Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2024

Recreação pola moda e polo estilo com a artificial coisa da primeiro dita

Mary Quant, mini-saia, anos 60, estilo fotografia de estúdio:

Mary Quant mini skirt 1960s studio photo
Mary Quant mini skirt 1960s studio photo

Mary Quant, mini-saia, anos 60, estilo fotografia de rua:

 

Mary Quant mini skirt 1960s street photoMary Quant mini skirt 1960s street photo
Mary Quant mini skirt 1960s street photoMary Quant mini skirt 1960s street photo

[Audrey] Hepburn ao estilo de Alphonse Mucha:

Hepburn Mucha styleHepburn Mucha style

Hepburn Mucha style Hepburn Mucha style

Marilyn a óleo ao estilo de Rembrandt (esta, por fim, convence-me; ao depois piorou…)

Marilyn oil rembrandt style

Escrito com Bic Laranja às 20:25
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Do artifício artificial (o do simples fício sem arte)

 Dantes, quando havia alguém sempre de cigarro no dedo, dizia-se que fulano era uma chaminé ambulante. À semelhança, hoje há gente sempre, sempre de telefone na mão. Só não há quem lhe chame cabines telefónicas ambulantes.

Telephone boot[h] lisbon in BW photo (Algoritmo de imagens do Bing, 2024)


 Por falar em cabines telefónicas: dantes também as de Lisboa eram semelhantes às de Londres. Pedi por conseguinte à «inteligência artificial» (inteligência?!…) que me produzisse uma imagem a preto e branco duma cabina telefónica em Lisboa. Pedi-lhe em mau inglês. O que saiu foi isto: uma real cabine telephonica britânica, a cores, numa espécie de Lisboa com certo ar de si pelo empedrado da calçada, pela roupa estendida e sobretudo pela parede lambuzada de grafitti. O lúgubre da imagem em geral, não sei se é estereótipo inglês, se da tal dita «inteligência». Calhando, são ambas o mesmo…

Escrito com Bic Laranja às 14:34
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Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2024

No tempo da Sacor

«Sacor», Cabo Ruivo, [s.d.]. Mário Novais, in bibliotheca d' Arte da F.C.G.


Sacor, Cabo Ruivo, [s.d.].
Mário Novais, in bibliotheca d' Arte da F.C.G.

 

«Abastecimetno de um SE-210 Caravelle VI-R (i.é, Caravela) da T.A.P.», Aeroporto da Portela, [1962-75]. Mário Novais, in biblioteca d' Arte da F.C.G.
Abastecimetno de um Caravela da T.A.P., Aeroporto da Portela, [1962-75].
Mário Novais, in biblioteca d' Arte da F.C.G.

Escrito com Bic Laranja às 17:00
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Domingo, 18 de Fevereiro de 2024

No tempo da Rodésia

Boeing 707 CS-TBA «Santa Cruz», da T.A.P., Salisbúria, [s.d.]
B707 CS-TBA «Santa Cruz», da T.A.P., Salisbúria, [post 1965].
A. n/ id., in Museu da T.A.P. (?)

Escrito com Bic Laranja às 17:51
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Domingo, 11 de Fevereiro de 2024

1001 noutes

 Tradução portuguesa a partir do francês, com arrimos de fórmulas e léxico antigo, o que dá tom de época ao texto.
 Edição cuidada, mas o aportuguesamento dos nomes é conforme — em geral não… Num caso coexiste Mamude e Mahmud na mesma história.
 A páginas tantas (666 e ss.) insinua-se a maricagem por novidade em voga — vício do fundo dos tempos e das civilizações a aflorar de maneira muito estranhamente actual — Modas!…
 Ou será do tradutor?!…
 As Mil e Uma Noites têm tiradas picarescas de certa graça. Aprecie-se, no caso, em que estilo…

«Odalisca» (marcador) Delacroix, 1857.

  (Marido à mulher, tida por estéril:)

« Juro que doravante prefiro cortar o meu zebb a meter-to na coisa! Vejo claramente visto que fazer coisas contigo é tempo perdido; tanto se me dá meter o instrumento num buraco de um penedo como tentar fecundar terra maninha como a tua: o resultado é o mesmo! Sim, por Alá! Tenho sido um perdulário e tenho passado a vida a desperdiçar fodas num abismo sem fundo!»

