Domingo, 17 de Abril de 2011

Telifone

Cabina teefónica, Jardim Constantino (F.S. Cordeiro, s.d.)
Cabina telefónica, Jardim Constantino, [s.d.].
In Fundação Portuguesa das Comunicações.

 

 Uma cabina telifónica numa Lisboa hoje irreconhecível. O elemento que me permite identificar o local é o gradeamento ao fundo, à esquerda. De resto, nada na imagem se consegue achar no local agora; o prédio à direita, na esquina da Rua Passos Manuel para a Pascoal de Melo: demolido; e o que se vê lá onde o gradeamento acaba é o telhado do «Palácio dos Senhores de Pancas» (Rua de Arroios, 160-174) que ficou ao nível da Rua Pascoal de Melo quando se fez o viaduto. É Norberto Araújo quem nos diz dele:

 Ora aí tens êste prédio, n.os 160 a 174, a nascente, ainda com um certo feitio palaciano, de aspecto aliás vulgar, ao qual se encosta o viaduto. É conhecido, a despeito da trasnfiguração, pela designação de «Palácio dos Senhores de Pancas».
  Pertenceu o antigo Palácio na primeira metade do séc. XVII ao Desembargador André Valente (o que deu o nome à travessa que sai da Calçada do Combro e em cotovelo acaba na Rua do Século). Depois passou por compra aos Manuéis de Vilhena, Condes de Vila Flor, ainda no séc. XVII, e em 1810 (o tempo da «Sopa de Arroios») era de uma filha de D. Cristóvão Manuel de Vilhena, que casara com o 1.º e único Conde de Alpedrinha, Neto do Marquês de Pombal. Como os Vilhenas eram senhores de Pancas, o Palácio fez-se conhecido por esse título. Em 1863-1864 recebeu grandes transformações urbanas, mas a linha geral das sacadas ficou sensìvelmente a mesma. Já então a quinta havia sido aforada para construções de moradias. O contíguo «Pátio Dias» data de 1883 na forma com está hoje [1938].
  Como vês Dilecto, o Palácio Pancas de palácio só tem hoje o nome. É propriedade de Simões, Limitada, e nele estão instalados, além de vários inquilinos, a Escola Oficial n.º 25, uma esquadra de polícia, um colégio particular (*) de «Gil Vicente», e dois estabelecimentos.

Peregrinações em Lisboa, 2.ª ed., vol. IV, Vega, 1992, pp. 82-83.

 

Rua de Arroios, 172B-174, lisboa (A. Goulart, 1962)
Prédio para demolir (Antigo Palácio dos Senhores de Pancas), Arroios, 1962.
Artur Goulart, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

 


(*) Colégio particular e não privado; os meios de comunicação hoje só dizem... vós sabeis qual, muito mais à amaricana.

