Sábado, 11 de Maio de 2024

O Dia da Espiga!

 Foi na quinta-feira. É sempre. O que era e já não é, é a tradição antiga:

[…]  O Dia da Espiga!.... Quando eu andava na escola primária, só havia aulas de manhã. À tarde levávamos um farnel e íamos com a professora apanhar a espiga. A espiga era um raminho que levava: papoilas, um bocadinho de ramo de oliveira, espigas de trigo, malmequeres amarelos e malmequeres brancos. Depois fazíamos um raminho com um pedaço de cordel que ficaria pendurado em casa durante um ano. E assim se ía substituindo o ramo, ano após ano. Cada componente tinha um significado: papoilas — saúde, vida; espigas — pão, fartura; oliveira — paz, harmonia; malmequeres amarelos — dinheiro, ouro; malmequeres brancos — dinheiro, prata. Esta tradição é muito antiga. Segundo sei chegou a ser feriado. Depois, para acabar o dia em cheio, fazíamos um piquenique. Durante muitos anos apanhei a espiga, mas hoje já ninguém se lembra.

 Porém, o mote que deu introdução à memória destas coisas que já se ninguém lembra era a…

Adelina Fernandes a cantar uma canção de revista [Cabaz de Morangos], com uma voz bem timbrada e alegre. Lembro-me muito bem desta canção, cantada pela minha mãe.



Adelina Fernandes — O Dia da Espiga (da revista «Cabaz de Morangos»), 1926.
Gravação de 1926 no Teatro de S. Luiz, in RDZ — Radiodifusão Zonofone, 9/V/24.

 Da tradição antiga ficou dito nas citações acima. Da tradição moderna, é como vai agora…

 São as citações o comentário da Sr.ª D.ª Eduarda Gaspar à publicação do antifascizóide Sr. Vaquinhas, um oprimido da censura ainda agora, hoje, em cinquentenária libardade. — Há ironias do cara… ças!… — Mas, nâo remonta a revista Cabaz de Morangos a Setembro de 1926, o ano da Revolução Nacional (antes da seguinte…)?!… — Pois a culpa há-de ser de Salazar, do salazarismo, do fascismo ou, do que seja!…  E assim, lá vem o tal sr. Vaquinhas a dizer da cançoneta que teve como propósito principal a propagação dos ideais nazistas do Integralismo Lusitano, nos quais a Ditadura Militar e o Estado Novo iriam assentar as suas bases ideológicas.
 
Ideais nazis do Integralismo Lusitano?!… — Que raio de ideia!…
 Há um ano e tal, é curioso, dizia ele da mesmíssima cantiga sòmente, e já não era pouco (embora fosse mero papaguear…), que teve como propósito principal exaltar o lirismo rural e fazer as delícias da ditadura militar.
 
Ora que de exaltar o lirismo rural que fazia (dizem…) as delícias da Ditadura Nacional de 1926, à propaganda dos ideais nazistas &c. é um salto que nem lembraria ao diabo! — Mas, bem! Há doidos para tudo! Até no Dia da Espiga que é a quinta-feira da Ascenção bem ao modo português.

 Tornando à cantiga da espiga, a outra gravação é a que se segue:

 


Justina de Magalhães — Canção da Espiga (da revista «Cabaz de Morangos»), 1926.
Gravação de 1926 no Clube da Estefânia, in RDZ — Radiodifusão Zonofone, 9/VIII/22.

 Da tradição ao disparate, sobra a música, que é de Alves Coelho, e os versos, que são de Silva Tavares, simples canção de revista à portuguesa.

Oioai
Esta vida é uma cantiga
E este dia de alegria
Vale um ano de aflição

Oioai
Porque este Dia de Espiga
É o arauto do dia
Em que o trigo há-de dar pão

Jorra o vinho dos pichéis
Para os lábios das moçoilas,
Mais vermelhas que papoilas
Coas larachas dos Manéis

Há merendas pelos prados,
Gargalhadas pelo ar
E à beirinha dos valados,
Ouve a gente murmurar:

Maria, são teus olhos azeitonas!
Cachopa, são teus lábios qual cereja!
E os teus seios, cachos de uvas que abandonas
À vindima desta boca que os deseja!...

Tomam todos os caminhos
um sabor de romaria,
e até mesmo os pobrezinhos
fingem de ter alegria...

E, na volta, já sentindo
que foi tudo um sonho em vão,
inda há ecos, repetindo
pelo espaço esta canção:

Maria, são teus olhos azeitonas!
Cachopa, são teus lábios qual cereja!
E os teus seios, cachos de uvas que abandonas
À vindima desta boca que os deseja!...

Escrito com Bic Laranja às 19:53
Verbete | comentar | comentários (4)

Junho 2024

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
14
15
17
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

Visitante



Selo de garantia

pesquisar

Ligações

Adamastor (O)
Apartado 53
Bic Cristal
Blog[o] de Cheiros
Chove
Cidade Surpreendente (A)
Corta-Fitas(pub)
Dragoscópio
Eléctricos
Espectador Portuguez (O)
Estado Sentido
Eternas Saudades do Futuro
Firefox contra o Acordo Ortográfico
Fugas do meu tinteiro
H Gasolim Ultramarino
Ilustração Portuguesa
Kruzes Kanhoto
Lisboa
Lisboa Actual
Lisboa de Antigamente (pub)
Lisboa Desaparecida
Menina Marota
Meu Bazar de Ideias
Olhar o Tejo
Paixão por Lisboa
Perspectivas(pub)
Planeta dos Macacos (O)
Porta da Loja
Porto e não só (Do)
Portugal em Postais Antigos(pub)
Retalhos de Bem-Fica
Restos de Colecção
Rio das Maçãs(pub)
Ruas de Lisboa com Alguma História
Ruinarte(pub)
Santa Nostalgia
Terra das Vacas (Na)
Tradicionalista (O)
Ultramar

arquivo

Junho 2024

Maio 2024

Abril 2024

Março 2024

Fevereiro 2024

Janeiro 2024

Dezembro 2023

Novembro 2023

Outubro 2023

Setembro 2023

Agosto 2023

Julho 2023

Junho 2023

Maio 2023

Abril 2023

Março 2023

Fevereiro 2023

Janeiro 2023

Dezembro 2022

Novembro 2022

Outubro 2022

Setembro 2022

Agosto 2022

Julho 2022

Junho 2022

Maio 2022

Abril 2022

Março 2022

Fevereiro 2022

Janeiro 2022

Dezembro 2021

Novembro 2021

Outubro 2021

Setembro 2021

Agosto 2021

Julho 2021

Junho 2021

Maio 2021

Abril 2021

Março 2021

Fevereiro 2021

Janeiro 2021

Dezembro 2020

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.