Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Palacetes irreais

Há dias dei conta que se montava um estaleiro em frente do nº 35 da Duque de Loulé...

A35191.jpg
Ministério da Justiça, Direcção Geral dos Registos e do Notariado e Conservatória dos Registos Centrais, Lisboa, 1961.
Augusto de Jesus Fernandes, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..


 No fim, em Lisboa, nenhum palacete há-de resistir ao camartelo que a ganância imobiliária brande. Leio no blogo da Cidadania LX que se prepara um prédio de oito andares e que logo ao lado, um mamarracho de gosto inqualificável que é da Sociedade Portuguesa de Autores, está inventariado na Carta do Património anexa ao Plano Director Municipal. - O palacete neo-gótico do nº 35 não! - Até dói o coração. Quando o mau gosto campeia é demolidor. Resigno-me e faço já por esquecer. É que não tarda hão-de somar-se-lhe os últimos dois palacetes que restam na Avenida João Crisóstomo (do nº 40 foi a P.S.P. despejada à má fila no ano passado, o que demonstra bem quem manda).
 E mais dois que definham no gaveto da Av. Fontes Pereira de Melo com a Av. 5 de Outubro.
 E mais o nº 1 da Av. da República que já está bem como há-de ir, não fora o Instituto de Beleza...
 E mais o nº 1 da Rua Rebelo da Silva; e mais a moradia do nº 2 da Av. António Augusto de Aguiar, &c., &c, &c....
 Resignar-me é, pois, o melhor remédio, que é para não morrer destes cuidados.

Av. João Crisóstomo, 38-40, Lisboa, 2008.
Av. João Crisóstomo, 38-42, Lisboa, 2008.

Av. Cinco de Outubro, 2, Lisboa, 2008.
Av. Cinco de Outubro, 2, Lisboa, 2008.

Av. da República, 1, Lisboa, 2008.
Av. da República, 1, Lisboa, 2008.

Escrito com Bic Laranja às 19:19
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4 comentários:
De Luciana a 21 de Março de 2009
Sempre que leio estas coisas, nunca consigo deixar de pensar no massacre a que assisti - e acompanhei muito de perto - do Número 8 da Fontes Pereira de Melo. Visitei o seu interior inúmeras vezes, a última das quais já muito próximo da sua implosão. Mesmo já mutilado, era duma enorme riqueza em Arte Nova.
Não havia palacete em Lisboa que mais me encantasse (mesmo tendo uma fachada pouco “exuberante”).
Lembro-me de ainda ter dado algumas fotos - que tinha tirado no seu interior - a uma pessoa minha próxima, para que as mostrasse numa reunião de património da Câmara, na tentativa de o salvar. Mas claro que nada foi feito… Os abutres já tinha tomado conta!
No dia em que deram cabo dele – ironicamente o dia do meu aniversário - chorei copiosamente.
Resta agora o número 8 emoldurado na minha parede. Bastou-me isso para deixar finalmente de acreditar que, enquanto quem mandar em Lisboa for de tal calibre, é impossível salvar seja o que for… :-(
Abraço

PS- Ando desde o início do meu blogue para fazer um texto sobre o meu Número 8, mas a habitual falta de tempo tem vencido…
Penso que vou acabar por publicar só algumas das minhas fotos. Até porque assim ficam todos livres da minha veia piegas! :-)
De Bic Laranja a 21 de Março de 2009
Publique. Algum comentário se há-de arranjar.
Cumpts.
De Attenti al Gatti a 23 de Março de 2009
A essa trágica lista, podem-se juntar muitos mais, entre palacetes, "chalets", prédios e também residências mais populares, como as "vilas" e as "varandas".
O que não falta por aí são imóveis a degradarem-se.
Basta vêr como está a Baixa ou o eixo Av. 24 de Julho/Av. da India, que parece ter sofrido um bombardeamento.
Mas na verdade, quem é que hoje querería morar na Baixa ou na Av. da Liberdade? Mesmo com casas em bom estado, quem é que está para subir as escadas de um 5º andar carregado de compras, ou passar pelo inferno diário de arranjar um sítio para estacionar o carro, ou suportar poluição e barulho constantes? Isso e o resto, atiraram as classes populares para periferias sem graça e cada vez mais distantes. Mesmo as classes endinheiradas que habitavam as zonas mais nobres da cidade, hoje preferem a Expo, ou os condomínios privados, muitas vezes, também, fora de Lisboa.
O primado da propriedade privada, a ausência de políticas acertadas e a incapacidade de quem manda, abriram as portas à betonização cega, à falta de qualidade e à desertificação.
Esses belos edifícios que agora agonizam, são corpos decrépitos que não tendo ainda perdido a beleza, já há muito perderam a alma, tal como a cidade que os rodeia.
A.v.o.





















De Bic Laranja a 23 de Março de 2009
Tal como a gente que já lá não mora.
Bom! Parece que fica tudo dito.
Cumpts.

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