Sábado, 25 de Abril de 2009

Caracol da Penha

 Numa jornada atrasada vinha eu na Rua de Arroios. Tinha o propósito de chegar ao Largo e dizer algo da sua história mas detive-me um pouco abaixo para falar antes na Fábrica de Lanifícios; entretanto dispersei-me. Torno aqui àquele caminho, mas antes de prosseguir para Arroios merece o benévolo leitor que reproduza aqui o que nos disseram os autores antigos sobre o (passe a repetição) antigo Caracol da Penha:

Rua Marques da Silva, Lisboa (A.Goulart, s.d.)
Rua Marques da Silva, Lisboa, [s.d.].
Artur Goulart, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

« Marques da Silva (Rua) — Freguesia de Arroios e da Penha de França — O nome mais antigo que sabemos ter tido é o de calçada da Penha de França (desde 1710), passando alguns anos depois, ao tempo do terremoto, a ser designada por Caracol da Penha ou por travessa do Caracol da Penha.
   Castilho, que na sua Lisboa Antiga [vol. IX, 2ª ed. p. 173] se ocupou desta serventia pública, diz-nos: « O próprio Caracol da Penha (que parece tão calado) se o interrogarmos, dir-nos-á que ainda em 1857 não era mais que uma estreita e pitoresca azinhaga, com foros de caminho de pé posto. Passar aí de noite, só Amadis de Gaula ou Ferrabraz da Alexandria; quaisquer outros mortais eram exterminados.
   « Em sessão de 2 de Abril desse ano de 1857 (nos dirá o Caracol) recebeu da Câmara de Lisboa participação de haver sido aprovada pelo Conselho Distrital a deliberação tomada em 2 de Março antecedente, para expropriação de certo terreno afim [sic] de se começarem ali alguns melhoramentos projectados (Anuário do Mun. de Lisboa, 1857, n.º 33, p. 260).
   « Em sessão de 10 de Dezembro, autoriza a Câmara o alargamento do Caracol, segundo a planta do engenheiro (Idem 1859, n.º 44, p. 361).
   « Finalmente, em 11 de Julho de 1859 determinou-se que se anunciasse a arrematação da obra da muralha (Id., ib.), na estrada que trepa elegantemente aquela encosta a pino.»
   As obras então ali feitas tiveram incontestàvelmente alguma importância, e por isso, em 1863, Vilhena Barbosa já nos dizia: « do lado oeste mostra o monte a sua maior altura com muito íngreme declive, por onde dantes subia o escabroso e tortuoso caminho chamado Caracol da Penha de França, que ora vemos substituído por uma bela estrada macadamizada, em zig-zag, orlada de árvores e iluminada a gaz» (Arq. Pitoresco, vol. VI, p. 71.).
   No entanto não teriam de ser estes os últimos melhoramentos com que a Rua foi beneficiada, e assim, chegados a 1891, vemos a que a artéria tinha sido de novo alargada, se não em toda a sua extensão, pelo menos na parte que desemboca na Rua de Arroios. Neste ano, também, foi a rua crismada e da pitoresca denominação de Caracol da Penha passou, insìpidamente, a ter a de Rua Marques da Silva. Assim o determinou o edital saído a 5 de Outubro.
   Perguntemos agora: Marques da Silva porquê? [...] »

Luiz Pastor de Macedo, Lisboa de Lés-a-Lés, vol. IV, Pub. Culturais da C.M.L., Lisboa, 1968, pp. 52-54.

Rua Marques da Silva, Lisboa (A.Goulart, s.d.)
Rua Marques da Silva, Lisboa, [s.d.].
Idem, ibidem.

