24 comentários:
De Maria Oliveira a 1 de Outubro de 2011
Se ela me escutasse, a Maria, gostaria de lhe dizer, do meio da pouca sanidade mental que me resta, que pensamos da mesma forma. Infelizmente, estou do outro lado, pois sou professora. Choro por dentro, quando me lembro da obrigação de "ensinar" aquele monstro, o "aborto ortográfico" aos meus alunos... Todos os dias procuro alguma forma, por rebuscada que seja, de fugir a isto. Expor, dar-lhes conhecimento sem ensinar, de facto? É uma infâmia ter sido sempre perfeccionista e ter alunos de 7º que perguntam (porque ainda não uso o "aborto ortográfico" e só "exporei" nos tempos que aí vêm)
" - Professora, não tem ali um c a mais?"
A boca sabe a sangue... É como se estivesse rodeada de fogo, de tal forma abomino o "aborto ortográfico"! À minha volta, havia energúmenos que queriam empurrar aquele lixo logo na 1ª semana, mas eu opus-me. Tenho sido crucificada e, sempre que toco no assunto entre colegas, passo a ter lepra e fico a falar sozinha, de tal forma TODOS têm um medo que nunca vi antes. Odeio este país, odeio esta bandeira, odeio este povo. Gostava, isso sim, da Língua-mãe. Era estar em casa. Lembro-me daqueles que, por terem tido AVC ou doença degenerativa, já não sabem onde moram. Eu já não sei a que chame Pátria… Eu JÁ NÃO SEI ESCREVER... EU! Não sei que língua é aquela. Não compro livros editados após 2009, não os leio, nem compro jornais, nem vejo a RTP, nem leio os textos de que gostava na net... Não há palavras para descrever a minha angústia. É tão patológica a minha aversão como o é em tudo o que faz esta gente poucochinha, execrável, que merece todo o mal que lhe aconteça doravante. Um povo que deixa que lhe saquem o património é amorfo! Párias! Cambada de inúteis! Gado! Este povo é como gado. Fui crucificada, prejudicada pessoal e profissionalmente de forma indelével por dizer sempre o que penso e pensar sempre por mim. É ver-me falar, mesmo que com um sorriso nos lábios e ver os "bufos" e os SS a baixar o olhar, para irem logo a correr contar no Conselho Executivo o "escândalo" que é alguém ainda PENSAR no ensino português e OUSAR fazer perguntas ou fazer sugestões nas reuniõezinhas! É tudo para encher papel. Deus sabe a cruz que trago comigo. O ensino desespera-me, desgosta quem quer que tenha carácter, quem quer que não seja conivente. O que lhes interessa são as grelhazinhas, as "evidências", a organização de eventos em que são peritos, fazer umas flores, aparecer, despejar as matérias, ignorando o sofrimento que isto também causa aos alunos, interessa é rumar ao excelente, ir ao gabinete das chefias engraxar, tratar os alunos como se fossem de vidro e colar-lhes à pele muitas mentiras diárias. OS ALUNOS SOFREM com isto, e muito! Quando leio comentários de gente que acusa os anti-acordistas de não aceitarem a mudança, costumo sonhar que tenho aqueles "modernistas" à minha mercê: arrancava-lhes os dentes à chapada, a essa corja infecta que nem merece o chão que pisa! Ala, vão p'ró Brasil! Viver neste país enlouquece. Devagar, muito paulatinamente por vezes e de forma descarada noutras, os pulhas que sentam a parte do corpo com que pensam na Assembleia destruíram tudo. O país "jaz morto e arrefece” e esses Filhos duma Grande Mãe ainda batem em quem já está no chão. Isto não é um país, é uma cloaca! Todos os dias tento não me afundar, mas a vaidade desta gentinha nula, o vazio das conversas, a inveja, a cega meretriz com a qual o Vate fecha o seu épico diz tudo sobre os tortulhos que crescem por tudo quanto é sítio. Isto não é um país, é um proto-qualquer coisa que perdeu a vergonha...
Tal como a Maria, de bom grado eu deitaria AO LIXO TODOS os livros "AO" que me sujam as estantes de casa. JURO por Deus que já não sei que terra é esta. Apetece-me queimar o meu B.I. de "cidadã nacional". Cuidado, quando se diz que os professores já “amocharam”. Seja qual for a consequência desta vez (provavelmente, dão-me horário zero e correm comigo do ensino, que foi o que vi acontecer a alguns este ano), eu NUNCA ensinarei aquele aleijão aos meus alunos!
Ontem, um pequerrucho de 7º ano percebeu-me nas entrelinhas, leu a minha mágoa:
" - Que ironia, professora: decidiu começar a leccionar o Acordo após o feriado de 5 de Outubro, justamente a data que nos diz que somos livres de votar e escolher quem nos dignifique..."
De tron a 2 de Outubro de 2011
eu não comemoro o 5/10, para mim é um dia de luto nacional porque sou monárquico e basta ver os livros de história mesmo com o aborto ortográfico para ver o quão nos atrasou a república
De João Amorim a 2 de Outubro de 2011
Tudo o que a República disse que cumpriria foi um fiásco e desilusão. O "plano B" falhou, há já muitos anos. Nem a revisão ortográfica de 1913 (salvo erro) foi tão castradora. Este aborto ortográfico era mais um "aborto" que devia ter ido a referendo.
De Bic Laranja a 2 de Outubro de 2011
Nem referendo nunca se haveria de pôr. A únicas leis que conheço regerem a língua são as da Gramática. Mas, aqui chegados, referendar o tratado do nefando Acordo Ortográfico seria o mínimo a que deveríamos descer.
Cumpts.
De JPG a 3 de Outubro de 2011
A questão do referendo sobre o AO90, uma opinião que vale tanto como qualquer outra.

