Domingo, 25 de Novembro de 2007

Sr. Emídio

 — Sabe! Estive para lhe pôr lá qualquer coisa na Rua Larga.
 — Imaginei que esse verbete lhe suscitasse interesse.
 — Eu até me lembro daquela rua antes de ter muros.
 — Pois olhe que há uma fotografia disso.

Rua Veríssimo Sarmento, Alto do Pina (E. Portugal, 1946)

Rua Veríssimo Sarmento, Lisboa, 1946.
Fotografia de Eduardo Portugal in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

 O amigo Fernando C. contou-me ao depois mais:
 — À esquerda dessa rua o caminho dividia-se ao pé duma casa: pela esquerda descia a Azinhaga da Fonte do Louro em direcção ao caminho de ferro; à direita, partia a azinhaga que ia dar à quinta das...
 — Olaias — completei. Verifiquei agora que a tal azinhaga passava antes de chegar às Olaias pela quinta do Monte do Coxo e talvez daí a hesitação do meu bom amigo. Mas confirmou.
 — Das Olaias. Ia-se por ali acima até ao portão da quinta. Logo ali, no princípio da azinhaga, era a casa do sr. Emídio que tinha umas hortas. Em pequeno era costume ir lá comprar...
 Pois agora, [que memória] passados que vão uns dias desta conversa, já não tenho a certeza. Cuido que era feijão. Ou favas?
 Em todo o caso também há uma fotografia disso. Da casa do sr. Emídio, quero dizer; era por esse caminho aí adiante.


Azinhaga das Olaias, Lisboa, [s.d.].
Fotografia de Arnaldo Madureira in Arquivo Fotográfico da C.M.L.


Pela Azinhaga das Olaias tenho a vaga ideia de uma vez me ter aventurado à descoberta. Sozinho, indo já por ela adiante — quem sabe se por perto da velha casa do sr. Emídio — dei comigo a ser perseguido por uns daquele bairro e, pernas para que te quero, que aquilo era território doutra matilha. Não me lembra agora onde fui dar, mas deve ter sido à serração que houve onde fora a quinta das Olaias — onde hoje está o centro comercial. Não me aconteceu mal.

Azinhaga da Fonte do Louro

 Na Azinhaga da Fonte do Louro embrenhei-me um par de vezes sem azares daqueles a caminho do Areeiro. Mas um atalho por uma íngreme ravina que era precisa trepar, ali por alturas hoje da Rua Sarmento Beires, tornava muito pouco apetecível aquela... acessibilidade.
 (E quem diria que eu havia de estar aqui quase trinta anos depois a falar de caminhos de cabras que ninguém já se lembra, com uma linguagem toda século XXI, hem?)
 Aquilo lá ao fundo são os Olivais.


Azinhaga da Fonte do Louro, Alto do Pina, 1967.
Fotografia de João H. Goulart in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

Escrito com Bic Laranja às 00:30
Verbete | comentar
19 comentários:
De Bic Laranja a 2 de Dezembro de 2007
Coisas de nada, Dª Papoila. Mas obrigado! Cumpts.
De papoila a 1 de Dezembro de 2007
adoro encontrar por aqui histórias passadas desta Lisboa...

Beijos
BF
De Bic Laranja a 27 de Novembro de 2007
Ah! Os gansos. Tinha-me esquecido dos ferozes gansos, sim senhor. Cuidava que o sr. Emídio fosse na 2ª ou na 3ª casa da Azinhaga das Olaias. Afinal era logo ali no portão. Obrigado por precisar melhor. Cumpts.
De Fernando C. a 27 de Novembro de 2007
Na Quinta das Olaias eu comprava favas e ervilhas perfumadas com um raminho de coentros.O dono era "um senhor",até tinha uma "arrastadeira" CITROEN...
O Sr.Emídio era o fornecedor de couves e nabos e era bem mais modesto...
Eu era um menino que "vendia juventude";neste momento era capaz de "vender nostalgia"...
A fotografia de 1967 mostra claramente "o portão do Sr. Emídio",após o qual eu tinha de enfrentar,cheio de medo,os furiosos gansos que lhe defendiam a propriedade.
Grato pela evocação!



