Domingo, 16 de Março de 2008

Um «baio de razoável estampa»

Cavalo caído, R. Amparo (C.Ferreira, s.d.)Rua do Amparo, Lisboa, [s.d.]
Ferreira da Cunha, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

« Não conheci o sr. Emídio nem os gansos; conheci mal a Azinhaga das Olaias mas, em contrapartida, conheci a Azinhaga da Fonte do Louro, por onde me desloquei muitas vezes de garrafões na mão para ir à água que a minha mãe tanto apreciava. Conheci a inauguração das casas novas da G.N.R. com muita fardeta devidamente medalhada e alguns mirones embasbacados e conheci ainda um "pitrolino" que guardava algures por aqui a carroça do ofício (será que ainda existe alguma devidamente preservada?) e o respectivo cavalo, um baio de razoável estampa. Lembro-me que um dia, o cavalo ao tentar vencer o desnível entre a Azinhaga e a Veríssimo Sarmento (vulgo Rua Nova) atrelado à pesada carroça (uma autêntica cisterna cheia de artefactos) patinou, perdeu o equilíbrio e foi ao chão. Ocorreram os circunstantes e tentaram levantar o bicho, mas nada. Houve quem alvitrasse que a pileca devia estar em fraqueza e o melhor era mandar vir meia litrosa de tinto da tasca do Rodrigues e fazer-lhe umas sopas de cavalo-cansado. Provavelmente a ideia era o alvitrante provar as sopas antes da vítima, não sei. Para desgosto do cavalo, que deve ter achado que um mal nunca vem só, optou-se por o desatrelar e assim se conseguiu levantá-lo. A minha visão infantil, mais atenta ao pormenor do que ao conjunto (ainda hoje é assim) registou, em particular, a aflição do equídeo, preso aos varais, a tentar erguer-se (foi antes de se falar nas sopas) e os arranhões sangrentos com que ficou na ilharga esquerda. Os meus agradecimentos por mais uma viagem ao passado. »

[Comentário de Attenti al Gatti em 14/3/08.]

 Az. Fonte Louro e R. Ver. Sarmento, Alto Pina (A.Madureira, s.d.)
O desnível entre a Azinhaga da Fonte do Louro e a R. Veríssimo Sarmento, Lisboa, [s.d.]
Arnaldo Madureira, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

 

