Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011

Quem rege a escrita?

Orthographia da Lingoa Portugueza... 1856


 Há dias transcrevia-se aqui, em palavras da Priberam (um editor de dicionários), que "o texto do Acordo de 1990 não prevê soluções para muitos dos problemas que cria". Em havendo pingo de senso neste país, só por si isto seria razão para arrumar de vez com a aberração. Mas não, e o cúmulo é vermos um editor de dicionários à nora para se conseguir desenvencilhar do texto do Acordo dizendo e repetindo em desespero que o dito acordo "é lacunar, ambíguo ou incoerente".
 Em 29/1/2011 Helder Guégués, no blogo "Assim Mesmo" ("O prefixo «re-» no A.O.L.P.", post 4372), apontava ao corrector da Priberam um erro de hifenização nas palavras com o prefixo re- quando se lhe seguia palavra iniciada com a mesma letra. Dias depois ("Diz a Priberam", post 4387) justificava-se longamente Helena Figueira, do Departamento de Linguística da Priberam, com a letra do texto da Base XVI, 1º, alínea b) do Acordo Ortográfico de 90, que é inequívoco relativamente ao uso de hífen com um prefixo que termina na mesma vogal com que se inicia o elemento seguinte; dá uma única excepção: o prefixo co-. A interpretação que a Priberam faz do texto da Base XVI é a única possível. A leviandade com que foi redigido o Acordo de 90 parece que acabou por introduzir no Português formas tão extravagantes como re-eleger, re-embolso, re-encarnação, re-encontro, re-entrar
 Parece mas não foi.
 O Brasil, usando da prerrogativa que lhe assiste já do costume de não cumprir nenhum acordo ortográfico, cozinhou unilateralmente uma excepção à Base XVI no seu V.O.L.P. (o tal que foi solenemente oferecido ao Presidente da República Portuguesa e que este subservientemente se dispôs a receber). — E fundamentado o Brasil em quê para introduzir uma excepção não acordada ao Acordo? — Ora vede lá bem: “por coerência e tradição lexicográfica” (*). A mesma coerência que decepa consoantes etimológicas e conserva o ‘h’? Ou a que dita epiléticos sofrendo epilepsia e egípcios habitando o Egito?
 E a tradição lexicográfica é a que nega a Portugal o primado do idioma?!...
 Posto isto em que ficamos; com o Acordo ou com a Academia Brasileira das Letras?...
 O vocabulário do I.L.T.E.C. (o do governo do eng.º Sócrates) fez tábua rasa do texto da Base XVI acerca do prefixo re- e segue a cartilha brasileira. E “os recursos linguísticos da Priberam têm vindo a ser alterados desde 25 de Janeiro de 2011 para seguir a excepção instituída pelo V.O.L.P. da A.B.L.” — O ano lectivo, pois é…
Pois bem, mas se o texto do Acordo é para fazer gato-sapato, que regerá ele afinal?
Ora, nada! A Academia Brasileira das Letras e cada burro escrevem por si.


(*) Nota explicativa ao V.O.L.P. da Academia Brasileira das Letras, pp. LI a LIII.

Escrito com Bic Laranja às 23:14
Verbete | comentar
30 comentários:
De polittikus a 22 de Fevereiro de 2011
Ai é.... eu a pensar que depois deste acordo ortográfico era o Brasil que mandava na minha escrita. hihihi
De Bic Laranja a 22 de Fevereiro de 2011
O Brasil e os burros escrevem por si.
Cumpts.
De Carlos Portugal a 22 de Fevereiro de 2011
Mas, em certos aspectos - lulas, socretinos e outros moluscos -, não são uma e a mesma coisa? (esta é mázinha...)

Cumprimentos
De Bic Laranja a 23 de Fevereiro de 2011
Pois isso é não sabemos...
Cumpts. :)
De George Sand a 22 de Fevereiro de 2011
Um acordo que está a destruir a língua portuguesa. E a contribuir para o afastamento entre portugueses e brasileiros. "1808" foi editado em Portugal "traduzido" para português de Portugal, porque os portugueses cada vez mais se recusam a ler o português do Brasil. Como forma de reaccção a este acordo idiota. Não tarda tremos que ler Jorge Amado "tradizido" o que também é um disparate. Conseguiram isto: afastar ainda mais a literattura dos dois países e sem necessidade nenhuma: estavamos muito bem como estávamos.
Recém chegada à blogosfera descobri mais um blogue, que gostei de ler.
De Carlos Portugal a 22 de Fevereiro de 2011
Pois é, Cara George Sand, quando há trinta e muitos anos eu estudava no IST, logo após o Verão «quente» de 1975, a míngua de bons livros científicos e técnicos em língua inglesa ou francesa (quase «proscritos» pelos fundamentalistas esquerdóides de então), forçava-nos a recorrer a miseráveis traduções brasileiras. Eram de arrepiar, já nessa altura, pois verificávamos que os brasucas simplesmente não usavam dicionário, limitando-se a «abrasileirar» termos que não entendiam e a deixar a frase na estrutura anglo-saxónica ou gaulesa - por inépcia, por preguiça, sei lá - deixando o texto praticamente ilegível. Tínhamos primeiro de adivinhar qual era a frase na língua original para depois a traduzirmos mentalmente. Um horror.

