Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010

O esteiro do Tejo

Esteiro do Tejo em 1147 (Castilho,

« Se o taboleiro do Rossio era alagadiço ou não, que o demonstre a inesperada chuva que em Lisboa caiu desde 8 de Outubro a 31 de Dezembro de 1755 [i.e. 1575]. “Da cópia das águas — diz Barbosa Machado — se formou um lago, que cercava a praça do Rossio e a rua Nova”; e enfim que o demonstrem certas demonstrações da autoridade; por exemplo: a ordem de el-Rei D. Manuel I para se esgotar [encanar para esgoto] uma vez a água da dita praça.
  Aí mesmo havia havia um cano de vasão junto aos Estáus (depois sede da Inquisição, depois paço da Câmara, depois Tesouro público, Teatro de D. Maria II [...]), até à Caldeiraria na freguesia de S. Nicolau, o qual cano mandou el-Rei D. Manuel tapar (talvez por já inútil) e que a Câmara aforou, para o cobrirem e fazerem casas sôbre ele.
  Além do Rossio passavam as águas do esteiro no sítio onde veio a fundar-se o Convento de S. Domingos [...] Aí mesmo cortavam [cruzava] as águas a antiga Corredoura chamada no século XIV Carreira dos Cavalos, depois rua das Portas de Santo Antão [...] 
  As águas torciam-se aí numa volta, ao sopé duma espécie de promontório que forma o monte de Sant' Ana, e alastravam-se para o nascente, por aquela região plaina que no século XVI se chamava os canos de S. Vicente, por causa da proximidade da porta de S. Vicente [antigo Arco do Marquês do Alegrete, diante da ermida da Senhora da Saúde, hoje no largo do Martim Moniz]. Esses tais canos, segundo se depreende das narrativas que Frei Luiz de Sousa nos deixou das medonhas inundações de S. Domingos, eram valas de escoante abertas para as águas confluentes das encostas visinhas [...] Além disto, em vários pontos da cêrca do Hospital de Todos-os-Santos (área hoje ocupada pela praça da Figueira) vejo no meu plano sinais de charcos, que bem revelam a natureza da formação daquele terreno.
  Por causa dessas tendências para o charco, motivadas pelas águas das encostas visinhas, que por vezes eram torrentes, serviam para muito os sabidos canos da Moiraria; e observo que depois do terramoto de 1755, logo em 27 de Novembro, o alto espírito do homem que se chamou Pombal ordena ao Senado da Câmara de Lisboa, em decreto especialíssimo que, “pela indispensável necessidade... de se desentulharem os aquedutos da rua do Canos... antes que as grossas inundações das águas que por êles se evacuam, sendo estagnadas, se corrompam com irreparáveis prejuízos”, se proceda prontamente ao desentulho.

Júlio de Castilho, Lisboa Antiga; Bairros Orientais, 2ª ed., vol. I, Lisboa, C.M.L., 1939, p. 275 e ss..

Escrito com Bic Laranja às 22:30
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5 comentários:
De [s.n.] a 30 de Outubro de 2010
Pena que não tenham feito o que Pombal ordenou,de preferência antes do dia de ontém...
Julgo perceber,não são monárquicos...

De Fernando C a 30 de Outubro de 2010
Esqueci-me de assinar...Um abraço.
De Bic Laranja a 31 de Outubro de 2010
Pois não são. São republicanos e só obedecem a gente laika.
Cumpts.
De Carlos Portugal a 30 de Outubro de 2010
Pois é, meu Caro Bic... Com a agravante de estas luminárias actuais terem tapado a saída do caneiro que conduzia as águas das duas ribeiras e dos «canos» até ao rio, e que desaguavam por baixo dos degraus do Cais das Colunas, por dois arcos laterais.
Tudo para construírem um metro imbecil, que já se sabia desde 1967 (PDM) não ser de todo aconselhável. Assim, sem saída, o caneiro satura os terrenos adjacentes, inunda caves, liquidifica solos (por isso a ala ocidental do Terreiro do Paço se está a afundar) e, quando há uma chuvada, a água, não tendo por onde se infiltrar e escoar, rola pela superfície, transformando a Avenida da Liberdade numa torrente, e o Largo de S. Domingos num charco...

Mas claro, os ignorantes de agora pensam que a «tecnologia» (verbal, pois não passa disso) resolve tudo, mesmo o impossível e as asneiras mais do que grossas.

Cumprimentos
De Bic Laranja a 31 de Outubro de 2010
Toda essa 'engenharia' de fachada sobre a Baixa é uma caixa de Pandora. Quando vier tudo abaixo havemos então de ver o verdadeiro engenho das comadres sobre as verdades.
Cumpts.

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