Sábado, 31 de Janeiro de 2009

Obras e calceteiros

 Os reformados, é sabido, têm um certo fascínio por obras. Cuido que as crianças e os governantes também. Pelo menos eu em criança tinha.


Casas que antecederam o prédio do alfaiate, Picheleira, 1969.

 Na minha rua, dantes, não havia grandes obras. Houve o prédio do alfaiate ao lado da mercearia do sr. Albino. Quando o fizeram, devia eu ter três ou quatro, puseram uma escavadeira a tirar terras. Eu gostava tanto de vê-la no afã de carregar as camionetas que me debruçava da janela. A minha mãe afligia-se, temendo que caísse. Depois disto julgo que só levantaram outro prédio lá na rua já nos anos 90. Foi quando demoliram o 8, uma casinha onde morara o careca da leitaria, para fazerem um prédio de r/c, 1º e 2º. Foi pena a casa, que era característica dos primórdios do bairro, mas nessa época foi já obra para mim sem interesse...



Casa do careca da leitaria, Picheleira, 1969. 

 Uma obra que em pequeno via habitualmente fazer era calcetarem a rua. Não digo só calcetar buracos, que os havia poucos, mas calcetar o passeio de empreitada em todo o comprimento da rua. Numas vezes vinham a companhia das águas ou do gás abrir caboucos a meio dos passeios ou rente às paredes das casas. Ele devia ser por causa das canalizações. Lembro-me que punham pranchas de madeira com travessas pregadas que pareciam as dos barcos da Trafaria, mas mais pequenas, para as pessoas entrarem nos prédios. Noutras vezes - que eram as mais delas - vinham os homens da Câmara com picaretas levantar as pedras todas que amontoavam longitudinalmente ao passeio, ora na estrada, ora no próprio passeio. Vinham só alinhar [nivelar] os passeios, não cavavam buracos. Ao depois que alinhavam [nivelavam] o terreno calcetavam tudo muito bem, espalhavam a areia para colmatar os intervalos das pedras e, tinha graça, regavam com um regador de alumínio [de zinco, digo,] antes de calcarem com os maços. Não punham cimento como há quem ponha hoje impermeabilizando a calçada; e o trabalho era todo manual, não havia máquinas.

Obras municipais: calceteiros, Av. da Liberdade (J. Benoliel, 1907)
Obras municipais: calceteiros, Avenida da Liberdade, 1907.

 Estas obras de abrir caboucos nas ruas ainda as há, por causa das TV por cabo e assim; já as de alinhar [nivelar] o pavimento da calçada acabaram vai para mais de trinta anos (tanto quanto vejo). São provavelmente coisa mesquinha para a grandiosa civilização dos megaprojectos de requalificação disto, de reabilitação daquilo, ou para desenvolvi-
mento sustentável já não sei do quê mais.
 Ontem, com a chuva, afundei os pés numa cova do passeio cheia de água à saída da padaria. Como eu chapinhei outros poderão cair. Agora apregoem-me os modelos de excelência para qualidade de vida!...

Obras Municipais, L. D. João da Câmara (J. Benoliel, 1907)
Obras municipais: calceteiros, Largo Dom João da Câmara, 1907.


Fotografias: Picheleira, Arnaldo Madureira; calceteiros, Joshua Benoliel; todas do Arquivo Fotográfico da C.M.L..

Escrito com Bic Laranja às 15:32
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10 comentários:
De cabo carvoeiro a 31 de Janeiro de 2009
Também passava horas a ver calcetar os passeios, só tenho pena que com a tecnologia moderna não tivessem inventada uma maquina para que os passeios pudessem ficar lisos, que é o único defeito que têm os nossos passeios, é pena, que é uma das nossas características , e estou a ver que daqui por uns anos vai deixar de haver profissionais neste ramo.
De Bic Laranja a 31 de Janeiro de 2009
Vai. Mas ao depois não se calam com o desemprego.
Cumpts.
De Isadora a 31 de Janeiro de 2009
É pena não haver um Calceteirozinho para tapar os buracos das nossas estradas ,o peneuzito dos nossos carros agradecia
Cumpts
De Bic Laranja a 1 de Fevereiro de 2009
Mas há concessões para grandes redes rodoviárias no Baixo Tejo e no Baixo Alentejo...
Cumpts.
De Luciana a 2 de Fevereiro de 2009
É impressão minha, ou os calceteiros agora só sabem “pregar” as pedras todas aos altos e baixos?

Quanto à Picheleira, ainda me lembro dela no tempo em que parecia quase campestre. Em que as Olaias eram só campo aberto e barracas. E nada de prédios pseudo-finos.
No início dos anos 80 ia lá muitas vezes. Tinha lá um namoradito… :-)

Abraço
De Bic Laranja a 3 de Fevereiro de 2009
No início dos anos 80 passou por lá o Taveira. Pela encosta das Olaias e pela que lhe fica defronte, na zona J. Os vindouros hão-de possivelmente admirar o legado. Eu não.
De calceteiros sabe-se hoje muito pouco...
Cumpts.
De Attenti al Gatti a 2 de Fevereiro de 2009
O prédio do "Careca da Leitaria" era a casinha entre o prédio do Exército de Salvação (também ele com mau início, pois teve um desabamento durante a construçáo) e o jornaleiro (ex-tasca onde pontificavam as tripulações do 11 e do 11A)? A ser assim, foi demolida já neste século, não haverá mais de 4 anos para dar origem a um prédio em cunha, cujas áreas habitáveis, atendendo à área do terreno, devem primar pela exiguidade. Também foi óbvia a dificuldade em concluir a obra.
a.v.o.
De Bic Laranja a 3 de Fevereiro de 2009
Preciosas achegas. Que agradeço. O Manel jornaleiro ainda nos meados de oitenta fazia a volta ao bairro apregoando o jornal da tarde. Foi o último a que ouvi o pregão. Não sei se já não faleceu.
Cumpts.
De Attenti al Gatti a 5 de Fevereiro de 2009
Infelizmente também não sei o que é feito do Manel Jornaleiro. Há muitos anos ter-lhe-ei comprado um dos últimos exemplares do "Diário Popular", já moribundo, a um Sábado, que era quando o jornal publicava um suplemento que eu muito apreciava. Tenho ideia que, mais ou menos nessa altura, o Manel terá deixado a sua itenerância de ardina, fixando-se mais a mulher na antiga tasquita, cujo final antecedeu, creio, a mudança do término dos autocarros para a porta do Príncipe Ibor (a propósito, nunca soube se tinha sido a alcunha do "Príncipe" a dar o nome ao "estaminé" ou vice-versa). Aos poucos a mulher e o filho assumiram maior presença no estabelecimento enquanto a do Manel se ia diluindo, até desaparecer de vez, passando à história.
Quanto aos calceteiros, recordo-me que rodavam pela cidade, em busca de passeios necessitados de reparação, empurrando um carrinho-de-mão onde carregavam os instrumentos e materiais do ofício, nomeadamente o martelo-picão, o maço, o regador de zinco (e não de alumínio), a pá, uma vassoura, areia e pedras de calçada. Enfiado no braço do carro-de-mão traziam o banquinho, que mais não era que quatro peças de cortiça, unidas em forma de um pequeno quadrado, raramente utilizado pois as mais das vezes trabalhavam de cócoras assentando, frequentemente, o queixo num dos joelhos, posição que eu e outros putos tínhamos tendência em copiar, vá-se lá saber porquê.
A.v.o.
De Bic Laranja a 5 de Fevereiro de 2009
O careca da leitaria devia achar-se príncipe...
Tomo nota do regador de zinco. Cumpts.

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