Contudo, agora ainda estão piores - bem piores! Muitos dos textos (e não estou a falar sequer em literatura, note) mais parecem traduções automáticas feitas por um qualquer software de terceira categoria...

Mas tem toda a razão. Esta abominação apenas está a provocar um afastamento irremediável entre portugueses e brasileiros, para além de tentar destruir a nossa Língua. E um ódio cada vez maior (se tal for possível) em relação aos trastes que nos desgovernam...

Cumprimentos.
De Bic Laranja a 22 de Fevereiro de 2011
O Saramago foi entrevistado por uma TV brasileira e foi para o ar legendado. Não me parece que tenha isso tido que ver com nenhum aborto gráfico. O Português correcto é só um, onde cabem todos os que o saibam falar e escrever; o que se rejeita em Portugal é o pendor para o crioulo que no Brasil se confunde com Português; o que os brasileiros rejeitam é o que desconhecem: a gramática e os portugueses.
Os bons autores e os que sabem verdadeiramente Português, sejam portugueses, brasileiros ou russos, acabam muitas vezes arrastados para um lodaçal que políticos ignorantes chamam lusofonia.
Grato pelo seu apreço.
Cumpts.
De George Sand a 22 de Fevereiro de 2011
Caros comentadores,

Possivelmente expressei-me mal. Quando me referia a literatura brasileira, estava a referir-me à literatura brasileira naquilo que ela tem de específico. Nos termos próprios de um Jorge Amado Baiano ou, mais recentemente, de Aldyr Garcia Schlee, por exemplo. Um fantástico escritor gaúcho, de fronteira (Uruguai) com uma linguagem muito própria, da zona onde se insere e, dificilmente traduzível em português de Portugal, até porque são termos que não existem cá.
Sou completamente contra este acordo aberrante. Mas penso que não vai vingar.
Quanto a Saramago ser taduzido, tem a ver com o que o comentador diz e, de facto, se falar cada vez pior, o português no Brasil.
Quem está neste momento a fazer grandes edicções e com enorme sucesso no Brasil é Lobo Antunes.
Cumprimetos a ambos
De Bic Laranja a 22 de Fevereiro de 2011
Compreendo o que quer dizer. O que digo é: se for texto em português há-de ser compreendido por qualquer leitor letrado. Os regionalismos resolvem-se com uma edição anotada. Mas se no Brasil é já crioulo o que se fala e escreve (e do que oiço e vejo muitas vezes é) então que mudem o nome ao que falam porque português sou eu.
Cumpts.
De Carlos Portugal a 23 de Fevereiro de 2011
Nem mais, Caro Bic.

Cumprimentos.
De Luísa Correia a 23 de Fevereiro de 2011
Também me chocou, Bic, ver na televisão Egito sem «p» ao lado de egípcios com «p». Fica um Egito sem dignidade nenhuma. ;-D E as dificuldades no estudo dos étimos (que é como quem diz, na compreensão profunda da língua) vão crescer em exponencial.
De Bic Laranja a 23 de Fevereiro de 2011
As etimologias? Pois se forjamos uma nova Idade Média este é o caminho certo. As palavras que temos tido, temos e teremos espelham sem dúvida a realidade coeva. (Olha, o corrector daqui dos comentários não conhece o vocábulo 'coeva'.)
Cumpts.
De Ativo a 23 de Fevereiro de 2011
A língua é viva, a escrita é que vai morrendo aos pouco e poucos. Faz parte.

http://fusivelativo.blogspot.com/
De Bic Laranja a 23 de Fevereiro de 2011
E vossemecê muito activo mutilando-a.
Cumpts.
De JPG a 24 de Fevereiro de 2011
«Não se preocupem que continuam a puder dizer contacto»
«Até os mais poderosos utilizam este espaço para comunicar e para serem consumidos como produtos políticos»

A julgar pelo "português" que usa, compreende-se a sua militância a favor AO90. Só não se compreende é o motivo que o leva a vir por exemplo aqui atirar com esse seu "linguajar" militante à cara de pessoas que até sabem escrever e tudo.
De Carlos Portugal a 24 de Fevereiro de 2011
Caro JPG:

Está-se a ver que o «Ativo» (sem «c») é um sistémico ao serviço dos socretinos e outros Kaddhafis, que o mandaram «estar de olho» nos blogues que não alinham pela barbárie...

