Quinta-feira, 11 de Agosto de 2011

Do legado «ready made» aos vindouros

 Passou-me pelas mãos um tomo com o título «Jovens Criadores 2002». Edição bilingue luxuosa, em papel couché, publicada sob os auspícios da Secretaria de Estado da Juventude e Desportos, do Clube Português de Artes e Ideias e com o patrocínio doutros mecenas do Estado como a companhia dos Caminhos de Ferro e a Câmara de Santa Maria da Feira. Teve direito a uma tiragem de 1.000 exemplares, 1.000 e a um prefácio do sr. secretário de Estado da Juventude e Desportos, o notável Hermínio Loureiro. Não fiz caso de o ler.
 Folheando agora o tomo, vejo arrumada a cada duas páginas uma «criação» e a respectiva efabulação do autor sobre ela. Ao calhas tiro dois exemplos para vos dar:
 O 020 é do «jovem criador» João Bento, que filmou um gira-discos com discos a tocar. Chamou-lhe «Ready Made», em americano, e resumiu a coisa como «instalação de vídeo», sonora e a cores, com 8h de duração em repetição (loop). Parece que cabe na categoria de Artes Plásticas, Fine Arts em americano.
 «Ready Made», portanto.
 Na efabulação conceptual sobre a sua obra «Ready Made», o moço — perdão, jovem — «criador» João Bento explica a fundo a sua ideia: o filmar discos a tocar no gira-discos é «ambíguo e paradoxal» e simultaneamente «simples e objectivo» (ser «objectivo» é da essência de toda Arte, diremos todos!...); além disso diz que a coisa «propõe uma disfuncionalidade entre a TV e o gira-discos» materializando-se ao depois numa «espécie de jukebox».
 (Filmar discos num gira-discos resulta numa «espécie de jukebox»... — Muito bem! Muito bem!...)
 E ele há mais.
 Isto tudo assim posto «transporta-nos para questões relacionadas com a funcionalidade da arte e da TV [leia-se media] e a sua [dos media] incessante procura de um estado de implosão da realidade». — Pois se ele o diz... — Mas afinal quem diria! Uma simples filmagem de 8h dum gira-discos a tocar discos... Que ao ser proposta como «objecto artístico» dá a perceber — enfim! — «um espaço que para além de físico é conceptual.» Eis um rico conceito «Ready Made», ora bem! — Tal como também havia aquele outro que pulava sem parar tentando agarrar a atmosfera com as mãos e, perguntado do que fazia, respondeu que estava a apanhar nhanhas. E cá tendes assim a amostra doutro «espaço que além de físico é conceptual»: as nhanhas.

S.E.J.D., «Jovens Criadores 2002», Clube de Artes e Ideias, Lisboa, 2003, nº 020

 Aqui chegado, melhor é passar adiante o segundo exemplo que ia dar que é para não maçar; apesar de estarmos em Agosto há mais que fazer. E afinal há mil exemplares, mil, do livro publicados em papel durável que darão válido testemunho aos vindouros dos quês e porquês das nhanhas que lhes serão legadas pelos hermínios loureiros desta civilização.

(Revisto à 9h21 da noute.)

Escrito com Bic Laranja às 18:54
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2 comentários:
De Luísa a 12 de Agosto de 2011 às 19:25
Um professor de Teoria de Literatura para explicar o "lobby" da Arte (para mais tarde afunilar para a Literatura) aos burros dos meus colegas deu um exemplo que eu adorei. Cito de cabeça:
Professor: Ignorando o anacronismo, se o Dalí resolvesse espetar uma caneta nos jardins da Gulbenkien e assinasse por baixo, o que seria isso?
Eu: Arte, Professor.
Professor: E se fosse a mesma coisa, mas com um artista em início de carreira?
Eu: Depende, professor, precisaríamos de tempo. POderia ser que viesse a ser arte, poderia ser que viesse a ser esquecido.
Professor: Muito bem, muito bem. E se fosse a menina ou eu?
Eu: Seria considerado uma patetice. E nós seríamos chamados de malucos.
Os meus colegas ficaram a bichanar porque eu tinha dito que o professor seria chamado de maluco. Mas não atingiram que estas coisas das artes têm cada vez mais a ver com compadrio do que com qualquer capacidade artística.
E depois aparecem-me estas coisas... Será que quem catalogou isso como arte foram colegas meus?!? É que é cá uma arte ver gira-discos a rodar durante 8 horas... Nem 8 minutos (digo para ver, porque ouvir... não vejo mal nenhum em sentar e apreciar uma boa música em vinil!)
Acho que me vou dedicar a uma arte dessas... pode ser que dê dinheiro. :s

Gostei do "nhanhas", há já muito tempo que não ouvia/lia tal palavra! ;)
De Bic Laranja a 13 de Agosto de 2011 às 22:55
Pois já vê. Há cérebros (muitos) que só trabalham assim; não processam informação; ouvem qualquer cacofonia e olhe!... - reagem como que por encantamento no natural da sua estupidez inata. Aqueles na aula, em grupinho, bichanaram só. Fôra ele uma multidão e seriam capazes duma revolução desembestada. Reagem à cacofonia dos chavões e das palavras ao vento, bem lhe digo. E cacofonia é mais o que troa para aí. O «politicamente correcto» é toda uma cacofonia já sistematizada e pronta a consumir. E mentirolas avulsas, da publicidade à doutrinação particular para este ou aquele fim, é outro tanto. E eis o estado da arte. Estes jovens crentes na fé dos «criadores» (seja lá isso o que seja) são peças sendo maquinadas para a engrenagem. Os hermínios loureiros que esvoaçam sob os lustres das secretarias de estado são o resultado esperado para perpetuar a hidra: idiotas úteis fura-vidas largados ao gadanho foção do meu bolso. De vez em quando mandam-nos distribuir-me amendoins.
Cumpts. :)

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