Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

Avenida da República, 46 — Lisboa

Av. da República, 46-48; Lisboa (A.C.Lima, s.d.)

 
 Há coisas de nada que, quando nelas reparo nem sei que dizer.
 Por desfastio procurava a D.G.E.M.N.; deparei-me com um I.H.R.U.. Enquanto a espuma dos dias pousa nos buracos da calçada e a carrinha do Exército de Salvação distribui a sopa do Sidónio no Jardim Constantino a nossa administração pública recria-se: reestrutura-se, redenomina-se...
 Um portal na Internete, uma declaração de propósitos — O I.H.R.U., I.P. tem por missão blá blá blá, política definida pelo Governo olaré, habitação, reabilitação urbana, mais blá, Política de Cidades [assim mesmo, com maiúscula, porque tem laivos de ciência], mais blá blá salvaguarda e valorização patrimonial, blá blá, blá blá... -, afirmação dos valores do serviço público, rigor financeiro, nova filosofia de organização... tudo devidamente sustentado e sustentável na cartilha do POS_Conhecimento, com os devidos sinais da autenticação oficial e mais uns autocolantes da Ouropa, também oficialíssimos, como impõe o figurino de Bruxelas, porque se a miséria tem direito a subsídio, os fundos estruturais têm direito a propaganda.
 Tudo isto está lá no I.H.R.U.. Tudo isto enjoa. Deus queira que chova, que as ruas da cidade precisam ser lavadas e na administração pública não há lugar para almeidas; há só gestores de projecto. Nem para varrer servem e podia ser que a enxurrada os lavasse. - Ou Deus queira que não chova, que as sarjetas entopem e depois não há almeidas...
 A esquizofrenia das medidas em pacotes avulsos tem destas porcarias: a realidade é esta, a dos símplices (ou simplexes, para se perceber melhor); a realidade lá fora, na rua, é uma outra coisa completamente diferente que ninguém quer saber. Se for chata muda-se por decreto...
 O nº 46 da Avenida da República em Lisboa, esse, chegou à miséria que se vê. A ficha de inventário da D.G.E.M.N. é uma miséria ainda pior (cf. nº I.P.A. PT031106230476): há-de ter sido feita por alguma estagiária, que entretanto foi à vida; nada lhe foi acrescentado desde 1998. A D.G.E.M.N., reestruturada ou não, também não é para isto; deve ser para qualquer coisa que nem sei dizer.

 

Av. da Republica, 46 (c) 2009

 


 

 


Notas:
Edifício de habitação na Avenida da República, n.º 46, Lisboa, Nossa Senhora de Fátima; projecto de construção do arq.º Miguel Ventura Terra, 1906. Fotografias antigas de Alberto Carlos Lima, c. 1910 (fachada poente); Nuno Barros Roque da Silveira, 1972 (frisos de azulejo), as três do Arquivo Fotográfico da C.M.L.. Fotografia actual: Bic Laranja, 2009.
(Texto revisto em 3/8/09 a ¼ para as 6h00 da tarde.)

Escrito com Bic Laranja às 00:10
Verbete | comentar
14 comentários:
De Attenti al Gatti a 15 de Maio de 2009
É um artigo "indefinido" que, por acaso, também é urbano.
A.v.o.
De Bic Laranja a 16 de Maio de 2009
Um verbete vago, quer dizer...? Talvez.
Cumpts.
De Luciana a 16 de Maio de 2009
Triste, triste, é comparar as duas fotografias...
Na primeira, numa das varandas, parece ver-se os donos do 1º - ou seria o 2º? - andar, inspeccionando as vistas da sua casa novinha em folha.
Na segunda, a mesma varanda está totalmente fechada - e escondida – e desapareceu já o lindo envidraçado de esquina. Desapareceu também – já há muito - todo o encanto e vida da rua/avenida…

Tristíssimo exemplo do imenso desrespeito, próprio de quem só ouve o som das moedinhas e dos poleiros… :-((

