Sábado, 8 de Setembro de 2007

Villa Balzac

 A dado passo d' Os Maias (cap. VI) Carlos visita de surpresa Ega na Villa Balzac, à Penha de França. Entusiasmei-me quando li esse passo porque estudava num liceu na Penha. Não sei porquê — por certo pela vetustez daquelas casinhas logo à porta do liceu, ou daquela vila ou pátio atrás da Praça António Sardinha, não interessa... — mas tinha uma vaga ideia que a Rua da Penha de França era caminho antigo; intuía-o pelo serpentear pouco rectilíneo na cumeada que vem desde Sapadores.
 O lugar da Villa Balzac desconcertou-me. Aliás começou por desconcertar Carlos — Carlos teve difficuldades em encontrar a «Villa Balzac»: não era, como tinha dito Ega no Ramalhete, logo adiante do largo da Graça um chaletsinho retirado, fresco, assombreado, sorrindo entre arvores.
 Eça ilustra melhor no passo seguinte o caminho mas não consigo situar a Villa Balzac.

« Passava-se primeiro a Cruz dos Quatro Caminhos; depois penetrava-se n'uma vereda larga, entre quintaes, descendo pelo pendor da collina, mas accessivel a carruagens; e ahi, n'um recanto, ladeada de muros, apparecia emfim uma cazota de paredes enxovalhadas, com dois degraus de pedra á porta, e transparentes novos dum escarlate estridente. » (*)

 Na altura imaginei que toda a adjacência da Rua da Penha era a larga hipótese e assim tornava-se difícil. Estreitando, mais não consegui que arrumar a Villa Balzac nas proximidades do Caminho de Baixo da Penha ao pé de Sapadores, embora no meu tempo de liceu não soubesse nem o nome dessa velhinha rua nem que os Quatro Caminhos eram em Sapadores.
 Assim fiquei! Refugiado numa difusa imagem da Penha de França bucólica, de veredas e quintais para diluir um tanto a frustração de não saber onde era a Villa Balzac.
 Se é que existiu.

Sapadores, Lisboa (A.I. Bastos, 1969)Rua [e largo] de Sapadores, Lisboa, 1969.
Fotografia de Artur Inácio Bastos, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..


(*) Eça de Queirós, Os Maias, v. I, [Porto], [Livraria Chardron], [s.d.], p. 193.
Escrito com Bic Laranja às 12:46
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4 comentários:
De João Nuno Sequeira a 3 de Novembro de 2007
Boa Noite
Começo por lhe dar os meus parabéns, como lisboeta "desterrado" no Alentejo, pelo seu blog.
Por aquilo que li neste post devemos ter sido colegas, ou pelo menos andámos no mesmo liceu na Penha de França. O único que conheço por aquela freguesia é o Luisa de Gusmão, emais abaixo, sem ser liceu, a Nuno Gonçalves.
Mas, de Qualquer forma, nasci e fui criado na Penha de França. nasci no nº 8 da Avª General Roçadas, quando a dita terminava no Vale Escuro, ou seja, onde foi construido o viaduto que a completou até Sapadores. Depois de prolongada, houve renumeração, e a minha casa passou a ser o 58.
Mas, a propósito deste assunto, e porque também me surgiu a mesma curiosidade quando li os Maias, indaguei junto de meu pai se existiam muitas casas antigas naquela zona quando para ali foram morar, em 1952, e o que me disse foi que existia uma casa, tipo chalé, em ruinas, na esquina da avenida com a Rua Dr. Lacerda e Almeida, portanto, sobranceira à quinta existente no local que actualmente corresponde à Praça Paiva Couceiro.
Adorei ver Sapadores nos velhos tempos. Ainda me recordo da placa central, e do grande movimento das carreiras da Carris, pois Sapadores era terminal de diversas linhas.
Descobri o seu blog quando procurava, por mera curiosidade, os velhos autocarros de dois andares, de marca AEC. Nostalgias... Permita-me o amigo Asdrúbal, não leve a mal que o trate assim, e de que discorde consigo numa coisa: táxis a valer só os velhos Mercedes 180, os famosos fogareiros, e os seus concorrentes pobres Austin Cambridge e Morris Oxford.
Um abraço e muito obrigado a todos os que paricipam neste blog.
De Bic Laranja a 9 de Setembro de 2007
Obrigado sr. Asdrúbal. Aqueles autocarros tornavam Lisboa (e o Porto) muito especial. // Ah! Ah! Uma ajuda do meu ilustre amigo Réprobo é uma honra. // Cumpts.
De O Réprobo a 9 de Setembro de 2007
Meu caro Bic, como Carlos da Maia bateu à aldrava da casa do seu Amigo Ega, podemos começar por excluir todas as habitações sem batente. Mas tentarei dar outra pista lá pela diabólica morada. Abraço
De asdrubal a 8 de Setembro de 2007
Fascinam-me os autocarros ingleses e ainda me lembro, nesses idos de 1964/65, o típico roncar do motor quando se aproximavam da paragem. Quanto a mim, foi uma pena tê-los substituído pelos «laranja» suecos. Se eu mandasse nos transportes públicos de Lisboa, os taxis (aquilo é que são taxis) e os autocarros, eram os de Londres. Uma belíssima fotografia Sr «Bic Laranja».

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