Quarta-feira, 20 de Abril de 2016

O solar da família Mayer

 A Avenida de Fontes Pereira de Melo por alturas do aterro sobre a Rua de S. Sebastião. Antes de haver Palácio Sotto-Mayor.
 Um eléctrico em rota descendente — circulava-se pela esquerda, no príncipio do séc. XX. — Um saloio observa... o eléctrico ou as madames que passeiam — um luxo, uma placa central daquela dimensão; digna das melhores avenidas.
 No lugar do palacete Sotto-Mayor um solar de belo porte e com ar de ter pergaminhos — cuido que pertencia à família Mayer. Casa de quinta que não sei agora dizer o nome mas que, parece-me (posso estar enganado), vinha desde a Cruz do Tabuado (Largo da Escola Médica-Veterinária) e se estendia ruralmente através da paisagem que nesta imagem se abarca até alturas da Travessa do Sacramento (ou Av. Tomás Ribeiro).
 O palacete Sotto-Mayor diz que andou a ser construído de 1902 a 1906. Os eléctricos são de 1901. A fotografia pode ser do Inverno desse mesmo ano. E aqueles prédios de rendimento lá mais acima... Na esquina da Martens Ferrão é um dos que andam agora entregues aos grafiteiros. — Vede que beleza! Casas com mais de cem anos!...
 Calhando ao depois descobrir mais coisas darei cá notícia.

Av. Fontes Pereira de Melo, Lisboa (A.C. Lima, 1905-1908)Avenida Fontes Pereira de Melo [e solar da família Mayer], Lisboa, c. 1901.
Alberto Carlos Lima, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

(Publicado originalmente em 29/XII/2010.)

