Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

Orlando Ferro

 A história.
 É meia desgarrada.
 Em Dezembro de 87 fiz um périplo por terras do Sul. Umas conhecia, outras ouvira só falar, outras nem nada: - Odiáxere foi um nome estranho que aprendi. - Agora que puxei o fio à memória, 87 mostra-se-me como um ano completo, menos radioso e estival do que a sensação que me dá ao ouvir as velhas cantigas que povoaram o meu walkman. Devo ter sublimado as coisas a dado ponto...
 O ano começara mal. Em Janeiro falecera-me o avô João e passada uma semana a minha mãe. Os estudos não marcharam; a tropa, inevitavelmente, interpôs-se. Em 88 entraria nas fileiras. Um desabono! Quando a Glória - acho que era Glória, a moça da Norma - me perguntou se queria fazer umas entrevistas no fim-de-semana - "É na província, ganha-se mais", disse - aceitei. - "Vais com o Orlando. Ele leva o carro e orienta o resto."
 Quem era o Orlando? Como faria eu...?
 Era um engenheiro reformado. Andava naquilo dos estudos de mercado para passar tempo, dizia a Glória. Apresentou-mo. - "Orlando Ferro. Muito prazer!" - e procurou acertar rapidamente as agulhas: - "Moro nos Olivais. Pode estar sábado de manhã a tal hora no Relógio?"
 Ficou combinado. Ao pé da Shell.
 À hora marcada havia outro freguês da Norma para se juntar a nós que vim ao depois por coincidência a reencontrar na tropa. Mas já lá vamos: às coincidências...
 Abalámos à hora marcada e fomos bater Évora e a seguir Beja. De permeio demos num lugarejo qualquer nos arredores de Évora. Dali demos boleia a um magala até não sei onde - até uma estação de comboios, parece-me. Não me lembro por onde começámos o Algarve mas lembro-me bem onde pernoitámos. O Orlando levava-a fisgada: tinha alojamento na Aldeia das Açoteias; um apartamento de férias da família. Era Dezembro, podíamos pernoitar lá de graça e embolsar a diária por inteiro. Nada mau. Foi assim que fiquei a conhecer a Aldeia das Açoteias, afamada então pelo Cross das Amendoeiras em Flor e pelos estágios de pré-época do Sporting, mas já em início de decadência, via-se. Mais tarde vim a conhecer melhor o lugar, já em época estival, por causa dum namoro - mas não vem ao caso. Adiante.
 O restante périplo resume-se ao fim e ao cabo pelo nome dalgumas terras algarvias - Odiáxere, incluida. A última cidade que parámos foi Ourique - curioso que também começa por 'o'. Ao depois deste périplo não soube mais do engº Orlando Ferro.

 Em pequeno, dalguns passeios que dava, tinha juntado alguns postais. Sabendo disso, uma namorada do meu irmão - a que me deu o primeiro livro dos Cinco - viu-os e resolveu oferecer-me a colecção que tinha. Talvez se quisesse livrar dela. Eu gostei dos postais, eram muitos e de variadas terras; guardei-os numa caixa de sapatos. Ainda guardo. Há anos - já muito depois do périplo de 87 pelo Sul - vi que um dos postais da colecção fora circulado em 1978 para a Rua de Manhiça que é nos Olivais... Vede só a quem era dirigido!...
 Não é isto, bem sei, conto nenhum de Natal, nem há aqui sequer uma moral da história. Há só que o mundo é pequeno.
 Em todo o caso Feliz Natal!



Sete Cidades - As Lagoas, Açores, [s.d].
Sete Cidades - As Lagoas, Açores, [s.d].
Postal circulado de Ponta Delgada para Lisboa no Natal de 1978.

Escrito com Bic Laranja às 22:09
Verbete | comentar
13 comentários:
De Luciana a 23 de Dezembro de 2008 às 23:34
História curiosa, sem dúvida. O mundo dá cada volta! Há pessoas que parecem já estar destinadas a cruzar-se connosco… Digo eu, que acredito um pouco nessas coisas.

Engraçado... no ano de 1987 também rumei para Sul, mas mais para os lados da Ria Formosa. Foi um ano bem cheio para mim… Pensar que já passaram 21 anos! :-0

Em relação ao postal, gosto especialmente das hortenses. Talvez por causa da minha avó açoriana (embora eu não tenha chegado a tempo de a conhecer).

Abraço
De Bic Laranja a 25 de Dezembro de 2008 às 13:39
É o destino, costumava dizer-se.
Cumpts.
De Luciana a 28 de Dezembro de 2008 às 12:03
Sim. O tal que marca a hora e a data de tudo… até de nos encontrarmos com os outros.

Abraço
De teresamaremar a 24 de Dezembro de 2008 às 01:04
O seu conto lembrou-me um episódio curioso [embora também sem moral].

Comprei há uns anos, num alfarrabista, um livro de Maria Amália Vaz de Carvalho. Livro pequeno que se lia de um trago, li-o num dia. E, quando chego ao final, escrito a lápis, "Este livro foi lido no dia 30 de Abril de 1927" e assinava nome ilegível.
Foi um calafrio imenso, era 30 de Abril de 1997, precisamente 70 anos depois.
E um número infinito de questões quanto ao outro leitor/a não identificado.

:) claro que escrevi por baixo "E por mim lido a 30 de Abril de 1997", com nome legível.
Quem sabe alguém o percorra, num outro 30 de Abril, daqui a umas quantas décadas.

Um Bom Natal para si


De Bic Laranja a 25 de Dezembro de 2008 às 13:42
Uma coincidência tão redonda impressiona.
Obrigado! Boas Festas também!
De MCV a 24 de Dezembro de 2008 às 11:46
Caro amigo:
Estas histórias são sempre deliciosas.
E vem esta também ponteada com locais da minha vida.
Abraço
De Bic Laranja a 25 de Dezembro de 2008 às 13:43
Odiáxere, quere lá ver?!...
Abraço e boas festas!
De Ana Vidal a 27 de Dezembro de 2008 às 01:09
Engraçado seria o Orlando Ferro vir parar ao seu blogue, caro Bic. Não é impossível...
De Bic Laranja a 29 de Dezembro de 2008 às 21:50
Há vinte anos era pessoa de certa idade. Mas nunca se sabe.
Cumpts.
De Afonso Henriques a 28 de Dezembro de 2008 às 10:34
"Em terras de O quem é Orlando é rei"
(provérbio suevo escrito ao de leve na pata direita do lado esquerdo da porca de Murça, em Murça)

Cumpts
De Bic Laranja a 29 de Dezembro de 2008 às 21:51
E passámos em Olhão, faltou dizer. Cumpts.
De T a 28 de Dezembro de 2008 às 14:29
O mundo é redondo e os objectos circulam. Tenho tido muito boas surpresas à conta disso. Até conheci o avô do Manuel! Risos.
De Bic Laranja a 29 de Dezembro de 2008 às 21:53
Conheceu?!... Cada vez mais bem relacionada, bem vejo. Há-de-me contar essa. Cumpts.

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