Domingo, 18 de Novembro de 2007

A Rua Larga

 A Rua Larga ligava ao bairro. Nela podiam cruzar-se dois autocarros, geralmente em boa velocidade. Os motoristas aceleravam e as chapas desconjuntadas das carroçarias de dois andares trepidando com o mau piso da rua faziam tal barulheira que o grosso ronco dos motores se deixava de ouvir. A rua tinha um muro de cada lado. Não era daqueles muros altos das azinhagas que não deixavam ver as quintas a quem passava. Tinham talvez um metro de altura e dum lado e doutro havia as terras das velhas quintas, de que sobejava só um nome mal lembrado e algumas hortas cultivadas pela gente dos bairros.
 O meu irmão ia sempre por cima do muro. Eu também, mas como era pequenino era a mãe que me punha lá em cima. Ao depois seguíamos: o meu irmão à frente - ele ia sempre à frente - e eu pela mão da mãe, não fosse desequilibrar-me e cair. No fim do muro, a chegar ao outro bairro, havia uns tapumes e depois uma padaria. Houve uma vez que a meio caminho na Rua Larga, indo como costume em cima do muro, pedi um bolo.
 - Que bolo queres? - quis saber a mãe.
 - Quero um que é de palha e tem creme lá dentro.
 A mãe não disse nada.
 Na padaria pegou-me ao colo para eu ver os bolos na redoma em cima do balcão alto.
 - Que bolo queres? - tornou-me a dizer.
 - Aquele - apontei.
 À saída ensinou-me:
 - Esse bolo chama-se um pastel de nata e não é de palha, filho; quem come palha são os cavalos.

Rua Veríssimo Sarmento, Lisboa (J.H.Goulart, 1969)
Rua Veríssimo Sarmento, Lisboa, 1969.
Fotografia de João H. Goulart, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

Escrito com Bic Laranja às 11:41
Verbete | comentar
10 comentários:
De Bic Laranja a 18 de Novembro de 2007
Réprobo: Bom neste caso a única digestão foi o pastel de nata; que não era palha com creme, eh eh. // Pitx e Pedro: Saudades, hem?! Foi por 81 ou 82, sim. Durante algum tempo a rotunda esteve feita mas a rua mantinha-se, atravessando-a pelo meio. // Cumpts.
De Pedro Gonçalves a 18 de Novembro de 2007
Que saudades, fazer esta estrada descer a alameda...Acabou quando, 25/26 anos?
Abraço
De Pitx a 18 de Novembro de 2007
grande, grande post.

ou melhor, grande, grande arrepio com esta foto.

aquele enooooooorme abraço!
De O Réprobo a 18 de Novembro de 2007
Bela recordação, Meu Caro Bic. Mas quanto ao dizer da Senhora Sua Mãe, cabe comentar que folgo ver ter sido poupada a certos textos que este seu criado teve de digerir... Abraço
De Bic Laranja a 18 de Novembro de 2007
Dois radiosos luares mais rápidos que os autocarros na Rua Larga, mas mais discretos! Grato pelos comentários. :)
De Luísa a 18 de Novembro de 2007
Caro Bic Laranja: revejo sempre pedacinhos da minha própria infância nestes seus expressivos quadros. Confundir massa folhada com palha? Mas claro! :-)
De Luar a 18 de Novembro de 2007
Adorei Amigo Bic!!! Bolo de palha..... Lindo!!!
De F.M. a 12 de Março de 2008
Chão sagrado! Nele rompi as sandálias da infância, os Ténis da juventude e os sapatos de adulto.
De attenti al gatti. a 13 de Março de 2008
Há horas de sorte! Nem sabia que se chamava "Larga" porque sempre a conhecí como "Rua Nova". Em flash back vejo na parede branca, ao fundo do lado esquerdo, no enfiamento do último poste, um portão de ferro largo e baixo, sempre aberto, onde começava um caminho que ia dar a uma quinta (Olaias?). O trigo chegava ao muro desse lado e, quando ondulava com o vento, fazia um remoínho fantástico, junto ao tal poste. Do mesmo lado, no exremo contrário estão o que penso serem os restos de umas barracas, que arderam numa noite de Natal, tendo morrido gente, o que deu direito a notícia de jornal e a "romaria " no dia seguinte.Do lado contrário, um pouco atrás do autocarro, lá está o troço da Azinhaga ( do Carrascal, seria?) que levava ao "Casal Novo 1888", segundo inscrição sobre o portal,(que jaz sepultado sob aterro da Escola António Arroio) acabando logo a seguir no aterro da R. Ferreira do Amaral. Daí para cima era caminho de pé-posto. Mesmo nestas condições, teve de servir de caminho alternativo ao trânsito de ligeiros, quando a R. Nova, não obstante sê-lo efectivamente, teve um aluimento do piso, deixando a Picheleira sem autocarros e sem o seu melhor acesso. Entre a Azinhga e o tapume à direita, no limite da fotografia, costumava assentar arraiais uma pista de carrinhos de choque. Este tapume serviu de frente a um negócio de ferro-velho, que mais tarde se transferiu para o gavêto da C. Falcão com a F. do Amaral, ocupando as instalações da Pastelaria Chinesa, cuja vida foi efémera, talvez por ser demasiado "chic" para o local em questão. Seguia-se, mais ou menos por esta ordem, a padaria (técnicamente, um depósito) do tal pastel de nata "de palha", uma pequena tasca, uma loja de candeeiros, outra tasca, atípica e maior que a primeira e finalmente o prédio (que vê na outra foto) do "Manelinho", um "menino fino" cujos pais tinham uma capelista na R. Barão de Sabrosa, fente à Calçada da Ladeira. Nesta última tasca começava- se a fritar chicharro ainda antes de o Sol nascer e que era adquirido pelos "homens das obras" a caminho do trabalho e guardado nas "lancheiras", umas robustas malas em madeira e cuja tampa abria lateralmente para poderem servir de assento. O cheiro da fritura era pouco abonatório da qualidade do óleo, experiente conhecedor de várias gerações de peixes. Perante cheiros identicos, era frequente ouvir-se na Picheleira a frase "cheira a fritos do Rodrigues".
Fico-lhe grato pelo feliz achado e pelas recordações que ele me touxe. Cordiais saudaçõs.
De Bic Laranja a 14 de Março de 2008
Há horas de sorte pois! Este seu comentário fez ao verbete o mesmo que o vento fazia ao trigo da Quinta das Olaias, de cujo portão só guardo memória por ouvir o meu irmão falar. O casal Novo 1888 já o sabia sepultado lá onde diz. A azinhaga que por ele passava chamava-se precisamente Az. da Picheleira, que no troço a partir da parede branca que lhe dá o flashback ganhou foros de calçada nos alvores do bairro. A Rua Larga seria com a mesma propriedade Rua Nova, dois casos de toponímia popular (a mais natural). É emocionante ouvir velhas novidades e belas descrições destes lugares. Todo o cenário volta a ganhar vida. Muito obrigado pelo seu extraordinário comentário. Cumpts .

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