, com revisão cuidada, salvo, que me lembre, do topónimo Pirenéus, grafado Pirinéus.

 Li-o há décadas para um trabalhinho escolar e, talvez dele, não tirei o devido gozo da leitura.

 O benévolo leitor interessado em História bem contada que leia este volume da edição da Afrontamento pode passar as c. 130 páginas de estudo introdutório; mais não são que prolixidade académica, com «proposta de leitura», tiradas cheias de estilo como «interiorização da exterioridade» e «exteriorização da interioridade» e, uma ainda melhor: de que Acúrsio das Neves é «um doutrinador da sua época historicamente atrasado». Ser «da sua época» e «historicamente atrasado» em simultâneo é um achado só visto em doutrinadores de estudos introdutórios da sua própria época, mas historicamente adiantados, já o leitor vê!…

Escrito com Bic Laranja às 13:58
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