De [s.n.] a 26 de Dezembro de 2011
Uma delícia! O escrito, a fotografia (que maravilha, especialmente pela data em que foi tirada) e o oportuno comentário, ácido como se impõe, inserido no próprio escrito. Tomara que os seus oportunos e sucessivos reparos relativamente ao abastardamento da língua portuguesa fossem tidos em linha de conta por quem de direito. Mas estou certa que um dia lá chegaremos. Utópico este meu desejo? Nem tanto. Mais tarde ou mais cedo tudo há-de retornar ao que já foi a norma no nosso país ainda não vão muitas décadas, inclusivé a nossa riquíssima língua. Se pensarmos que houve um interregno de sessenta anos na nossa independência após os quais acabámos por recuperá-la, uns míseros quarenta não são assim tantos. Embora e apesar de tudo contràriamente ao período filipino (que até no português deixou a sua pequena marca por influência de tantos anos de castelhano e não obstante com o tempo foi sendo abolida), segundo reza a História aquele não foi assim tão mau de suportar e no entanto teve o seu fim, enquanto que estes quase quarenta, que mais parecem oitenta, são a degradação e a humilhação totais e pesam que nem chumbo.

Todos os maus períodos da nossa História tiveram os seus dias contados. A este também chegará o seu fim na devida altura. Que todavia já tarda. Aguardemos contudo pacientemente. Deus escreve direito por linhas tortas.
Maria
De Alves Pereira a 26 de Dezembro de 2011
Cara Maria:
Como sempre, mordaz e não menos incisiva que o caro Bic… só lamento poder comungar do seu optimismo, respeitável, de resto…é que os Portugueses de 1140 e de 1640 e mesmo de 1940, não terão nada que ver com os de hoje, infelizmente…O caro Bic, disse aqui atrasado que Portugal, hoje, é tão imaterial como o fado, e, com algumas e honrosas excepções, isso é tristemente verdade; até poderá haver algures uma D. Catarina, preferindo ser rainha por um dia que escrava o resto da vida, mas quem a seguiria? Este, hoje apagado e vil povo, desde que consiga amesendar em casa do suserano, nada o fará sair desta letargia em que foi mergulhado por politiqueiros de 3ª linha que só têm no horizonte a sua manutenção no poder a qualquer – disse bem, qualquer – custo, custo esse que vamos pagar com língua de palmo.
Assim, não vejo que tal possa vir a acontecer, salvo uma verdadeira revolução que devolva Portugal (enfim, o que dele resta) aos Portugueses (e às portuguesas para fazer sorrir o Bic) e essa só será possível se as migalhas acabarem e o desconforto (físico, entenda-se, já que moral eles não têm) seja de tal ordem que se torne insuportável e faça esta pobre grei acordar e redescobrir as qualidades que levaram os nossos Maiores à nobre gesta dos descobrimentos…mas, a verificar-se a sequência de datas, isso só será lá mais para 2040. Enfim, tenhamos Fé.
Cumpts
De [s.n.] a 27 de Dezembro de 2011
Peço desculpa por corrigí-lo, mas fez confusão. Foi a princesa Dª Catarina, depois Raínha de Inglaterra, que levou a folha do chá para esse país e criou o hábito de o tomar às cinco da tarde. Rotina que jamais foi abandonada, sendo desde então a bebida preferida dos ingleses da qual não abdicam nem por nada desta vida. Eu que o diga, uma habituação adquirida pelo facto de lá ter vivido.

Quem disse a frase famosa: "Mais vale ser Raínha por um dia do que Duquesa toda vida" foi Dª. Luísa de Gusmão (Guzman na sua terra d'origem, apelido aportuguesado como sempre foi a norma em Portugal relativamente a vocábulos, nomes próprios, apelidos, nomes de terras, etc., estrangeiros.
Isto até há 3 décadas, está claro. Desde então tem sido um permanente aviltamento do português mais o ridículo uso e abuso de estrangeirismos. Para quê? Primeiro - e porque traidores que são, odeiam o país e tudo o que se lhe relacione - para destruir a língua pátria; depois, para que os analfabetos funcionais que se revezam há quase quatro décadas numa estudada alternância governativa, passem despercebidos e possam ascender aos mais altos cargos da Nação sem que se lhes sejam apontados erros de linguagem. Assim, temos políticos que raramente debitam um discurso, não raro uma só frase, sem que nele sejam proferidas brutas calinadas.

