Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011

Só à bengalada

Cláudio César Henriques


 Este cavalheiro, que não usa as regras ortográficas de acentuação no seu nome próprio, que diz que é bacharel em Letras, e que é mais um a mamar na teta do aborto gráfico, disse isto, muito sonso, ao jornal Ponto Final de Macau: Porque é que o português tinha duas ortografias? A gente que estuda a língua portuguesa sabe que a história da ortografia da língua portuguesa é sempre uma história de conflitos, de alguém que concorda com outro e depois, como dizemos no Brasil, rói a corda, rompe.
 Pois a gente não precisa de estudar a língua portuguesa para saber quem na história dos conflitos sobre a grafia (orthographia é outra coisa) do Português concordou sempre primeiro e quem, de sempre, deu em roer a corda; justamente por voracidade sobre o idioma, sintoma aliás duma psicose mal resolvida do Brasil com a sua identidade portuguesa e que sai de jorro naquela (in)subordinada como dizemos no Brasil que irónica e expressivamente faz servir a carapuça a quem rói a corda.
 Este freguês não é um bacharel em Letras. É um doutor em tretas.

(Imagem in Ponto Final, 21/9/2010.)

Escrito com Bic Laranja às 11:46
Verbete | comentar
19 comentários:
De Pedro a 27 de Janeiro de 2011
Ora nem mais! Para cúmulo do absurdo, ainda os consideram um país irmão.
De Bic Laranja a 27 de Janeiro de 2011
São muletas da retórica jornalística.
Cumpts.
De VSC a 27 de Janeiro de 2011
Mas mesmo que o "acordo" fosse adiante, o português continuaria a ter palavras com dupla grafia... aliás, o "acordo" seria a consagração de duplas e triplas grafias...
De Bic Laranja a 27 de Janeiro de 2011
O aborto gráfico não consagra, ele multiplica as grafias duplas: v. aspeto/aspecto ou as flexões de detetar/detectar para Portugal e Brasil. De mais a mais consagra as flutuações dentro dum mesmo texto, na medida em que o redactor também hesite na fala. Já para não falar dos Tóinos que não tardarão a irromper em Antônio. Era o que mais nos fazia falta.
Cumpts.
De VSC a 27 de Janeiro de 2011
É interessante ler a entrevista.
Refere a não aceitação - contra a lei! - da petição dirigida à Assembleia da República - que foi "superada", segundo as palavras do entrevistado.
E vem com a patetice do português língua de trabalho da ONU a que nada obsta, evidenemente, a existência de dois modos diferentes de escrever - como continuaria a haver, desde logo no que ao léxico diz respeito! Tem a vantagem de trazer à luz as motivações mais próximas do aborto. É um acordo de governos. De governos socialistas e provincianos. Lá e cá.
De Bic Laranja a 27 de Janeiro de 2011
É cristalino como a água. Revela o jaez dos "especialistas em língua portuguesa" vindos á colação que subjugam da natureza do seu objecto de estudo ou trabalho em favor da "relevância política". Lulo-socrática, está bom de ver!...
É só conversa para vender a banha da cobra que publicou lá no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Intrujice tanto maior quanto confessa que no Brasil praticamente só a queda do trema se notou.
Cumpts.
De VSC a 27 de Janeiro de 2011
As benga´
ladas não são para este. Este defende o que é dele. As bengaladas são para os portugueses que aceitaram e ajudaram a esta ignomínia - que, simplesmente, não pode ir avante (e aqui não esquecer Cavaco).

A inexistência do «acordo» em nada prejudica a adopção do português como língua de trabalho (é tudo uma questão de pagar as traduções), assim como a suposta vigência do «acordo» não impede que seja necessária uma versão portuguesa. Vamos dizer telefonia por telefónica, concreto por cimento? Meros exemplos. E no direito, onde há termos iguais para coisas diferentes? Com «acordo» ou sem ele - como espero, a necessidade de uma versão europeia. O acordo não justifica nada.
De Bic Laranja a 27 de Janeiro de 2011
Que angústia não irá na O.N.U. para escolher a grafia centre ou center no ingrazéu dos textos. E na cafetaria imagino se será mais caro um doughnut ou um donut?
As bengaladas assentam bem nos que diz, mas este cavalheiro, pelo fazer-se sonso na história do roer a corda nos Acordos firmados, também não se livrava dumas garrochadas ou dum pampilho nos lombos.
Cumpts.
De [s.n.] a 28 de Janeiro de 2011
Estive para lhe enviar um comentário relativo ao seu anterior escrito e à srª professora brasileira, mas por falta de tempo só o faço agora.
Estou d'acordo com o que por aqui se tem comentado sobre este assunto e naturalmente a 1OO% com o autor deste espaço.

