Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

Da cambada...

A.N.T.T., Jornal «O Século», J. Benoliel, Lt. 09, cx. 04, neg. 10

«O sr. D. Carlos tambem hontem não assistiu á tourada no Campo Pequeno.

(Dos jornaes).

 


 

 — Está aqui tudo?
 — Creio que não falta nada. Poz a mala em cima d'uma cadeira, para não estar a dobrar-se muitas vezes, e foi tirando peça por peça. D'ahi a pouco estava inteiramente transfi­gurado. As suissas assentavam-lhe na perfeição, e os oculos de ouro, com vidros sem grau, transformaram-lhe de tal modo a physionomia, que nin­guem, mesmo dos seus familiares, o conheceria sob aquelle disfarce. As calças é que lhe ficavam um boccadinho justas nas pernas, e o collete, se fosse um tudo nada mais comprido, dir-se-ia ter sido feito para elle — por medida e com prova. Pegou na bengala, de castão de prata, poz na cabeça um Panamá, quebrado na frente, e carregou no botão d'uma campainha electrica.
 — Se não soubesse...
 — De primeira ordem, não é verdade?
 — Uma transfiguração á Rocambole.
 — Obrigado pelo cumprimento; mas como tu é que me escolheste a farpela...
 — Limitei-me a cumprir fielmente as indicações recebidas.
 — De modo que não haverá perigo...
 — Absolutamente impossivel conhecel-o, disfarçado como está.
 — Pois olha, já que entrei n'este caminho, quero fazer a coisa completa. Has de comprar-me um bilhete de sol.
 Quando entrou na praça, ainda as cortesias não tinham começado. Arranjou um logar ao pé da musica, e poz-se a fumar um cigarro ainda por dis­farce. Á hora marcada, com uma pontualidade fóra do costume, a função principiou. Estava interessado, contente e ancioso, como se pela primeira vez assistisse a um espectaculo ardentemente desejado. Surprehendia-se a gritar com toda a força, quando o sol inteiro gritava e ainda teve o chapéu na mão, para o atirar ao redondel, enthusiasmadissimo com um cambio.
 No intervallo, como não sahisse o visinho da direita, pedindo-lhe fogo, entrou a dar-lhe conversa.
 — Vê-se que o amigo é amador.
 — Como poucos. Isto é um divertimento real.
 — Lá isso real...
 — Pois sim... Mas o rei vem aqui muitas vezes?...
 — Vinha muitas vezes, é o que você quer dizer...
 — E agora já não vem?
 — Acho que cortou a coleta.
 — Elle, afinal, tudo aborrece.
 — Ora ahi está. E foi exactamente por ver que aborrecia, que elle deixou de apparecer. Sabe o amigo uma coisa? Tenho estado a reparar que você se parece... 
 Não acabou a phrase. Já o outro se tinha levantado, a fingir que alguem o chamava.
 D'ahi a pouco, no mesmo quarto em que mudára de farpela, dava-se a um trabalho de mil demonios para se desembaraçar das calças, muito justas nas pernas.
 — Ninguem desconfiou, é claro?
 — É claro que des
confiaram. Um gajo que estava sentado ao pé de mim, se me não safo tão depressa...
 — E disse-lhe alguma inconveniencia?
 — Lá bem inconveniencia...
 — O melhor, para outra vez...
 — O melhor para a outra vez, é não ir lá. Corto definitivamente a coleta.
 — E a quadrilha?
 — Lá isso fica como estava.
 E atirando com as suissas para cima da cama, a meia voz com despreso:
 — Isto é que é uma cambada!...»

Brito Camacho, Ao de Leve, Guimarães, Lisboa, 1913, pp. 60-62.

 

Fotografia: A.N.T.T., O Século, Joshua Benoliel, lt. 09, cx. 04, neg. 10.

Escrito com Bic Laranja às 07:30
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2 comentários:
De [s.n.] a 2 de Fevereiro de 2012
Uma delícia ler estas descrições de B. Camacho.