Hei-de repetir o mesmo até que apareça um português íntegro e patriota no respectivo Ministério que ponha um ponto final neste inferno (para nossa tortura mental, possìvelmente só quando se der uma mudança de regime): o que se passa no nosso país com o português falado e escrito por culpa exclusiva do Estado, mais do que um escândalo é um crime de alta traição. E os crimes de alta traição, segundo todas as constituições do mundo civilizado - são punidos com prisão perpétua*, quando não com a pena de morte (Estado Unidos e não só). Isto, à falta de já não estar consignado na lei desta espécie de república em que sobrevivemos o fuzilamento** puro e simples.
Cumprimentos.
Maria

* Eles são espertos que nem corais. Ao redigirem a nova Constituição já anteviam, se a não alterassem, o destino que os esperaria caso fosse um regime autoritário de direita a assumir o controlo do país.

** Aqui, na hipótese de um contra-golpe vitorioso de uma extrema direita à moda antiga, desse destino não escapariam de certezinha absoluta.
De koenige a 27 de Dezembro de 2011
Verbete eloquente e certeiro na sintaxe e semântica, como é norma no Sr. Bic Laranja.
Já quanto à pragmática, a ambiguidade perante um passado em que seguramente se praticava melhor a língua -- mas quantos a praticavam? E para quantos? -- abre caminho a saudosismos funestos, como a Sra. Maria demonstra.
Se a estes 40 anos de trevas, o contraponto luminoso são os 50 anos que os antecederam, razões sobram para esquecer o século todo de enfiada e recomeçar do zero.
De Bic Laranja a 27 de Dezembro de 2011
Nem tudo é para todos. Mesmo o dizer coisas. No Estado Novo tinham a noção dessa realidade e não na enjeitavam. Só o rasgo de entender coisa tão simples é uma lua cheia face à cerração dos amanhãs que cantam.
O saudosismo não é funesto, muito menos nos portugueses já que é a História que nos molda e a saudade nos anima. Funesta é a tábua rasa à memória sem saber o que se quere nem para onde se vai.
Feliz 2012!
De koenige a 27 de Dezembro de 2011
Bic Laranja e Maria,
Que nem tudo é para todos, mesmo o dizer coisas, continua a ser uma realidade hoje, embora por motivos e mecanismos bem diferentes. Já afirmá-lo positivamente é um acto que saúdo pela frontalidade: é dizer abertamente o que esta sociedade pratica pela calada. E é colocar-vos do outro lado da barricada sem dúvida.

Efectivamente, não faço inteira ideia das motivações que levam a tais opiniões; em vossa resposta porém me dou por mais esclarecido, e tanto menos disposto a recuar. Achais, estou supondo, que é boa ideia reprimir pela violência a divergência política (por vontade de Maria, o fuzilamento aceita-se), que é avisado restituir a censura, que é justo proibir sindicatos. Achais quiçá que é de reduzir a escolaridade, porventura para a antiga escola primária -- certamente então nossas dirigentes brilharão em actos e verbo com o fulgor que julgais perdido. Entre outras práticas e realidades desse regime político que apreciais.

A barbárie destes tempos tem raízes mais antigas do que supondes. Donde cuidado com o que desejais: arriscais ver-vos em grande concerto com o caminho do mundo nos tempos vindouros. Que fareis então dessa estética da revolta?
De Bic Laranja a 28 de Dezembro de 2011
Que pena a capacidade de análise que demonstra lhe não atalhe o deslize; a apreciação sem matizes, o estar deste ou do outro lado da barricada, já para nem referir os lugares-comuns sobre o Estado Novo em que se perde são mais de quem se cultiva com jornais baratos do que com bibliografia escolhida. Não me dou ao trabalho fácil de lhos rebater, há-de entender, nem foi o tema aqui chamado. Fica o seu desabafo e dois ou três passos de Camilo no proémio ao «Perfil do Marquez de Pombal»:
« A porção do povos que não aprende nada em livros achou nos clubs (hoje dir-se-ia TV) a educação amoldada á sua capacidade, á sua docil ignorancia [...] Industriam-no discursadores efficazes, grandes "phraseurs", umas vezes ingenuos na sua insciencia audaciosa, outras vezes fraudulentos [...] O que elles necessitam é mais larga comprehensão de Justiça, que só se adquire com esforçado trabalho de annos, menos palavrorio de clubs, e mais canceira de estudo reflexivo.»
Feliz ano novo!
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