(Resposta:)

« Ah, velho frígido! […] Julgas então que, de nós dois sou a defeituosa? Não julgues tal, avô! Atribui as culpas aos teus tomates frios! Sim, por Alá! Os teus tomates é que arrefeceram e segregam um líquido sem qualquer virtude! Vai comprar qualquer coisa que engrosse essa água! E verás depois se o meu fruto possui boa semente ou se é maninho! […] Vai à drogaria e lá encontrarás a mistela que engrossa os tomates do homem.»

(A mistela:)

« Tomou duas onças de xarope de cúbeda-da-china, mais uma onça de extracto de cânhamo-da-jónia, mais uma de cariofília fresca, mais uma de cinamomo-vermelho de Serendib, dez dracmas de cardamomo-branco do Malabar, cinco de gengibre-da-índia, cinco de pimenta-branca, cinco de pimento, mais uma onça de bagas de bauínia-da-china e meia onça de tomilho-bravo. Misturou tudo com muita habilidade, depois de pisado e peneirado, e misturou-lhe mel puro, para ligar bem a massa, acrescentando por fim cinco grãos de almíscar e uma onça de ovas de peixe piladas. Não deixou de adicionar também xarope de água de rosas, posto o que deitou tudo na malga de porcelana. […] Aqui tens a mistura soberana, que endurece os tomates do homem e dá espessura ao suco fluido de mais […] Tens de comer estas papas duas horas antes de cada arremetida.»

 Em geral as histórias são mais estéreis do que o que se pode ler acima.
 Fui lendo e repondo na estante, por anos.


As Mil e Uma Noites: Noites 1 à 270 / J.-C. Mardus (ed.), Manuel João Gomes (trad.). — [Lisboa] : Círculo de Leitores, 2007. — 750 p.; 24cm. — A Mil e Uma Noites, v. 1 (marcador incluído no vol.).

Escrito com Bic Laranja às 13:21
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Sábado, 10 de Fevereiro de 2024

Berec

Pilha Berec (e-Bay, s.d.)

 Nos da minha geração há — houve — um hiato de 20 para 30 anos nas memórias. Memórias de coisas de nada que me mostravam o ir e vir do mundo, me povoaram a ideia em menino e que, enfim, se foram. Desapareceram. Com isso a memória arrumou-mas num qualquer canto recuado da mente até me nunca mais haver de lembrar.

 Foi comigo o caso com as pastilhas Pirata, que me apareceram certa vez inesperadamente no Mistério Juvenil, .Com (já deve haver uma abreviatura para o .Com antecedido de vírgula e tudo, como S.A.R.L. e C.ª, Lda., não?!…) Uma sensação de saudade veio-me de revê-las que não sei bem dizer. Por redescobrir aquelas imagens de algo já completamente esquecido. Não me aparecendo nunca mais, nunca mais me haveria de lembrar delas: as pastilhas Pirata.

 Outras memórias de infância me não estariam tão esquecidas: o Chapi-Chapô, o Professor Baltasar e o quê, mais?… Mas quando vagabundeei a rebuscá-las e as achei tive à mesma a sensação de cobrar saudades. Muitos da minha geração que foram apanhados pela rede da Internete há uns 20-25 anos hão-me de entender. Tiveram decerto sensação semelhante, a julgar do que li ou e fui vendo.

 Ao depois que estas coisas retornaram, com o espalhar da rede, a memória esbatida dum passado esquecido tornou-se de novo presente. Foram salvas do esquecimento completo, pelo menos na memória de quem sente saudade. São agradáveis recordações que me alegram recuperar.

 Lembro-me de ter pensado então que, nas malhas desta rede, a minha geração e uma ou outra para trás, também nela apanhada, logravam recuperar brandas memórias perdidas com um saborzinho e saudade que doutra forma difìcilmente ou nunca mais recuperariam. Era uma coisa só delas, dessas gerações mais antigas, porquanto aos novos lhe não havia ainda passado tempo de as perderem. Os mais novinhos, cresceriam já de tal maneira emaranhados nas malhas da rede que seria impossível que lhe alguma vez levassem sumiço suas tenras memórias. Logo, nem lhe a saudade, cuido, poderia alguma vez dar.

 Talvez seja assim ou talvez não.