Já o disse e escrevi por diversas vezes e formas: isso nunca!

A explicação é simples e óbvia, parece-me: nunca em Portugal houve um referendo com resultados vinculativos (acima de 45% de votos expressos). Porém, mesmo não sendo vinculativos, esses mesmos resultados têm servido para

a) tomar resoluções políticas de implementação das políticas "vencedoras" (veja-se o caso do referendo ao aborto, por exemplo)
b) liquidar na prática qualquer espécie de viabilidade ou direito de retorno da parte "derrotada" (idem)

Ou seja: por um lado, nunca teríamos mais do que 10 ou, no máximo, 20% de votantes num referendo sobre o AO90; 80 ou 90% dos eleitores sequer se aproximariam de qualquer assembleia de voto nesse dia; por outro lado, uma de duas outras coisas se poderia passar: se ganhasse a rejeição do acordo (hipótese altamente improvável), o Poder instalado diria que os números não eram vinculativos (e não eram mesmo, eram ridículos) e que, portanto, continuaria tudo como dantes, acordo ortográfico em vigor; caso o AO90 fosse "aprovado" nesse referendo (muitíssimo provável, já que o PS e o PSD mobilizariam as suas máquinas), então pronto, era mesmo de vez, o AO90 ficaria em vigor para sempre e sem qualquer hipótese de retrocesso.

Com riscos de 80%, é claro, seria suicida sujeitar a Língua Portuguesa a plebiscito. Aliás, até por questões morais e patrióticas: o património nacional não se vota, é o que é e o que sempre foi; nenhuma maioria - relativa ou mesmo absoluta - pode impor a uma minoria aquilo que diz respeito a uma e a outra e que sequer pertence em exclusivo a qualquer delas.
De Bic Laranja a 3 de Outubro de 2011
Concordo. Já basta ter de baixar à Assembleia como se a Gramática se fizesse por decreto. António José Saraiva bem o sabia, tanto que certa vez ironizou: «O governo criou em 1911 uma comissão para refomar a ortografia, como se a língua estivesse nas atribuições das leis e do parlamento.»
O idioma não é para andarmos a mexer assim. Ele mexe por si da maneira que tiver de ser.
Cumpts.

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