Lá se tal 'tourada' (aqui significando disfarce extraordinário do Rei para assistir incógnito a uma verdadeira tourada), é uma história verídica ou simples fábula, não sei. O que sim sei, é que D. Carlos assistia frequentemente a touradas designadamente no Campo Pequeno, apresentando-se igual a si próprio.
Tal como contava o meu Pai e com algum orgulho, teria 4/5 anos, assistiu no Campo Pequeno a uma Tourada Real em que estava presente D.Carlos, que conheceu por ter sido levado pela família monárquica de quem era afilhado de baptismo, ao camarote real para os cumprimentos da praxe. (Já contei este episódio na blogosfera há algum tempo).

Agora imagine-se (já estudante e depois adulto) um republicano inabalável - e foi-o por ter sido educado em Coimbra dos 4 aos 23 anos, o que, salvo excepções, acontecia à estudantada d'então e de sempre - vivendo rodeado de monárquicos... e não obstante permaneceu republicano até à morte! Hábitos adquiridos no Liceu e na Universidade.

Bem, diga-se em abono da verdade que sendo o nosso Pai uma pessoa de extrema integridade e de educação e formação moral superiores, o seu inato republicanismo em nada afectou os contactos que foi mantendo durante muitos anos com colegas monárquicos, mais tarde já médicos, juristas, etc., sem esquecer esta ilustre família amiga de quem contava histórias deliciosas. Só com o tempo e o desaparecimento físico d'alguns e o formar família por outros, provocando a mudança de cidade de muitos deles, obrigou a que fossem interrompidos ou atenuados os laços que os uniam.

As relações d'amizade profunda com os descendentes dessa família amiga dos nossos pais (que nós, filhos, ainda miúdos, chegámos a conhecer bem, porque nos visitavam com relativa frequência) isso manteve-se para sempre.

O ambiente de elevada educação, regras rígidas e princípios invioláveis em que cresceu e se educou, terá tido enorme influência na sua formação, postura e até... no seu futuro. Porque, ironia das ironias, veio a casar-se com uma monárquica, minha Mãe, cuja família, toda ela, o era igualmente. Inacreditável.
Este facto não o fez mudar de ideologia, nem pouco mais ou menos...

Porém os elevados princípios morais e éticos recebidos desde a infância à idade adulta fizeram do nosso Pai uma pessoa extraordinária. Sensível, íntegro, honestíssimo, patriota. Muitíssimo rígido na educação dos filhos (os meus irmãos, que eram uns terroristas de primeira apanha, queixam-se de que foi rigoroso demais com eles... a palmatória mandada fazer de propósito sofreu desgaste) mas dando a vida por eles se preciso fosse. Lá está (isto é o que faz falta hoje em dia) a autoridade, princípios exemplares, a nobreza de atitudes e os bons exemplos vindos dos mais velhos, foram decisivos na sua elevada formação moral e integridade como pessoa. Não é pois de admirar que, polìticamente falando, jamais tenha ostracizado ou sequer beliscado as demais ideologias e muito menos pessoas conhecidas ou amigos que as professassem.

Havia uma excepção: alguns políticos da 1ª República, da sua estimada esquerda claro está, mas de cujo desempenho vergonhoso e sanguinário não se coibia de dizer das poucas e boas...

O nosso Pai foi um extraordinário educador e um ser humano excepcional. Se ele estivesse vivo hoje, perante a degradação física e moral em que nos obrigam a viver há décadas, duvido que, pela sua rectidão de carácter, ele continuasse a acreditar num regime corrupto, mentiroso e ladrão, obra de 'democratas' que nos foi decretada como se da pena de morte em vida se tratasse. E foi exactamente isso que eles planearam desde o início.

O nosso Pai, como bom republicano, aquando do 25/4 bem satisfeito ficou (mas não se exteriorizou lá muito, parecia que adivinhava o futuro a que não assistiu) como de resto a maioria dos portugueses. Mal estes imaginavam as toneladas de veneno impregnadas de hipocrisia, cinismo e maldade que iriam ser obrigados a tragar durante décadas. Se os portugueses tivessem tido o mínimo pressentimento dos crimes de alta traição que se estavam a preparar nas suas costas e que viram a luz do dia em menos de um fósforo, outro galo cantaria. E outro destino bem mais à sua medida lhes estaria reservado.
Maria
De MLisboa a 2 de Fevereiro de 2012
Belíssimo texto a recordar esse Homem fantástico que foi o nosso Rei D. Carlos.
Obrigada.

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