 Não sei que pense das gerações mais novas. Cuido sòmente que a influência abismal dos meios de comunicação (da rede, i.é) e a sua imersão neles (nela, pois…) como nunca houve nada antes, lhe venha a moldar a mente muito a contrário de sequer formar memórias além das desta manhã. Nem cuido que venham estes últimos a sentir saudade senão do que ainda está para acontecer. — Como o fim do planeta! — Eles que esperem.

 

(Revisto ao depois do almoço porque antes, já estava na mesa…)

Escrito com Bic Laranja às 12:41
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Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2024

O princípio do terceiro excluído e o comum de dois

A Bem da Língua Portuguesa; Boletim mensal da Sociedade da Língua Portuguesa, 1949-1955.,

« Ocorrem-me agora os vocábulos: moralespada.
   Não raro é ouvir-se isto: «Fulano tem sido tão infeliz que já perdeu toda a moral».
   Ora este substantivo empregado assim quer dizer que Fulano, em consequência das suas infelicidades, já não tem coragem para reagir nem ânimo para combater e deve empregar-se no masculino. Assim: «Fulano… perdeu de todo o moral».
   Se, porém, quisermos referir-nos à ciência dos costumes, à ética dum povo, etc., então não se dirá o, mas a moral.
   Digamos pois: «Respeitemos e acatemos os deveres da moral, mas levantemos o nosso moral perante as contrariedades da vida e os golpes da adversidade e do destino; não pratiquemos actos ofensivos da moral, mas conservemos bem o moral, perante a luta com os nossos adversários e até perante a doença».
 
Acerca de espada, toda a gente sabe o que é uma espada: arma feita com uma lâmina de aço que se mete numa bainha, e que usam os nossos oficiais do exército e os soldados de cavalaria. Mas há aí agora uns automóveis que, talvez por mais ou menos compridos, como as espadas, o nosso povo chama espadas e eu já ouvi a um motorista dizer que gostava de dirigir uma espada assim, quando, tratando-se de automóvel, se deve dizer um espada.
   Portanto, «Fulano, que é muito rico, tem um rico e belo espada, mas, como oficial que é do exército, usa uma linda e rica espada, quando vai fardado. Não haja confusões.
   Como estes dois vocábulos: moral e espada, há muitos outros, mas estes parece-me que são os que têm suscitado maiores dúvidas.
»

Prof. Faria Artur, «Salada francesa», in A Bem da Língua Portuguesa; Boletim mensal da Sociedade de Língua Portuguesa, Ano VI, n.º 7, Julho de 1955, pp. 310-311.

 

 Em português e pela gramática não vamos lá… O português admite dois géneros, a saber, masculino e feminino. Tertium non datur. Outros idiomas há que admitem um neutro para objectos e seres inanimados; coisas e animais — não sei se não será o caso… — A falar português, porém, não se consegue e, por mais que se insista em mutilar a escrita, é a falar que se a gente entende. E desentende. Ou também subentende… Fora disto, passamos a grunhir. Mas isso, que cuido vir a tornar-se até bastante possível, não será já português.

 Pela moral também lá não vamos, mas… Haja todavia alguma esperança e que se com ela ao menos algum moral alevante ante as contrariedades da vida, os golpes da adversidade e do destino, como isso que há agora de poder nascer-se peixe em carcaça de gente. Gente, se vamos bem a ver, sempre é comum de dois [ou mais] — inclusivo, portanto. E certo, certo é que um peixe pode muito bem por conseguinte ser uma pescada; se a culinária for a que julgo ser do preceito, dá até para pescadinhas de rabo na boca.

 Só por fim um espada é que, não havendo de ser peixe — lepidopídeo que por sinal tem variedade de preto, por distinto —, pois bem, fora isso, um espada só dá isto.

Edsel (publicidade), [publicação n/ id.], 1958. Col. da Portimagem, in Flickr.
Edsel (publicidade), [publicação n/ id.], 1958.
Col. da Portimagem, in Flickr.