Escrito com Bic Laranja às 19:31
Verbete | comentar
15 comentários:
De João Amorim a 30 de Dezembro de 2010 às 16:46
As placas centrais tinham várias funções: o passeio pedonal, a caracterização do arvoredo e a definição do que hoje chamamos "cercea", para além da, óbvia, regulação do "trânsito". A cidade do Porto abriu várias avenidas dos finais do séc XIX arejadas e preparadas para serem um bom passeio. Hoje, com as chamadas "requalificações" as duas faixas passaram a uma, estreita, a placa central ficou para estacionamemto e "cargas e descargas", os "passeios" ficaram para serem passeados na internet pois os sacos do lixo e os dispositivos da publicidade tapam toda a visibilidade em redor. Enfim.
Belíssimas fotos que publica.
De Bic Laranja a 30 de Dezembro de 2010 às 23:15
No fundo encolhem as vias de rodagem mas as cidades continuam entregues aos automóveis. Vai de continuar a encolhê-las com mais subúrbios dormitório.
Feliz ano novo!
De João Amorim a 31 de Dezembro de 2010 às 17:30
Feliz Ano novo.
De José Caldeira a 31 de Dezembro de 2010 às 02:21
Caro Bic Laranja:
A propriedade dos Limas Mayer chamava-se “Quinta da Cruz do Tabuado” e estendia-se num enorme triângulo entre as ruas do (Chafariz do) Andaluz e de São Sebastião da Pedreira e a antiga Travessa do Sacramento. Nela tinha sido instituído um vínculo no século XVII que se manteve na família Rebelo de Figueiredo até à extinção dos morgadios. Foi adquirida a partir de 1842 por António Mayer Júnior. A casa que se vê na fotografia foi construída por ele e habitada no Verão pela Família durante cerca de meio século. Ainda não figura na carta topográfica de Filipe Folque e já tinha desaparecido na do princípio do século vinte. A abertura da Avenida de Fontes deve ter apressado a demolição, pois o viaduto afrontava as vistas da casa.
A entrada principal da quinta ainda existe no n.º 50 da rua do Andaluz. É um portão de volta inteiro com as iniciais de António Mayer Júnior no cimo. Está hoje incluído no edifício azulejado, em que os azulejos do andar térreo são alternadamente azuis e brancos colocados em losango.
Grande parte destas informações colhidas em Filipe de Lima Mayer, “Livro de Família”, Lisboa? 1969.
Continuação de Boas Festas e um óptimo 2011.
José Caldeira
De Bic Laranja a 31 de Dezembro de 2010 às 10:09
Caro sr. Caldeira,
Muito grato pelo seu rigoroso esclarecimento.
Suspeitei que a quinta fosse a da Cruz do Tabuado mas não tinha certeza porque fazia a casa na Rua do Chafariz do Andaluz como a principal da quinta, admitindo que esta pudesse ser doutra propriedade. Não fazia também ideia quanto à quinta se prolongar até à paroquial de S. Sebastião da Pedreira, onde a Travessa do Sacramento conflui com a Rua de S. Sebastião. Cuidei que ficasse por alturas da Rua Viriato.
Tudo o que me diz é muito interessante e satisfaz muito a minha curiosidade por estas esquecidas quintas do termo de Lisboa.
Suponho, porém, que o solar está representado na carta nº 12 do Filipe Folque e também numa de Goullard com o mesmo número, de 1877. A casa tinha um corpo quadrangular com pátio interior (ou saguão) e jardim de buxo a N - precisamente onde confluem a Martens Ferrão com a Fontes; à data desta imagem já tinha sido engolido pelas avenidas.
Tanta informação que há por aí desgarrada e tanta história por conhecer...
Cumprimentos e feliz ano novo.
De José Caldeira a 31 de Dezembro de 2010 às 18:34
Estou apenas a partilhar o pouco que sei com um blog onde tanto tenho aprendido sobre Lisboa.
Tem razão quando diz que a casa está na carta n.º 12. Equivoquei-me por pensar que estaria mais junto ao largo do Andaluz. Porém, o largo do Andaluz que aparece nessa carta deve corresponder ao pequeno jardim na esquina da rua Actor Tasso com a de Santa Marta. O grande largo irregular que hoje existe mais a norte deve ter sido aberto na extremidade da quinta, ficando então a casa sobranceira a esse largo.
No referido livro, a casa é descrita assim: «Numa elevação de terreno, mandou António Mayer Júnior edificar uma grande casa quadrangular, com torreões aos cantos e um amplo terraço, ao gosto do século passado.» Acompanha o texto a reprodução de um prato de Limoges de um serviço encomendado em 1892 por Adolfo de Lima Mayer para o casamento de sua filha com o Conde do Cartaxo. Nele se vê o desenho da casa em ponto alto e desafogado. A fachada, que na sua fotografia se vê quase encostada à avenida, tinha uma correnteza de 6 janelas no piso térreo, 4 no corpo central e uma debaixo de cada torreão. Na frente, adivinha-se o tal terraço sustentado por um alto paredão e, à frente deste, a um nível muito inferior, árvores frondosas que deviam delimitar a quinta e devem hoje corresponder ao tal largo.
A identificação que eu faço da quinta com o triângulo de que falo na anterior mensagem baseia-se na descrição um pouco vaga que vem no livro mencionado: «Estendendo-se até ao antigo matadouro das Picoas e descendo ao longo do que é hoje a Avenida Fontes Pereira de Melo, a quinta tinha a sua entrada principal na rua …».
Tratando-se de uma propriedade vinculada no século dezassete, era natural estar repartida por muitos foreiros. Daí as divisões que se observam na planta. António Mayer Jr. começou por comprar a maioria desses foros e finalmente, com a extinção dos vínculos, adquiriu o restante à última morgada, incluindo a casa nobre da rua do Chafariz do Andaluz.
Cumprimentos,
José Caldeira
De Bic Laranja a 1 de Janeiro de 2011 às 11:47
Cuido que é exactamente como diz. A Rua do Chafariz de Andaluz alargava-se um pouco ao desembocar no Largo do Chafariz (mudado no séc. XX), porém não se espraianado como hoje no que é designado Largo das Palmeiras. Pelas curvas de nível da carta nº 12 de Goullard percebe-se que a situação do solar era sobranceira (embora recuada) ao começo da Rua de S. Sebastião - de resto idêntica à que obtemos hoje desde a Rua do Actor Tasso (esta o troço final da velha Rua do Vale do Pereiro) sobre o palacete Sotto-Mayor, se bem que o solar dos Mayer fosse mais desviado para o lado de S. Sebastião.
A descrição que me dá da casa é preciosa. Nas plantas topográficas notará que o caminho principal para o solar partia da Rua do Chafariz de Andaluz, sensivelmente onde a moderna Rua Sousa Martins a veio a truncar. O caminho ligava à frente da casa voltada a Nascente, o oposto ao que temos aqui na fotografia. Como seria aquela fachada...?
Tem outra vez razão sobre as árvores frondosas: estariam plantadas pelo declive onde hoje se abre o Largo das Palmeiras até à cota do Largo de Andaluz, orlando o lado N do último troço da Rua do Chafariz de Andaluz.
Grato pela informação.
Cumpts.
De Luciana a 1 de Janeiro de 2011 às 14:07
Que maravilha, Bic! E, ao mesmo tempo, que tristeza… perante o destino da – anteriormente bela - Avenida de Fontes Pereira de Melo.
E o ano que passou foi trágico! :-(
De Bic Laranja a 1 de Janeiro de 2011 às 14:22
Dramático! Parece que é para continuar.
Feliz ano Novo!
De Mário Cruz a 21 de Abril de 2016 às 16:12
Pode-se fazer um "antes e depois" com foto do Judah Benoliel tirada quase do mesmo lugar
Cota antiga: JBN004862
A27825
N25421
De Bic Laranja a 23 de Abril de 2016 às 00:00
Pode sim senhor.
Grato da sugestão.
De João a 21 de Abril de 2016 às 16:50
Uma das primeiras avenidas de Lisboa a ver os seus belos palacetes "ceifados" pelo progresso nos finais dos anos 60.
Depois nasceram o Imaviz, Sheraton, e o "harmónio" da Europeia Seguradora, etc....
Duma avenida com um certo "charme" nasceu uma avenida ao estilo Nova Iorque ou São Paulo.
De Bic Laranja a 12 de Junho de 2016 às 18:53
É.
De zazie a 21 de Abril de 2016 às 17:39
Eléctrico e terra batida
ehehehe
De Bic Laranja a 12 de Junho de 2016 às 18:53
Macadame.