De pedro a 26 de Novembro de 2007
Não conheci a realidade que tão bem descreve. Mas sempre me intrigou a placa que, ali perto do cimo da Alameda, indicava a Azinhaga da Fonte do Louro.
Descia por trás daquela construção nova na Afonso Costa em Direcção ao comboio, certo?
De Bic Laranja a 14 de Março de 2008
Sim. Cumpts.
De Bic Laranja a 25 de Novembro de 2007
Podia imaginar que as contaria em família ou aos amigos. E aqui é um pouco isso, embora de modo totalmente exposto. Obrigado Manuel! // Obrigado Réprobo. Não acabou. Os grafitos provam-no. Ainda hão-de chegar às paredes dos túneis. // Cumpts.
De O Réprobo a 25 de Novembro de 2007
Bela rememoração! O Metro pode ter acabado com a compartimentação trritorial dos bandos, mas quem tiraria fotografias às paredes de um túnel? Abraço
De Manuel a 25 de Novembro de 2007
Ninguém. Ninguém diria nesse tempo que contaria essas proezas desta forma.
Ainda bem que o faz.
Abraço
De attenti al gatti a 14 de Março de 2008
Não conheci o sr.Emídio nem os gansos, conheci mal a Azinhaga das Olaias mas, em contrapartida , conheci a Azinhaga da Fonte do Louro, por onde me desloquei muitas vezes de garrafões na mão, para ir à água que a minha mãe tanto apreciava. Conheci a inauguração das casas novas da G.N.R. com muita fardeta devidamente medalhada e alguns mirones enbasbacados e conheci ainda, um pitrolino " que guardava, algures por aquí a carroça do ofício (será que ainda existe alguma devidamente preservada?) e o respectivo cavalo, um baio de razoável estampa. Lembro-me que um dia, o cavalo ao tentar vencer o desnível entre a Azinhaga e a Veríssimo Sarmento (vulgo Rua Nova) atrelado à pesada carroça (uma autêntica cisterna cheia de artefactos) patinou, perdeu o equilíbrio e foi ao chão. Ocorreram os circunstantes e tentaram levantar o bicho, mas nada. Houve quem alvitrasse que a pileca devia estar em fraqueza e o melhor era mandar vir meia litrosa de tinto da tasca do Rodrigues e fazer-lhe umas sopas de cavalo-cansado . Provávelmente a ideia era o alvitrante provar as sopas antes da vítima, não sei. Para desgosto do cavalo, que deve ter achado que um mal nunca vem só, optou-se por o desatrelar e assim se conseguiu levantá-lo. A minha visão infantil, mais atenta ao pormenor do que ao conjunto (ainda hoje é assim) registou, em particular, a aflição do equídeo, preso aos varais, a tentar erguer-se (foi antes de se falar nas sopas) e os arranhões sangrentos com que ficou na ilharga esquerda. Os meus agradecimentos por mais uma viagem ao passado.
De Bic Laranja a 14 de Março de 2008
Obrigado eu por mais este riquíssimo comentário. Cumpts.
De Roberto Peresio -Italia - a 6 de Janeiro de 2009
Uma pregunta: Azinhaga da Fonte do Louro
E' a mesma de que falas no post dA Perna de Pau?

Ciao
peresio@hotmail.com
De Bic Laranja a 6 de Janeiro de 2009
Sim. Partia do Alto do Pina (ainda parte), descia ao caminho-de-ferro (sentido Norte); inflectia para oeste; serpenteava para sul e novamente para oeste e desembocava na esquina do Perna de Pau. Só resta o troço inicial. Aqui: http://maps.live.com/default.aspx?v=2&FORM=LMLTCC&cp=38.743395~-9.112435&style=h&lvl=16&tilt=-40.5990709346254&dir=0.361927453361633&alt=1993.85928659141&cam=38.720019~-9.128058&scene=24980787&phx=-0.0665906935038598&phy=0.697114977909684&phscl=4.57088189614875&encType=1 .
Cumpts.

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