Escrito com Bic Laranja às 20:00
Verbete | comentar
14 comentários:
De Alê Crol a 18 de Abril de 2011
Olá, sou uma brasileira que adora blogs e passei por aqui para ler o seu.Achei linda as imagens das casas, o layout minimalista...
Passarei mais vezes!
Um beijo lindo, nessa terra linda e amada!
De Bic Laranja a 18 de Abril de 2011
Bem-vinda! Oxalá se não desiluda.
Cumpts.
De VSC a 19 de Abril de 2011
Não percebo a graça do «telifone». Refere-se a alguma anedota?
De Bic Laranja a 19 de Abril de 2011
É forma popular. Antiga, como a cabina.
N'«O Pátio das Cantigas» a saudosa Laura Alves, salvo erro, era assim que dizia: «telifone». Esse filme tem umas expressões bem apanhadas do falar popular que já se usavam naquele tempo; o Narciso (Vasco Santana) usa «giro»; a Maria da Graça usa «preguntar», com sotaque, e «tirica» com sentido de «danado». Deveras curioso, já naquele tempo.
Cumpts.
De VSC a 19 de Abril de 2011
Obrigado. Não conhecia, salvo giro, com os significados de agora.
De Bic Laranja a 19 de Abril de 2011
Agora de repente fiquei na dúveda se o «giro» do Vasco não do da Anatomia na Canção de Lisboa (1932)... Cumpts.
De Bic Laranja a 20 de Abril de 2011
...se o «giro» do Vasco não é do da Anatomia...
De Cristina Ribeiro a 19 de Abril de 2011
Uma associação de imagens ditada apenas pela cronologia: essas cabines fazem-me lembrar uma figura simpática, no alto de um pedestalzinho, para melhor ver e ser visto,o polícia sinaleiro.
De Bic Laranja a 19 de Abril de 2011
Bela lembrança essa. Para guardar...
Cumpts.
De PALAVROSSAVRVS REX a 19 de Abril de 2011
Este blogue é um monumento. Abraço.
De Bic Laranja a 19 de Abril de 2011
Obrigado! Gentileza sua.
Cumpts.
De João Baptista a 24 de Março de 2017
Boa tarde,
Sou um novato nestas lides da olissipografia e acompanho com muito prazer e proveito esta sua página. Prendeu-me recentemente a atenção esta fotografia do «Prédio para demolir» de 1962, identificada com o Palácio dos Senhores de Pancas.
Julguei, a princípio, tratar-se do edifício que lá se levantou depois do palácio original e antes dos que lá hoje se vêem.
Não tem sido fácil encontrar imagens deste palácio, para além daquela perspectiva lateral da famosa «Sopa de Arroios». Ainda assim, encontrei no número 85 da Revista Municipal (1960), numa sequência de imagens entre as pp. 30 e 31 (http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/RevMunicipal/N85/N85_master/N85.pdf), uma fotografia que mostra o palácio com a tal «linha geral das sacadas» de feitio antigo e o piso térreo já com uma arritmia na sequência das portas e janelas, que me parecem ser as tais «grandes transformações urbanas», de que fala Norberto de Araújo, provàvelmente resultantes da adaptação do edifício aos estabelecimentos que menciona.
Ora, na mesma fotografia consegue-se alcançar os dois corpos do edifício número 13 da Rua Pascoal de Melo (é interessante esta solução encontrada de dois corpos desnivelados, que mantém a harmonia das linhas dos telhados em ambas as ruas e cria um efeito muito diferente do que nos oferece o edifício em frente: agradável se visto da Pascoal de Melo, mas desproporcional se visto do Largo de Arroios). À vista desarmada, este número 13 parece-me ser um edifício dos finais dos anos 30 (corrija-me se estiver enganado), pelo que podemos afirmar que à década de 30, ainda lá estava o palácio, com aquele portão que dava acesso ao tal «Pátio Dias».
O «prédio para demolir» que aqui nos mostra, não pode - julgo eu... -, de modo algum, ser uma construção posterior a 1900.
Se este prédio ficava, de facto, no Largo de Arroios, e se tinha alguma relação com o palácio dos Senhores de Pancas, só poderá ser na continuação do largo, onde hoje estão os números 168 e 170, no que em tempos foram os jardins do palácio, como se pode ver na carta n.º 6 do Folque. A traça, de resto, é muito semelhante à do número 176, que ainda lá está ao lado.
De Bic Laranja a 24 de Março de 2017
Boa tarde:
Para novato nas lides olisipográficas devo dizer que vai adiantado. Li de relance as suas observações e espreitei o n.º da Revista Municipal que me indica e cuido que está o estimado sr. Baptista certo no que diz.
Se o prédio aqui apresentado tinha que ver com as casas dos senhores de Pancas era na sua continuação caminho do largo, sim. A imagem apresentada será assim meia descabida e o verbete manda ao engano. Fico a dever-lhe uma pertinende emenda e a esclarecedoras e preciosas imagens da Revista Municipal, que desconhecia. Logo que tenha mais vagar, hei-de estudar cuidadosamente tudo isto e farei a necessária revisão do verbete.
Muitíssimo obrigado!

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