Escrito com Bic Laranja às 13:45
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12 comentários:
De O Jansenista a 25 de Abril de 2009
A Rua Marques da Silva é o verdadeiro quebra-costas de Lisboa. Há uns anos namorei por lá uma casa com vistas assombrosas, mas calculei rapidamente que não me restariam muitos anos com fôlego para subir o declive...
De Bic Laranja a 25 de Abril de 2009
Tem razão. É o lado mais inclinado do monte. Só a Calçada do Poço dos Mouros se lhe aproxima.
Cumpts.
De T a 25 de Abril de 2009
"Para o alargamento paralelo da Travessa do Caracol da Penha, compreendido entre a projectada Avenida dos Anjos e a Rua de Arroios, foi cedido à Câmara gratuitamente, quase na totalidade por João Marques da Silva, o terreno de sua propriedade denominado Quinta da Imagem”.

Constata-se assim que João Marques da Silva terá sido um benemérito, que ao ceder terrenos à Câmara alcançou o reconhecimento das gentes da sua época e o seu lugar na toponímia da cidade. "

Diz o site da Toponimia que eu cá nem fazia ideia
Mas quinta da Imagem é um bonito nome:)
"
De Bic Laranja a 26 de Abril de 2009
Decifrado o enigma, resta contar a sua história... Cumpts.
De T a 26 de Abril de 2009
Ninguém melhor para contar a história da Quinta da Imagem do que o caro Bic:)
De Bic Laranja a 26 de Abril de 2009
Castilho, Pastor de Macedo, sim. Eu não. Cumpts.
De T a 26 de Abril de 2009
E de quem é o caro Bic descendente? Homessa! Conte:)
De Luciana a 26 de Abril de 2009
Bela visita guiada pela nossa Lisboa… Num só texto tanto, tanto para ver e (re)lembrar!...

Esta é, curiosamente, uma zona que conheço muito bem. Duas das minhas amigas de infância viveram por aqui. Uma no prédio mesmo ao lado do que aparece em primeiro plano.
Subi esta rua tantas e tantas vezes…

A casa ao fundo da rua era – até final dos anos 90 - uma maternidade. E mais à frente existia o velho Clube de Arroios, onde cheguei a ir a algumas festas (embora fossem para maiores que eu! :-) ).
Na esquina com a Almirante Reis existia um dos primeiros centros comerciais de Lisboa (que, embora fosse pequeno, chegou a ser bastante concorrido). Ainda lá fui várias vezes com um namoradito, que também não morava muito longe dali.

Enfim! Eu não digo que esta é mesmo a nossa - neste caso minha - Lisboa… :-)

Abraço
De Bic Laranja a 26 de Abril de 2009
É novidade para mim essa maternidade. Ao fundo, em chegando à Rua de Arroios?
O centro comercial é o Habib, se não mudou de nome. Mantém-se, e diante dele, nas traseiras da fábrica da Portugália, fizeram um outro; ambos são uma desgraça. De resto o troço contíguo da Almirante Reis é desgraçado, com os mendigos que se acolhem nas arcadas dos prédios. E só piora dos Anjos ao Socorro.
Cumpts.
De Attenti al Gatti a 26 de Abril de 2009
Existiu,de facto, a Clínica de Stª Bárbara, do lado direito de quem sobe a R. Marques da Silva, logo a seguir à Av. Almt. Reis. Deve ter fechado há meia dúzia de anos. Conheço vários rebentos que alí vieram ao mundo, alguns há mais de 40 anos. Mais ou menos em frente existe, ou existiu, uma funerária que tinha ao lado, talvez não por acaso, uma loja que vendia roupa usada. Logo a seguir, à esquerda, a R. Heróis de Quionga, que pontuou várias etapas da minha vida.
A.v.o.
De Attenti al Gatti a 26 de Abril de 2009
Acima, por lapso, escreví Clínica de Stª Bárbara quando, na verdade, era S. Gabriel.
De Attenti al Gatti a 27 de Abril de 2009
Na primeira foto, por cima da camioneta que está parada à direita, vê-se o portão de uma escola (Escola Selecta - sería?) na R. Marques da Silva. A Clínica de S. Gabriel, de que já aquí falei, ficava-lhe contígua, logo abaixo.
A.v.o.

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