É despachá-los para a Líbia, para o meio da população revoltada que emitiu uma «fatwa» contra o Kaddhafi e «sus muchachos»...

Cumprimentos.
De JPG a 24 de Fevereiro de 2011
Caro Carlos Portugal,

Eu cá, macacos me mordam, salvo seja, gostaria de entender o que pretendem ao certo estes acordistas da corda. Convencer quem do quê? Catolizar que indígenas em que novo ou velho Continente? Será que andam por aí a chatear as pessoas por puro ócio, por desgraçada estupidez ou será que é apenas para provocar mesmo?

Enfim, perguntas meramente retóricas - se bem que encanitantes - para as quais o melhor ainda será talvez usar a resposta universal de "nosso" PM: porreiro, pá!

Não quer dizer nada, mas pronto, mais vale ter uma resposta que não vale nada para perguntas que ainda menos do que ficar a gente matutando num assunto de valor equivalente.

Será de deixá-los ladrar, portanto.

Cumprimentos.
De Carlos Portugal a 24 de Fevereiro de 2011
Nem mais, Caro JPG...

Cumprimentos.
De Bic Laranja a 24 de Fevereiro de 2011
Um "abrantes", não é como se designam?
Cumpts. :)
De Bic Laranja a 24 de Fevereiro de 2011
Caramba! O que eu perco por desprezar certos "activos".
Grato pela achega. Cumpts.
De Victor Santos Carvalho a 24 de Fevereiro de 2011
Diz-se «incluir à»?«Incluir à lista?» Não! Todos sabemos que incluir é pôr dentro, fazer constar em. Incluir isto, aquilo, ou este ou aquela no rol, ou na lista. Quem escreveria então o que é um erro, mau e feio português? «Incluir à»? Talvez a Academia Brasileira de Letras num diploma sobre ortografia.
De Bic Laranja a 24 de Fevereiro de 2011
Não admira. Andam bem coadjuvados do lado de cá do sotaque.
Cumpts.
De Ativo a 25 de Fevereiro de 2011
Este não é primeiro nem será o último acordo porque, claro está, não é perfeito. A língua falada está sempre a ser modificada e cabe à ortografia acompanhá-la, por mais suscetibilidades (nem de propósito) que se possa ferir. Pensem noutras gerações mais novas que acham um disparate escrever Adoptivo, pensem, pelo menos, que para eles faz sentido, principalmente se estiverem a começar a aprender a escrever. E todos sabemos que o medo da mudança está enraizado na nossa cultura.
De Carlos Portugal a 25 de Fevereiro de 2011
Quando a mudança é para melhor, não há dúvida em abraçá-la. Agora, como no caso desta aberração ortográfica, quando é desconstrutiva e tendente ao abastardamento e à barbárie, então não se trata de medo, mas sim de resistência. Activa (com «c», pois em Portugal esta consoante é pronunciada). Por nós, pelos nossos filhos, por Portugal.

Cumprimentos.
De Bic Laranja a 25 de Fevereiro de 2011
No meio de tanta psicologia barata ainda não percebeu que o medo por aí enraizado é de ser-se acusado de velho do Restelo? Ganhe tino e veja se estuda as etimologias. Com elas até aprenderá melhor o inglês quando estiver a ver Noddy.
Cumpts.


De JPG a 25 de Fevereiro de 2011
eheheheheheheheheh
De J.A. a 1 de Março de 2011
Ao JPG
A propósito... escreveu:
"Não se preocupem que continuam a PUDER dizer contacto".
Não será antes...
"Não se preocupem que continuam a PODER dizer contacto"?
Como se diz em português "Quem tem telhados de vidro...
De Bic Laranja a 1 de Março de 2011
Respondo eu.
O excerto que atribui a J.P.G. não é mais que um exemplo retirado por ele do blogo do leitor Activo para nos ilustrar sobre o calibre da escrita dum defensor do aborto gráfico.
Cumpts.
De Raquel a 3 de Março de 2011
Tenho aversão a este "aborto" ortográfico. Actualmente, ler jornais como o "Expresso" e as legendagens dos telejornais da R.T.P.1 deixa-me de cabelos em pé, fico irritada e passo o tempo a corrigir mentalmente o que estou a ler! Para mim, este A.O. serve apenas aqueles que nada percebem da Língua Portuguesa, que não gostam (de) nem sabem ler.
Egito??? Então e a recessão e a receção??? Grrrrr...até fico arrepiada. Mas o que é isto?
Cumps
De Bic Laranja a 4 de Março de 2011
É tal e qual como diz. Um empecilho à leitura parido por analfabetos, como é óbvio.
Cumpts.

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