Ouvi de manhã duma Parque Escolar, uma sociedade comercial com capital social do Estado (Entidade Pública Empresarial, é como se chama às empresas públicas agora) cujo negócio, sem os floreados panfletários da moda, se parece resumir em requalificar e modernizar os edifícios [das] escolas secundárias [...] e uma correcta gestão da conservação e manutenção dos edifícios após a intervenção. Se a primeira parte parece dizer um comum trabalho de obras públicas, a segunda já elabora muito mais: em rigor não é singelamente conservar edifícios, nem propriamente executar a manutenção de coisa nenhuma; é antes gestão – correcta, não vá alguém supor o contrário – da conservação e da manutenção. Este estilo de dizer as coisas é típico de gente que faz que sabe, simula que faz, mas que no fim só sabe pagar para alguém fazer. E só paga porque é dinheiro dos outros...
Isto leva-nos de volta à primeira parte (a requalificação e modernização de liceus) que é, afinal, mais elaborada do que parecia: algures no capítulo 5 do Relatório de Sustentabilidade (não recomendo a leitura mas não há perigo em só consultar) desta tão modelar empresa percebe-se que não passa ela duma intermediária para adjudicar empreitadas. — A bem dizer parece-me que nem tem gente capaz de redigir os próprios relatórios. O de sustentabilidade, p. ex., foi encomendado a uma tal Leadership Business Consulting com o objectivo de relatar, a todas as partes interessadas da empresa [as não interessadas e as que não forem da empresa não são chamadas], a estratégia, os principais compromissos e desafios da [própria] Parque Escolar. Imagine-se que gente tão à toa! Esta espécie de empresa contratou uma consultora para lhe ela ditar a cartilha por onde se há-de guiar. Talvez a verdadeira cartilha seja outra...
Ouvi, pois, de manhã que esta Parque Escolar, nas escolas secundárias em obras, não será meramente uma dona de obra sem manejo de pá nem balde. Ela torna-se efectivamente proprietária dos imóveis. Talvez o negócio desta empresa não seja só fazer obras com fato e gravata mas também além disso ir fazendo uma rica engorda imobiliária. Não tarda está boa para o talho das privatizações.
Liceu Pedro Nunes em obras, Lisboa, c. 1909.
Joshua Benoliel, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
(Texto revisto à meia-noite.)
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