Abraço
De Bic Laranja a 17 de Maio de 2009
Uma família do 1º andar pôs-se à varanda para a fotografia. Repare que são sobretudo crianças; a uma parece a mãe (ou ama) dizer baixando-se à altura da criança: - "olha ali o sr. fotógrafo a tirar-nos o retrato".
Na rua há um alfacinha janota especado.
Quem seriam?
O estado a que chegou deve-se à incúria da Câmara e à inépcia da D.G.E.M.N.. Já viu as sacadas da esquina? Faltam as duas de cima. Calhando cairam na cabeça dos responsáveis da C.M.L. e dos E.M.N.; por isso anda tudo neste estado.
Cumpts.
De Ela a 16 de Maio de 2009
Saí de Lisboa há 10 anos. Sou alfacinha de terceira geração. Nasci e vivi até ao fim do curso pelas Avenidas Novas, mas quando chegou a altura de arranjar casa própria, os preços atiraram-me para os subúrbios. Isto, apesar de casas como esta já estarem a degradar-se. Voltei à minha terra assim que pude, mas depressa desisti, saí e proporcionei aos meus uma vida mais fácil, numa casa com muito mais condições, na província. Lisboa continua a ser a minha terra, mas o barulho, o cheiro e a miséria que se observa nos edifícios da cidade que é a minha (a do percurso original do Metro + Campo de Ourique) - tudo isso me entristece e me atira para fora dela, cada vez mais. Continuo a votar em Lisboa, mas sem alento. Imagem do país que temos, a cidade exige muito a quem não pode e oferece pouco a quem precisa. Estes prédios, como aquele em que viviam os meus avós, numa esquina da defensores de chaves, vão cair de podres. Deixam crateras emocionais, mas permitem que alguns primos vão enchendo os bolsos, com negócios "da China". Sou, portanto, provinciana - aqui é tudo igual, mas os bolsos são mais pequenos.E todos podemos andar a pé, à noite.
De Bic Laranja a 17 de Maio de 2009
A cidade exige muito a quem não pode e oferece pouco a quem precisa. Nada mais certo. E votar, onde quer que seja, não parece adiantar...
Grato pelo seu comentário.
Cumpts.
De André Santos a 17 de Maio de 2009
Já conhece o projecto que há para ali?
É por estas e por outras, muito parecidas, que muitas vezes prefiro ver tudo a apodrecer lentamente. Esventramento de interiores e subida de um ou 2 pisos, como manda a moda.
Ao menos quando apoderecem lentamente ao longo dos anos e ninguém se lembra deles escapam ás modas.
Esta não é uma boa altura para ser edificio devoluto...

Cumprimentos
De Bic Laranja a 17 de Maio de 2009
Não conheço. Imagino o género...
O crime contra a memória da cidade não vem no código penal. Nem o crime de achar malas cheias de dinheiro, que é enriquecimento lícito...
Cumpts.
De Isabel Marques a 21 de Maio de 2009
Tenho vindo a fazer o levantamento dos trabalhos de arquitectura de Ventura Terra há já 4 anos. Tarefa extremamente dificultada pela ausência de espólio de arquitecto. E este edifício é, na minha opinião, um dos que melhor caracteriza o seu trabalho. Tem um átrio de entrada e uma escadaria interior em caracol simplesmente lindíssimos.
Quando soube da sua demolição fiquei mesmo muito triste e desiludida. O edifício não está em tão mau estado que tenha que ser desventrado! Era uma questão de se preservar pelo menos uma parte do seu interior.
Mas claro, os arquitectos parolos, responsáveis pela mortandade na arquitectura das avenidas novas, não têm, como há muito sabemos, qualquer sentido estético, para não dizer histórico!
E a Câmara Municipal, com muito orgulho na sua campanha de "carimbar" edifícios com o seu "APROVADO", ainda acha que está a fazer um imenso favor à cidade!
Carniceiros da arquitectura!
De Bic Laranja a 21 de Maio de 2009
Os que vêm assinando o óbito das avenidas sem qualquer gosto ou respeito pelo que seja hão-de eles cair também pela mão gananciosa dos vindouros. A coisa está de tal forma que só pode piorar.
Cumpts.
De marques a 14 de Julho de 2014
Boa tarde,

O edifício da avenida da republica não vai ser demolido . A fachada vai ser mantida e vai ser uma unidade hoteleira.
De Bic Laranja a 17 de Julho de 2014
Bem sei. Demoliram só a parte de trás da fachada, logradouros incluídos. O resto do edifício felizmente salvou-se.
Cultura de fachada, é o que é.
Cumpts.
De Tiagovas a 13 de Novembro de 2018
A minha tia avó casou no 3 andar deste prédio no ano de 1913.
De Bic Laranja a 18 de Novembro de 2018
O prédio não existe. A cultura de fachada demoliu-lhe o interior e adulterou-lhe a dita com caixilharia foleira.
Marcas da monumentalidade possível hoje em dia.
Cumpts.

Comentar

Julho 2020

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Visitante


Contador

Selo de garantia

pesquisar

Ligações

Adamastor (O)
Apartado 53
Arquivo Digital 7cv
Bic Cristal
Blog[o] de Cheiros
Carmo e a Trindade (O)
Chove
Cidade Surpreendente (A)
Corta-Fitas(pub)
Delito de Opinião
Dragoscópio
Eléctricos
Espectador Portuguez (O)
Estado Sentido
Eternas Saudades do Futuro
Fadocravo
Firefox contra o Acordo Ortográfico
H Gasolim Ultramarino
Ilustração Portuguesa
Lisboa
Lisboa de Antigamente
Lisboa Desaparecida
Menina Marota
Mercado de Bem-Fica
Meu Bazar de Ideias
Paixão por Lisboa
Pena e Espada(pub)
Perspectivas(pub)
Pombalinho
Porta da Loja
Porto e não só (Do)
Portugal em Postais Antigos(pub)
Retalhos de Bem-Fica
Restos de Colecção
Rio das Maçãs(pub)
Ruas de Lisboa com Alguma História
Ruinarte(pub)
Santa Nostalgia
Terra das Vacas (Na)
Tradicionalista (O)
Ultramar

arquivo

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

____