Quarta-feira, 30 de Junho de 2010

Não ao aborto gráfico

 Quem me conhece sabe que não sou de militâncias nem vou em democracias. Mas há maneiras de prosseguir intentos. E nesta demência duns dromedários linguistas e duns asnos eleitos - conte-se as respectivas pandilhas da Assembleia e dos jornais - em estupidamente abrasileirar por decreto o idioma, confesso que me tenho visto em cuidados e sem bem perceber que propósito anda por trás desta trama ortográfica. Entenda o benévolo leitor a minha aflição; genuflectir a quem nos usurpa a identidade não é digno.

" Lido nas entrelinhas, o A.O. contém uma silenciosa 'Base XXII', nunca declarada, jamais admitida, mas sempre presente. O seu enunciado poderia ser assim:
  Em caso de divergência da ortografia portuguesa em relação à ortografia brasileira, deve a portuguesa ser alterada no sentido da prática brasileira (exemplo: em Portugal escreve-se "Junho" e no Brasil escreve-se "junho"; logo, devemos agora todos escrever "junho"). Mas, em caso de divergência da ortografia brasileira em relação à portuguesa, mantém-se a ortografia brasileira, a par da portuguesa, através da criação da correspondente regra da facultatividade (exemplo: no Brasil não se escreve "amámos", para o diferenciar de "amamos", como em Portugal; logo, ambas as formas podem ser utilizadas facultativamente)."
(João Roque Dias, "Tá Tudo Doido, 28/6/2010.)

  Se lhe parece que exagero, benévolo leitor, note bem até onde nos afundam nesta humilhação.

" A sessão realizada na Academia das Ciências de Lisboa a 14 de Abril [de 2009] teve laivos de surrealismo:  1) Uma delegação de um dos estados contratantes do A.O. (Brasil) apresenta na sede do "órgão consultivo do Governo Português em matéria linguística" [Academia das Ciências de Lisboa] um V.O.L.P. [Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa] unilateral "brasileiro", já que, segundo o seu responsável, Bechara, «em nenhum momento o Acordo fala em vocabulário comum» [errado: o art.º 2º do Acordo refere-o expressamente];  2) na mesma sessão, foi também apresentado pela "Academia Galega da Língua Portuguesa" um 'Léxico da Galiza' (mas então, em galego, não se diz Galicia?) para ser integrado no Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa". Lindo! Portugal de cócoras, a dar guarida às manias das grandezas de brasileiros (propalando os 190 milhões de "falantes" de português) e de galegos (a eterna política das diversas autonomias espanholas contra o poder centralista de Castela)."
(Id., ib.)

 Algo se deve, pois, fazer! Uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos pode ser levada à Assembleia - um instrumento da sempre bendita democracia que carece de 35.000 assinaturas de cidadãos eleitores devidamente identificados, em papel. E todavia, porém... 

" Escusado será dizer, sem qualquer desprimor para ninguém, é claro, que nenhum dos chamados “blogs de referência” – os 5 ou 10 mais conhecidos e visitados – mencionou a I.L.C. contra o Acordo Ortográfico. Trata-se de uma questão de divulgação, portanto, e aqui reside também boa parte do problema: não se pode esperar que haja grande adesão a algo que as pessoas desconhecem sequer existir."
(I.L.C. contra o A.O., 16/6/2010.)

 Pouco dado, como disse, a iniciativas deste género - e muitíssimo menos a apregoá-lo -, cá fica a excepção que inevitavelmente dita a regra. É triste que esta nação tenha chegado a este ponto. A reclamação do direito natural de me não sujeitar a estrangeiros nas leis da recta escrita do meu próprio idioma segue preenchida e firmada em impresso próprio, amanhã, por correio.