Nada tenho contra o português do Brasil... desde que ele seja falado e escrito por brasileiros. Cá ou lá.
Porém o português de Portugal deve ser respeitado como um Bem inestimável que nos foi legado pelos nossos Maiores, tenham eles sido os insignes linguistas que o aperfeiçoaram e enriqueceram após anos a fio dedicados à sua sintaxiologia, como com todos os intelectuais e escritores que o respeitaram e honraram, deixando-nos - designadamente através da literatura mas igualmente na sua impecável estilística, em artigos e crónicas nos jornais, revistas, etc., assim como oralmente em colóquios, palestras, discursos, programas de televisão e rádio e num sem número de outras ocasiões - um tesouro tão precioso quanto o é o solo pátrio. Isto, bem entendido, até ao 25/4. Depois foi o que se sabe.

Que brasileiros, guineenses, angolanos (em menor escala) moçambicanos, macaenses ou timorenses (os são-tomenses, salvo poucos casos, são a excepção à regra e diga-se que sentem um enorme orgulho em sê-lo) falem e escrevam o português com alterações fonéticas, sintácticas e gráficas, compreende-se e nada há contra. Agora onde há contras e muitos é no facto dos fazedores do "aborto" ortográfico - que se saiba não há um único país de língua oficial portuguesa, com a excepção do Brasil, que queira qualquer alteração ao português tal como eles o escrevem e está consignado no acordo ortográfico de 33, alteração a que curiosamente o nosso maior escritor do século XX se recusou inteligentemente a respeitar, continuando a escrever no seu brilhante português de sempre até à morte - quererem IMPOR o português do Brasil no próprio país que o criou, instituiu, apurou e pratica, na escrita e oralmente, o mais correctamente possível. E para mais impondo absurdamente uma sintaxe, grafia e fonética adoptadas nesse país. Isto aconteceu não só pelas circunstâncias específicas de quem nele nasceu e viveu, mas também devido à sua situação geográfica e à sua raiz. Esta resultante de uma adaptação pela absorção de um conjunto de dialectos falados nas antigas províncias ultramarinas mas igualmente pela aglutinação dos diversos dialectos autóctones, com o português de Portugal.

Que eles falem e escrevam como lhes apetecer, estão no seu direito. Que queiram fazer com que a língua portuguesa retroceda na sua estrutura formal de séculos, através do acordo ou sem ele, é que é inadmissível. Perguntem aos ingleses, aqueles que cultivam verdadeiramente a língua de Shakespeare (não os que a adulteram, porque também os há) que eles vos dirão o que pensam do inglês falado e escrito nos Estados Unidos...

Os anglicismos e os francesismos que se admitem em qualquer altura (mas não como sistema) para uma melhor compreensão da proposição e/ou dar ênfase à mesma, já de si são desconfortáveis, mas quando se chega ao exagero, de há largos anos a esta parte, dos políticos, comentadores e meninos e meninas das TV's e dos jornais (alguns daqueles com a idade de serem avós) proferirem frases metade em inglês, metade em mau português; de revistas pirosas (e não só) intercalarem em muitos dos seus artigos, crónicas e entrevistas, inúmeros vocábulos (e mesmo frases) ingleses, franceses ou as possidonices que lhes der na real gana, é de bradar aos céus.

Pergunto ao autor deste excelente Blogo, cuja erudição nunca é por demais salientar, se reparou no dia das eleições nas legendas que passavam nos vários canais de televisão com destaque para a SIC, em que os vocábulos que levam obrigatòriamente um C após a primeira vogal, que serve para abrir esta tònicamente, o mesmo lhes era omitido?! Pelo visto eles agora querem que falemos e escrevamos "à brasileira" com a seguinte fonética: dirêto (até sob o símbolo da estação o vocábulo estava e está assim grafado) atualmente, âto, fâto, respêtivo, dialêto, etc. No Brasil estas vogais pronunciam-se fechadas precisamente porque na grafia destes vocábulos a consoante é inexistente.