Escrito com Bic Laranja às 15:14
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Quarta-feira, 7 de Fevereiro de 2024

Esta Lisboa…

Praça do Comércio (i.é, Terreiro do Paço), Lisboa. (D.R. in «Time Out», 6/II/2024)


 Não há muito nesta Lisboa hoje que me agrade. Antes pelo contrário; tudo o que vejo me desagrada e desgosta. Menos mal o Terreiro do Paço aqui, com chuva, cuja imagem quase (quase) mostra uma praça de bom gosto neo-clássico com apontamentos da Belle Epoque (os eléctricos antigos e o lampião de pé no meio do terreiro). Mas ao depois olho, vejo bem e, aquele palito de iluminação pública do lado esquerdo revela todo o mau gosto que anda por aqui e que, por mais desapercebido que esteja, desgraça tudo. Sinal do tempo e não falo da chuva; os imbecis ignorantes que tomam tudo o que é legado desfeiam-no miseràvelmente com o seu mau gosto devastador, sem noção dele nem da porcaria que só sabem fazer. São piores que o mono do lixo que se ali também vê, obra-prima emanada de cabeças a condizer, como não pode deixar de ser.
  A fotografia é dum D.R., in Time Out  — mais um desses títulos da imprensa portuguesa que é de gritos… Gritos ensurdecedores da pinderiquice em que chafurda o educado gosto do chic pós-português contemporâneo —  numa notícia de lá vir chuva e frio no Inverno. É só disto, enfim!…

Escrito com Bic Laranja às 14:28
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Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2024

Prenúncio…

 No meio do buliço da cidade ouço o treze, o cauteleiro. De repente, um vivo chilreio quase arreliado sobre aquele ruído todo. Como naquela de cai leve, levemente, porque gente não era certamente, fui ver que passarada era…

Andorinhas, Pedras d' El-Rei. N.º 7 175, 2.ª série — © 2015
Andorinhas, Pedras d' El-Rei. N.º 7 175, 2.ª série — © 2015

Escrito com Bic Laranja às 10:26
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Domingo, 4 de Fevereiro de 2024

Carlos Reis, Carlos, Rei…

João Reis, «A gata». Óleo s/ tela, 1908, in Pedro Carlos Reis, Carlos Reis, A.C.D. Editores, [s.l.], [2006], p. 128.
João Reis, A gata.
Óleo s/ tela, 1908.

 

 Tenho, com o tempo, desmoralizado de Portugal — de Portugal e de tudo, até. — Esta desmoralização tem-me esmorecido a vontade de dizer já o que seja das coisas portuguesas, de que algumas me sempre ia lembrando quando me empolgava nos escritos aqui e, quando as datas calhavam de feição a dizer algo. Era muito caso de chover no molhado, dizer o que já todos sabiam, mas havia ainda assim esperança de que sempre havia gente nova a chegar. Não creio mais que haja… Sobra o desfastio, às vezes…
 O regicídio fez cento e nem sei quantos anos no dia 1. — Estou já, vejo, como o outro tonto do «é fazer as contas», tanto assim que me nem a conta sai já!… — Bem! Cento e dezasseis anos.
 É como digo, passei há dias por ele, pela data, sem recordá-lo como fazia em tempo. Sucedeu-me porém, que peguei ontem no livro de Carlos Reis, como às vezes pego para reler e me regalar das Belas Artes do mestre pintor, da elegância e nobreza do homem. Do que Portugal tem (teve) de muito bom, enfim! — É que a memória esbate-se a cada dia, enquanto o mundo se me vai desfazendo em redor… Por vezes convém contrariar a desmoralização que nos cerca, mais que não seja, para não morrer ainda, já… Vai daí, volto a estas coisas que me acarinham um pouco o ânimo, a parecer que redimem de toda a desmoralização.
 Pois bem…

 Carlos Reis, que sempre gostou muito de gatos, recebe do seu filho o retrato a óleo da sua gata preferida, que embevecido, leva para o seu «atelier» e acaba por mostrá-lo ao Rei D. Carlos, que também gostava de gatos, e que, a partir daí, o cobiça… tinha João Reis sete para oito anos.
 Em 1908, no dia 1 de Fevereiro, o Rei D. Carlos, que vinha do Alentejo, tinha feito saber a Carlos Reis, que antes de ir para o Palácio Real, passaria pelo seu «atelier» e que gostaria que o filho de Carlos Reis, pintor da «tal gata», estivesse presente.
 Assim, Carlos e João Reis foram para o «atelier», no Convento de S. Vicente, onde ficaram à espera de El-Rei.
 No final da tarde, convictos de que o Rei já não viria, sairam para a rua e souberam da notícia do regicídio.
 Carlos Reis perde um grande Amigo, Portugal um grande Rei e um grande artista.
 Intensifica-se a acção da Maçonaria e da Carbonária.

