Sábado, 7 de Junho de 2008

O preço do sabão amarelo para lavar escadas

 Tomemos uma rua onde há três drogarias. A drogaria do Jorge, na esquina ao começo da rua; o sr. Aníbal, a meio da rua; e o Jaquim Nove Dedos ao fundo da rua. Nenhum tem grandes falas com nenhum dos outros. Falam-se, quem sabe, uma vez por ano no arraial dos santos populares na União Filarmónica e Recreativa do bairro. Mas as mulheres deles comentam os preços das drogas pelo meio da quadrilhice diária que é costume fazerem à janela das traseiras dos prédios onde moram, que dão todos para o mesmo logradouro. 
 Todos os droguistas vendiam o quilo do sabão amarelo para lavar escadas a dez tostões até à última vez que as senhoras conversaram, em que a mulher dum deles contou que o marido tinha posto o sabão amarelo a doze tostões na manhã desse dia. Nessa mesma tarde o quilo do sabão amarelo para lavar escadas custava 1$20 nas três drogarias do bairro.
 Importa dizer que nem o Jorge da drogaria, nem o sr. Aníbal, nem o Nove Dedos nunca conheceram a palavra cartel.
 

Bomba de gasolina, Lisboa (A.A. Fernandes, 1958)
Bombas de gasolina, Av. Engenheiro Duarte Pacheco, 1958.
Augusto de Almeida Fernandes, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.. 

Nota: houve em tempos em Lisboa uma drogaria dum certo Jorge, ao cimo da Alameda de Dom Afonso Henriques e duas drogarias ali perto pertencentes uma a um sr. Aníbal e a outra a um sr. Joaquim. Cuido que a última ainda seja negócio da família. Nenhum dos droguistas tem nada que ver com os desta história.

 

Escrito com Bic Laranja às 07:30
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10 comentários:
De Luísa a 7 de Junho de 2008
Estará a querer insinuar, meu caro Bic, que todos os «paralelismos» de preços se devem ao irreprimível, mas inocente e inofensivo gosto feminino pela troca de impressões? :-)

De Bic Laranja a 9 de Junho de 2008
Só insinuo que a «inocente troca de impressões» se ampliou em diligentes agências de comunicação, painéis informativos em auto-estradas e páginas da Internete para melhor guiar o consumidor...
Ao pé disto a velha coscuvilhice das vizinhas era mais saudável, porque era mais um fim em si mesma que um método para ganância.
Cumpts.
De Atentti al Gatti a 8 de Junho de 2008
As drogarias dos personagens reais não estavam assim tão perto: havia um bairro de diferença. A do sr. Jorge ficava paredes meias com o talho do sr. Esteves, ladeando ambos a porta nº196 da R. Barão de Sabrosa, no bairro do Alto do Pina. Já os outros dois situavam-se na Picheleira, nos locais por demais conhecidos. Naqueles recuados tempos pré-globalização, estas diferenças não eram despiciendas que o briozinho bairrista ainda mexia. Era assim a modos que um uma espaço Schegen, mas cá à maneira da gente.
Os ditos comerciantes não conheceríam o cartel, mas conheciam bem a carteira de muitos clientes.
Também não será por acaso que comerciantes, cartelistas e carteiristas partilham a protecção de Hermes/Mercúrio.
A.v.o.
De Bic Laranja a 9 de Junho de 2008
Ah! Ah! Um bairro de diferença com uma Rua Larga a ligá-los. A distância era grande para ir a pé, mas menor que uma ida de carro hoje ao hiper...
Cumpts.
De André Santos a 8 de Junho de 2008
Só encontro uma palavra para defenir este post e é comum ao respectivo blog: Genial!!
De Atentti al Gatti a 9 de Junho de 2008
Concordo inteiramente consigo no que ao blogue diz respeito. Na parte que me toca, não vai o sapateiro além da chinela. Fico-lhe muito grato pela sua amabilidade.
De Bic Laranja a 9 de Junho de 2008
Generosidade sua. Muito enriquecimento vem dos comentários dos benévolos leitores. Obrigado!
De restelo a 8 de Junho de 2008
Também houve em tempos na cidade de Lisboa um policia alcunhado de "nove dedos", porque ao querer multar uma varina, esta deu-lhe uma dentada nos dedos arrancando-lhe um deles. Pode dizer-se que naquele tempo era o policia mais famoso de Lisboa.
(Simples Curiosidade)
De Atentti al Gatti a 9 de Junho de 2008
O famoso agente "Nove Dedos" pertencia, na transição da década de 50 para a de 60 do século passado, à Polícia Municipal, dita da "Câmbra", popularmente. Era o terror de padeiros, leiteiros, peixeiros e demais vendedores ambulantes a quem multava sem dó nem piedade por não estarem devidamente documentados para a actividade, ou por o pão ter peso a menos, ou porque os pesos e balanças não estavam aferidos ou tinham uma ponta de ferrugem ou porque, no caso das peixeiras, andavam descalças (proibição que estas contornavam comprando um par de chinelos e usando um de cada vez) ou por outras miudezas regulamentares. Enfim, um percusor da ASAE. As "vítimas" viviam com o coração nas mãos. De madrugada, o simples avistar do Land-Rover verde-escuro já era uma inquietaçâo. E se constava que lá dentro vinha o "Nove Dedos" (cujo nome era Eugénio) era o pânico.Não prevaricavam pela ganância do lucro, mas porque em tempos de muito trabalho e pouco dinheiro, a legalização da sua modesta actividade era desproporcionadamente cara, trabalhosa e demorada, por via de uma regulamentação miudinha e muitas vezes despropositada. Já nessa época o Estado tinha por hábito tirar aos pobres para dar aos ricos.
O dedo decepado à dentada, parece ter sido apenas uma lenda, que servia de triste consolo aos que lhe caíam nas mãos.
A.v.o.
De Bic Laranja a 9 de Junho de 2008
Interessantíssima também. Creio que já tinha ouvido alguma coisa sobre ele, mas a bruma da memória aqui é muito densa.
Cumpts.

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