Escrito com Bic Laranja às 07:00
Verbete | comentar
18 comentários:
De Scarlata a 16 de Março de 2008
Este tipo de episodio sempre me causou muita afliçao. Muito bem contado, como sempre. -,)
De Bic Laranja a 16 de Março de 2008
Muito bem contado sim senhora, mas o narrador aqui não sou eu. Cumpts.
De kikusui a 19 de Março de 2008
Um grande abraço amigo Bic Laranja já algum tempo não passava por aqui.
Mas vale sempre a pena quando a alma não é pequena .
e não é.
Continua ser um tempo bem passado dar por aqui uma passagem a saudade as vezes mata não se deixe morrer.
De Bic Laranja a 20 de Março de 2008
Um abraço e boa Páscoa, caro amigo. Cumpts.
De Carlos Marcelo a 13 de Outubro de 2015
esta descida era uma rua que vinha da Rua Alberto Pimentel , enquadrada com a quinta Fonte Louro (az)
De T a 16 de Março de 2008
Belo narrador. Ele tem blog?
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Belo narrador. Ele tem blog? <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Ainha</A> ontem ouvi contar a história do mata-bicho e dessas sopas. <BR>
De Atentti al Gatti a 26 de Março de 2008
Muito grato pela atenção que me dedicou e pelas suas amaveis palavras. Não, não tenho blog. Pese muito embora as vantagens que lhe estão associadas, ainda não me sentí suficientemente motivado para criar um. Cordiais saudações virtuais.
De T a 16 de Março de 2008
Ideia minha, ou ficou tudo desformatado? E eu que estava a pensar emigrar para o Sapo!
De Bic Laranja a 16 de Março de 2008
Se tem não disse. Mas não parece. Em todo o caso conto que volte e comente.
O erro também me aconteceu no Gasolim, mas tinha a convicção que isto compreendia o html. Enfim!...Cumpts.
De Nuno Castelo-Branco a 16 de Março de 2008
Onde é que se situa esta azinhaga? desconfio que seria para os lados da Fonte Luminosa, antes das obras do Estado Novo, não?
De Bic Laranja a 16 de Março de 2008
Esta azinhaga subsiste nalguns troços: partia do cimo da Alameda descendo em direcção à linha de cintura através dum vale que se formava entre o Areeiro e as Olaisas. Em passando a via férrea inflectia em direcção ao apeadeiro do Areeiro indo desaguar no famoso retiro do Perna de Pau, logo abaixo do dito apeadeiro. Na Lisboa Interactiva, pesquise 'fonte do louro' e poderá ver o que hojes sobra desta azinhaga.
http://lisboainteractiva.cm-lisboa.pt/
Cumpts.
De Atentti al Gatti a 26 de Março de 2008
Suponho que a azinhaga que refere será antes a Calçada da Ladeira, que partindo da R. Barão de Sabrosa, passava pelo que é hoje a parte mais alta da Alameda D. Afonso Henriques (Fonte Luminosa) e ía acabar na R. do Garrido. Hoje já só existem, completamente descaracterizadas, as duas pontas da rua. Uma que fica numa espécie de túnel no prédio feioso que faz esquina da Barão de Sabrosa para a Alameda (lado da Paiva Couceiro). A outra dá acesso ao portão das traseiras do Jardim de Infância O Pelicano. Espero te-lo elucidado. Cumpts.
De Atentti al Gatti a 26 de Março de 2008
Pretendí esclarecer as suas dúvidas mas, por lapso o comentário ficou um pouco mais abaixo, a seguir ao comentário de Bic Laranja. Mea culpa.
De Bic Laranja a 26 de Março de 2008
A mecânica dos comentários funciona assim; não é culpa sua. Cumpts.
De O Réprobo a 16 de Março de 2008
O sofrimento do animal, conjugado com o letreiro do estabelecimento, descreve a situação que persiste: só pena quem não entra no sistema de passar manteiga. Abraço
De Bic Laranja a 16 de Março de 2008
Que perspicaz interpretação. Muito certa! Muito certa! Cumpts.
De Atentti al Gatti a 27 de Março de 2008
Fiz muitas viagens num veículo idêntico ao da foto. Diziam que era uma Fordson - não sei era marca ou alcunha. Em tempos posteriores, o tapume lá atrás desapereceu e terreno que ele vedava foi alcatroado e marcado e nasceu um movimentado mercado ao ar livre, com preponderância das áreas píscicola e horto-frutícola. Foi no apogeu do Bairro da Guarda. Para trás do poste à direita, vê-se um espaço livre entre prédios. Nesse local foi edificado o Hotel D. Afonso Henriques. Não obstante a zona não ser das mais prestigiadas o hotel conheceu momentos de glória. A ajuizar pelas "máquinas" que na segunda metade dos anos 60 paravam à porta, deve ter tido hóspedes de qualidade. Talvez por isso teve direito a paseio com recorte, que albergou uma bomba de gasolina com um inovador sistema verificador da pressão dos pneus, cujo funcionário (um polícia reformado - tinham preferência, na época) trajava fato-macaco de caquí, bem vincado, com boné do mesmo tecido e que além de abastecer os veículos de combustível ainda vía os níveis do óleo e do líquido de refrigeração do motor (água, que nessa altura os carros eram menos exigentes), a pressão dos pneus e, no Natal e na Páscoa, ainda oferecía aos motoristas e passageiros, deliciosos "drops" com recheio. Ainda vinha longe o garganeiro "sel-service" actual. Na garagem, estiveram instaladas as oficinas da famosa e há muito falecida marca germâmica, N.S.U.
Hoje, quem passa naquele local degradado, dificilmente imaginará as suas grandezas de outrora. Sic transit gloria mundi.
De Bic Laranja a 29 de Março de 2008
Obrigado por mais este pedaço de memória. Cumpts.

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