Pedro Carlos Reis, Carlos Reis, A.C.D. Editores, [s.l.], [2006], p. 128.


Carlos Reis, «Retrato do Rei D. Carlos I», 1908. Óleo s/ tela (?), 100 x 130 cm. Col. da Fundação da Casa de Bragança, in Pedro Carlos Reis, Carlos Reis, A.C.D. Editores, [s.l.], [2006], p. 129.
Carlos Reis, Retrato do Rei D. Carlos I, 1908.
Óleo s/ tela (?), 100 x 130 cm.
Col. da Fundação da Casa de Bragança, Vila Viçosa, in Pedro Carlos Reis, op. cit., p. 129.

 

 Cento e  dezasseis anos, pois!… E cada vez mais carbonàriamente vamos…

Escrito com Bic Laranja às 16:18
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Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2024

Questões de semântica

A Bem da Língua Portuguesa; Boletim mensal da Sociedade da Língua Portuguesa, 1949-1955.,

« […] As palavras de uma língua vão mudando de sentido a pouco e pouco, ou, se o não mudam inteiramente, vão pelo menos adquirindo, com o volver dos anos [ou de um dia para o outro, hoje em dia…], valores significativos diferentes.
   […]
A ordem social, ou melhor, o ambiente social, ou mais exactamente, os meios sociais em que vivem núcleos de indivíduos com as mesmas tendências, as mesmas ideias afins, as mesmas ocupações e preocupações [e já agora, também, desocupações], levam os membros desses agregados a empregar palavras da fala geral e comum a que dão sentido especificado, e inoculam-lhes, para uso do clã, valores significativos diferentes e muitas vezes, aberrantes… A camada social da chamada «gente bem» serviria para mostrar à evidência que as palavras mudam realmente de sentido em certos meios sociais. Quando, por exemplo, nessa camada, senhoras e meninas empregam a torto e a direito, — mas muito mais «a torto», é claro, — as palavras «chato», «chatice», não há duvida de que lhes transformam o sentido originário, visto que não coram ao proferi-las… e supõem que tais vocábulos significam apenas maçador, maçada, aborrecimento, —enfim, chatice!»

Augusto Teixeira, «Breves noções de semântica», in A Bem da Língua Portuguesa; Boletim mensal da Sociedade de Língua Portuguesa, Ano VI, n.º 2, Fevereiro de 1955, pp. 107-108.

 

 Assim vejo, em 1955, as senhoras e meninas da camada social chamada de «gente bem» eram referência em torções à linguagem quotidiana. Mas seria em registo familiar, quero crer, se bem que, pelo chic alastrasse e até se alcandorasse, como no caso, a publicações eruditas. Eram todavia outros tempos…

 De outros tempos, também e já, ainda repetia o meu bom Jaime a emenda do sisudo Rev.º P.e Albino no meio dalguma chatice que nos surgisse:
 — Não diga chato! É aborrecido!…
 Ironia subtil!… — Era isto pelos anos 80. Tão longe veio, e vai, já, a valia e o imperativo da emenda!…

 Lembra-me também, já agora, de que afinal continuam, deveras, a ser senhoras e meninas (mais meninas porque hoje amadurecem pouco) da camada social chamada de «gente bem» (a nova, a moderna, a actual) a ser referência de muitas e novas torções à semântica do falar geral. O caso é que deixou de ser no tradicional registo familiar (porque… já lá vamos…) com alastramento aleatório e fortuito ao uso geral. Dá-se o fenómeno antes, hoje, em registo mediático com rijo suporte mural. As senhoras e meninas (não reclame aqui menino algum de sua omissão neste passo; conte-se antes nas meninas porque é a melhor maneira que conheço de se ser inclusivo) da novel camada de «gente bem», quando, pois, empregam a torto e a direito — mas muito mais «a eito», é claro — fascismo, racismo, colonialismo, intolerância, fobia, homem, mulher, pai, mãe, família (cá está!) e por aí fora, torcendo-lhe ao absurdo o sentido originário, mais não supõem, portanto, que tais vocábulos significam apenas ofensa, agressão, ódio, violência.
 Violência sobre a semântica, enfim! E sobre as paredes. Uma chatice!

Contra o vosso machismo, a nossa sororidade (feminismo mural), Lisboa — © 2022
Lisboa — © 2022

Escrito com Bic Laranja às 15:30
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