Escrito com Bic Laranja às 23:46
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18 comentários:
De Euro-ultramarino a 2 de Julho de 2010 às 15:20
Caro Amigo:
O regime da abrilada personifica tudo o que é anti-nacional. Dar cabo de Portugal é o mot d´ordre. Ora, a língua é das poucas coisas que restam, e como vector fundamental da nossa identidade, é alvo a abater - preferencialmente, ao bom estilo d´abril, com inexcedível baixeza. De cócoras diante dos brasucas é, pois, a forma ideal. Desta gentalha nada mais pode causar surpresa. Ignorá-los em bloco é o melhor que podemos fazer. Abr. amigo.
De Bic Laranja a 18 de Julho de 2010 às 16:26
Ignorá-los, pois. Enquanto seja possível...
Cumpts.
De tron a 2 de Julho de 2010 às 17:38
No meu recanto o acordo ortográfico não vai entrar por mais que se matem a pedir por tal aberacção, seria a mesma coisa que ouvir os queen a cantarem bohemian rhapsody com sotaque americano (belgh) ou ler jorge amado escrito a europeia, seria algo completamente despido de identidade
De Bic Laranja a 18 de Julho de 2010 às 16:30
Pois!... Vai-se resistindo conforme se pode. Cumpts.
De tron a 19 de Julho de 2010 às 00:34
curioso, há mais falantes de inglês do que de português ou pelo menos assim parece dado o facto do inglês ser uma língua quase universal, mas nunca ouvi falar em acordo ortográfico nem commonwelth e muito menos entre EUA e Reino Unido
De Bic Laranja a 19 de Julho de 2010 às 00:40
A Austrália pediu adesão à C.P.L.P. para poder usufruir duma iguaria tão apetecida.
Cumpts.
De tron a 19 de Julho de 2010 às 11:48
peçam ao sr. de cabelo sal e pimenta para dar-lo aos cangurus
De Luísa a 2 de Julho de 2010 às 20:52
Durante a minha infancia ouvia muitas vezes a expressao "Calma no Brasil que Portugal ainda ë nosso". Nao sei a origem da expressao, mas sei que era aplicada quando alguëm era apressado e fazia as coisas de forma atabalhoada.
Neste momento, sinto que a expressao perdeu todo e qualquer sentido. Nao?!?

(Peco desculpa pela falta de acentos e afins, mas o meu teclado ë alemao e hoje resolveu bloquear, nao me permitindo escrever em portugues padrao europeu anterior a "borrada ortogräfica"...)
De Bic Laranja a 18 de Julho de 2010 às 16:23
A expressão deve ter dois séculos. Deve vir das invasões francesas.
Perdeu o sentido, sim. Portugal acabou.
Cumpts.
De [s.n.] a 3 de Julho de 2010 às 02:21
Portugal antigo...
De Bic Laranja a 18 de Julho de 2010 às 16:24
Antigo não. Só Portugal.
Cumpts.
De polittikus a 16 de Julho de 2010 às 15:24
E quem escreve isto, não é de Angola... lol
Concordo plenamente. Pois é um FACTO e está CORRECTO.
De Bic Laranja a 18 de Julho de 2010 às 16:32
Ora aí tem!...
Cumpts.
De Kruzes Kanhoto a 17 de Julho de 2010 às 16:24
Enquanto for vivo não aplicarei o acordo ortográfico na minha escrita. E depois de morto também não!
De Bic Laranja a 18 de Julho de 2010 às 16:36
Com essa maneira de escrever não sei. Estava capaz de lhe sugerir a grafia 'qruzes qanhoto'...
Cumpts.
De Kruzes Kanhoto a 5 de Novembro de 2010 às 20:11
Eeheheh...Tá boa. Quando fizer outro blogue vou aproveitar a ideia.
De brasileiro a 13 de Novembro de 2010 às 20:04
Sou brasileiro nato. No Brasil houve uma reforma ortográfica na década de 70. Em 2010,ainda há brasileiros que nasceram após a reforma e que ainda não assimilaram aquela reforma de 40 anos atrás.

A língua inglesa tem grafia e significados diferentes no Reino Unido, Estados Unidos, Austrália, etc. Nunca ouvi falar de um movimento para unificar a escrita do inglês ou para abortar as letras que não são pronunciadas.

Na verdade, todos os argumentos dos acordistas são falácias para distrair e ocupar a população com bobagens quando, na verdade, deveríamos estar promovendo a educação da população e elevando o nível do português escrito e falado. Ensinando o latim, lingua mãe, ensinando os clássicos brasileiros, portugueses e outros. Em tempos passados, o Brasil cultivou um português de excelente nível, mas agora está se deteriorando sem que a população o perceba, pois a cultura geral também está se deterioriando, assim como a capacidade de raciocínio da população.

Nosso Presidente, nossa futura PresidentA, políticos como o Tiririca, com mais de um milhão de votos, e o baixo nível de escrita em blogs e jornais atestam a nossa decadência linguística e cultural, agora sacramentada pelo aborto ortográfico... Estamos de luto pela cultura no Brasil e pela língua portuguesa!!!
De Bic Laranja a 18 de Novembro de 2010 às 10:55
Na verdade o português deteriora-se sem que nos demos conta: está[-]se deteriorando e deveríamos estar promovendo a educação é gerundismo aberrante que fere os ouvidos. Tem vossemecê muita razão sobre a falta que fazem o Latim e os clássicos, cujo reflexo trespassa a sociedade desde o ridículo palhaço de circo à mais alta magistrada da nação.
Ao pé desta agonia, o aborto gráfico não passa, de facto, duma capitulação de Portugal perante idiotas no que respeita ao seu idioma.
Cumpts.

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