Comentar

Abril 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
18
19
20
22
23
25
26
27
28
29
30

Visitante


Contador

Selo de garantia

pesquisar

Ligações

Adamastor (O)
Apartado 53
Arquivo Digital 7cv
Bic Cristal
Blog[o] de Cheiros
Caminhos de Ferro Vale Fumaça
Carmo e a Trindade (O)
Chove
Cidade Surpreendente (A)
Corta-Fitas(pub)
Delito de Opinião
Dragoscópio
Eléctricos
Espectador Portuguez (O)
Estado Sentido
Eternas Saudades do Futuro
Fadocravo
Firefox contra o Acordo Ortográfico
H Gasolim Ultramarino
Ilustração Portuguesa
Lisboa
Lisboa de Antigamente
Lisboa Desaparecida
Menina Marota
Mercado de Bem-Fica
Meu Bazar de Ideias
Paixão por Lisboa
Pena e Espada(pub)
Perspectivas(pub)
Pombalinho
Porta da Loja
Porto e não só (Do)
Portugal em Postais Antigos(pub)
Retalhos de Bem-Fica
Restos de Colecção
Rio das Maçãs(pub)
Ruas de Lisboa com Alguma História
Ruinarte(pub)
Santa Nostalgia
Terra das Vacas (Na)
Ultramar

arquivo

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

RSS

____