Quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

Quinta do Alperche (ou dos Alperces)

Portal, Calçada da ladeira (E. Portugal, ante 1942)
Portal, Calçada da Ladeira, [ant. 1942].
Arquivo Fotográfico da C.M.L..

Escrito com Bic Laranja às 06:30
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22 comentários:
De Bic Laranja a 1 de Março de 2020
Não lhe respondi antes porque não me apercebi do seu comentário, desculpe!
Agradeço a nota de vida que trouxe à aridez destas memórias fotográficas que já não lembram a ninguém.
Suponho que se refira aqui à casa da Rua do Garrido de que me fala noutro comentário.
Cumpts.
De Maria ALMEIDA a 1 de Março de 2020
Boa noite
O meu nome é Maria Emília de Matos e Silva de Almeida mas normalmente uso o nome de Emília Matos e Silva que é o meu nome artístico, uma vez que sou pintora. Na minha certidão de nascimento diz que nasci na Alameda Afonso Henriques na quinta do Alperce. Se tiver interesse poderá ver na minha página do Facebook as fotos que lá coloquei à dias. O meu avô comprou a quinta por volta de 1916 ou 1917. Sei isto porque sei que a minha mãe nascida em 1905 tinha onze anos quando foi para lá viver. A casa ainda existe e pertence desde há bastante anos ao Ministério da Segurança Social. Só tive possibilidade de lá entrar recentemente porque uma antiga funcionária superior desse Ministério teve a amabilidade de lá me levar. Eu sai de lá com 6 meses. Já só existia a casa depois de duas expropriações por parte de Duarte Pacheco. Tivemos de vender a casa porque a minha mãe vivia lá com uma irmã mais tinha mais dois outros irmãos que exigiram partilhas.
Vou enviar-lhe um texto escrito pela minha mãe que explica como era a quinta. Eu saí de lá em 1948 e o texto deve ter sido escrito por volta dessa data.
.. com fundo desgosto deixei essa casa, essa querida casa que foi o paraíso da minha adolescência, fonte inesgotável de alegrias sãs, boa saúde física e mental que desde o primeiro dia nela desfrutei. Para uma criança criada na cidade, embora saindo todas as férias para o campo ou para a praia, aquela quinta foi a felicidade. Tinha a parte rústica representada pelas hortas vicejantes e sempre fartas, o pomar sendo além disso semeada de árvores de fruto por todos os recantos e de todas as variedades, com campos de semeadura, searas (coisa que até aí nunca vira de perto). Capoeiras bem providas, cortiços com abelhas, um estábulo com 10 vacas, vinha e latadas encimando as ruas e jardins, nem menos de cinco grandes jardins a abarrotar com flores, adornadas com muros de buxo, de tanques a emprestar frescura e graça a todos eles. Qualidades de árvores de sombra raras: um cacto gigante circular, uma árvore-da-borracha, tamareiras com verdadeiras tâmaras, eucaliptos, pinheiros bravos e mansos, acácias de floração branca, roxa e rosa, olaias e tramangueiras empenachadas de lilás e rosa, oliveiras, que sei eu, de tudo bastante e bem distribuído de forma a encher de sombra aprazível as ruas e bancos de azulejos antigos, porque bem antiga era essa quinta que no portão principal deitando para um pequeno largo na azinhaga do Areeiro, esquina da Calçada da Ladeira, tinha lindo painel de azulejos figurando dois pavões de caudas em leque abertas e policromas e a data de 1726.
Aí vivi e cresci, aí senti pela primeira vez com o contacto diário com a natureza, o encantamento que ela empresta ao campo, no decorrer das estações do ano e as transformações constantes porque assistia deslumbrada, fizeram-me conceber o desejo de descrever o que via, tentando reproduzir em letras e frases o meu sentir. Começaram os primeiros versos (maus versos de péssima poetisa) e os primeiros ensaios literários. Quanto a estudos ….
Há 32 anos Lisboa não era como é hoje. No Largo do Chile terminava a Avenida Almirante Reis e depois rumo ao Areeiro e à Quinta do Alperce, que este era o nome pitoresco da Quinta e que, juntamente com os terrenos e outra Quinta dos Alperces que ainda existe ou existiu no Caminho de Baixo da Penha, pertenceram a Pina Manique, só havia azinhagas entre muros e de leito pedregoso ou terra batida e a Rua do Areeiro, pouco mais larga e também toscamente empedrada, por onde passava o elétrico. Daí por diante e à volta da nossa, quintas de semeadura, mais quintas rústicas ( a do Padre – a do Manuel dos Passarinhos, etc.). Como poderia seguir regularmente os estudos, frequentar um liceu (havia tão poucos para meninas e tão longe!) ter uma educação oficial? Os professores iam dar-me lições a peso de ouro indo o carro do meu pai buscá-los e pô-los novamente em casa ou aonde mais lhes convinha.
Memórias de Fernanda Matos e Silva
De Maria ALMEIDA a 1 de Março de 2020
para melhor esclarecer a casa fica do lado esquerdo de quem sobe a Alameda em direcção à Fonte Luminosa. Fica mesmo ao lado da parte superior da fonte. é uma casa recuada estilo neoclássico, e o acesso é através de um portão e de uma escadaria.

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