Este acordo é um crime de lesa-língua portuguesa.
Maria
De Bic Laranja a 29 de Janeiro de 2011
Obrigado pela consideração.
Como há alguém de respeitar o Português se é o próprio governo de Portugal que se entrega ao Brasil e se dispõe a servir de verdugo ao idioma pátrio? Mais! Pelo chorrrilho de mentiras sobre a língua para a O.N.U., pelo disparate de apregoarem o prestígio internacional do Português como dependendo do aborto gráfico, pela vergonha de sequer discutirem um assunto que não tem discussão possível (quem quer falar Português que o aprenda, quem não quer que fabrique o seu crioulo); toda esta cambada do governo, dos deputados e dos felizes idiotas que se agarram ao tacho e servem para todo o serviço na R.T.P., na imprensa, nas editoras, nas escolas, todos eles projectam um ridículo merecedor do maior dó.
A úncia coisa que internacionalmente (mas não além do antigo Portugal ultramarino) vai ser entendida é que Portugal se rebaixou ao Brasil. Não tardará a ser ser amesquinhado por meia dúzia de brasis sem universidades de prestígio nem cultura literária que se veja.
Eis os contumazes de 74 na sua grande obra.
E aqui lhe digo que não vi nem quis saber de eleições nenhumas. Fujo disso como fujo já dessa R.T.P. legendada em brasileiro, quando não ainda morro disso.
Cumpts.

De JPG a 28 de Janeiro de 2011
Os resultados podem variar (depende de uma série de factores técnicos), mas a "língua unificada" terá sempre mais de 60.000 duplas grafias registadas na base-de-dados "oficial" (PLP/ILTEC): http://bit.ly/hnIA9M

E note-se que estamos a falar de "lemas", pelo que haverá lugar a uma multiplicação simples: se cada lema afectar, em média e por hipótese, 20 palavras derivadas e/ou compostas...
De Bic Laranja a 28 de Janeiro de 2011
E decorrem todas genuinamente do aborto gráfico já que as duplas ouro/oiro &c. não são consideradas.
Cumpts.
De Carlos Eduardo Borges a 28 de Janeiro de 2011
Só conheço este assunto "à superfície" mas preocupa-me muito o que vai ensinar-se nas escolas primárias.
Não há filólogos no Brasil ou entre os que jizaram este "aborto" ?
De Bic Laranja a 28 de Janeiro de 2011
Pela mutilação sobre o Português cuido que só filólogos do Brasil tenham gizado o aborto gráfico. Os de cá são apenas algozes.
Cumpts.
De Carlos Eduardo Borges a 28 de Janeiro de 2011
...e "jizar" escreve-se gizar.
Anda um diabo à solta ...
De Bic Laranja a 28 de Janeiro de 2011
:)
Cumpts.
De João Amorim a 29 de Janeiro de 2011
caro Bic

No Rio de Janeiro um empregado de mesa, numa esplanada, ouviu-me a falar com a minha mulher sobre o brasil e a sua cultura e língua portuguesa. Inacreditávelmente o empregado abeirou-se de mim e disse-me que a língua que ele falava era o brasileiro e que o português já não existia no Brasil! Acha que o consegui, simpaticamente, demover do seu raciocínio? "Sai fóra, cára, o péssuál fála brásileiro, pô"...
De Bic Laranja a 29 de Janeiro de 2011
O cretino confunde a língua com o sotaque.
Cumpts.
De [s.n.] a 8 de Fevereiro de 2011
Só hoje li a sua resposta, que muito agradeço.

No meu comentário acima, leia-se "assimilação" em lugar de "absorção". É mais correcto.

O primeiro Acordo Ortográfico (por iniciativa da Academia da Academia Brasileira de Letras e aprovado pela Academia das Ciências de Lisboa), data de 1931 e não de 1933, como por lapso escrevi.

Ao contrário do que já tenho lido em vários artigos de jornal e ouvido da boca d'alguns políticos e comentadores televisivos, em 1911 houve ùnicamente uma Reforma Ortográfica (que pouco alterou a nossa língua, apenas deixou cair o Y e algumas duplas consoantes) e não um Acordo Ortográfico.
Maria

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