Domingo, 25 de Julho de 2010

«Iniciativa Novas Oportunidades»

Na escola (E. Soper)

 Por € 3,50 compra-se no Pingo Doce um livrinho que diz o óbvio. Pode parecer que não mas faz muita falta dizer o óbvio (embora canse a quantidade de vezes que vai de repeti-lo), dada a quantidade de mentecaptos incapazes de perceber que a neve é branca e que se não torna cor-de-rosa por decreto...

 Valorizando certamente um dado perfil, surgiu o «Curso de Jogador(a) de Futebol», com equivalência ao 9º ano, promovido pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional/Centro de Emprego e Formação Porfissional da Guarda, e iniciado em 2007. De acordo com o folheto, este curso destina-se a jovens entre os 15 e os 25 anos, com 6.º ou 7.º anos de escolaridade, e uma das actividades principais privilegia o saber «Utilizar a imagem pública na construção da carreira e do êxito pessoal, na divulgação da equipa e do clube que representa», alimentando a ilusão de um dia igualarem um dos muitos milionários do futebol, nacionais ou estrangeiros. Nada do que é exposto tem como objectivo a diminuição iliteracia ou o investimento na formação cultural dos candidatos, parecendo tudo resumir-se a «encontros de futebol, execução de exercícios físicos e tácticos, ou treinos de conjunto». Como é possível atribuir a este curso a equivalência ao 9.º ano, se, na realidade não se equivalem?

A resposta, desgraçadamente, é ainda mais óbvia:

 Vivemos, sem dúvida, em matéria de Educação e Instrução, no reino do Absurdo, deixando-nos manipular e seduzir por facilidades e contínuas ilusões que nos despojam das nossas próprias capacidades. Assistimos a um discurso do simulacro, que atinge a nossa dignidade humana, consentindo-o irresponsavelmente.


Maria do Carmo Vieira, O Ensino do Português, Fundação Francisco Manuel dos Santos/Relógio d'Água, 2010, p. 97.
(Gravura: Na Escola, Eileen Soper, 1922.)

Escrito com Bic Laranja às 15:37
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6 comentários:
De Luísa a 25 de Julho de 2010
Agora estou curiosa com essa do livrinho do Pingo Doce... (Desculpe lá, mas como não moro em Portugal... essas publicações, ao que parece muito úteis, passam-me completamente ao lado!).

Então... há uma moça praticamente analfabeta na minha aldeia. Para ler, ela s-o-l-e-t-r-a t-o-d-a-s a-s l-e-t-r-a-s. Nesse cursos de juntar água e levar a ferver, ela consegiu obter um canudo de 9.º ano. A minha mãe, que lê com bastante correcção, que fala sem envergonhar ninguém e consegue escrever cartas como se fosse uma escriturária encartada, nunca conseguirá passar à frente da tal moça na busca de um trabalho.
Não falando no factor idade, pois a senhora minha mãe é muito velha com 52 anos (!), ela tem menos qualificações com a 6.ª classe do que a tal moça.

Se eu sabia, tinha andado a reprovar na escola. Era mais dediacada às "baldas", passaria o tempo a namorar, a embebedar-me no bar mais próximo da escola, etc.. Depois era só visitar um curso de jogador de futebol e com um pouqinho de sorte tirava o mestrado em golf...
De Bic Laranja a 26 de Julho de 2010
O livro também conta o caso dum moço que quis deixar a escola para ir trabalhar para o McDonald. Ninguém o demoveu do intento e parece que foi. Diz que pode depois aos 18 obter o 9º ano em poucas semanas nas Novas Oportunidades. E pode.
Cumpts.
De Maria a 27 de Julho de 2010
Anteontem perdi um comentário (por culpa minha) sobre este assunto actualíssimo.
Gosto muito desta Professora, tenho seguido todas as entrevistas que dá na televisão e artigos que escreve em jornais. Ela tem toda a razão no que afirma sobre os vergonhosos programas do português e isto já vem desde há décadas, mas tem-se agravado a cada ano que passa. Esta professora está arredada do ensino por recusar-se a adoptar os programas que o Ministério da Deseducação elabora e produz para consumo de ignorantes (como a Professora apelida e bem os autores dos mesmos). O ensino do português é uma vergonha. Os alunos que chegam à Universidade não sabem ler ou escrever correctamente e até há quem diga que não compreendem sequer o português que vem nos livros dos cursos que escolheram. Mais do que vergonha é um escândalo nacional o que se passa com o ensino da nossa língua-pátria, o nosso maior bem a par do solo-pátrio. Os políticos querem que o ensino seja nivelado por baixo em todas as áreas, português incluído, justamente para que a ignorância deles e sobretudo as calinadas que dão na nossa língua passem despercebidas. O Ministério da Deseducação não sabe o mal que anda a fazer a estas gerações, a presente e a passada, que têm servido como cobaias dos senhores e senhoras do dito Ministério, que ano após ano elaboram programas de português, cada um pior que o anterior, para satisfazer o ego de quem manda. Porquê? Porque estamos perante um sistema pôdre cujos governantes quase analfabetos assim o exigem (imitando as excelsas democracias europeias mas sobretudo a norte-americana cujos licenciados, com as excepções que confirmam a regra, não sabem ler nem escrever correctamente o inglês e muito menos línguas estrangeiras, apesar de as terem "aprendido" na altura própria). E o Ministério, como voz do dono que é, claudica vergonhosamente.
A Profª Maria do Carmo Vieira devia aparecer mais vezes nas televisões e denunciar cada vez com mais veemência o despautério deste ensino e se possível citar os nomes dos culpados directos deste verdadeiro escândalo nacional.
Ainda não possuo o livrinho desta Professora mas comprá-lo-ei de certeza absoluta.
Maria
De Bic Laranja a 27 de Julho de 2010
Parace haver um propósito em embrutecer as gerações vindouras. Nem os rústicos do passado, mesmo sem saber ler ou escrever, seriam bisonhos a este ponto.
Isto são ditames da comissão europeia, sabe! Os cata-ventos pataqueiros que pululam nas secretarias há muito que foram engajados para venderem os povos. Pouco tarda para não passarem de autómatos.
Não vejo grande futuro para esta civilização demente.
Cumpts.
De [s.n.] a 31 de Julho de 2010
É exactamente como diz. E nós, os que não pactuamos de modo algum com este estado miserável de coisas, somos forçados a aguentá-las sabe Deus até quando. Mas isto um dia terá o seu fim. Tem que ter. E esperemos que não demore muito. Já não irá a tempo desta, mas pelo menos para bem das gerações vindouras.
Cumprimentos para si também.
De Maria a 31 de Julho de 2010
Peço desculpa de por lapso não ter assinado o comentário acima.
Maria

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