2 comentários:
De [s.n.] a 2 de Fevereiro de 2012
Uma delícia ler estas descrições de B. Camacho.

Lá se tal 'tourada' (aqui significando disfarce extraordinário do Rei para assistir incógnito a uma verdadeira tourada), é uma história verídica ou simples fábula, não sei. O que sim sei, é que D. Carlos assistia frequentemente a touradas designadamente no Campo Pequeno, apresentando-se igual a si próprio.
Tal como contava o meu Pai e com algum orgulho, teria 4/5 anos, assistiu no Campo Pequeno a uma Tourada Real em que estava presente D.Carlos, que conheceu por ter sido levado pela família monárquica de quem era afilhado de baptismo, ao camarote real para os cumprimentos da praxe. (Já contei este episódio na blogosfera há algum tempo).

Agora imagine-se (já estudante e depois adulto) um republicano inabalável - e foi-o por ter sido educado em Coimbra dos 4 aos 23 anos, o que, salvo excepções, acontecia à estudantada d'então e de sempre - vivendo rodeado de monárquicos... e não obstante permaneceu republicano até à morte! Hábitos adquiridos no Liceu e na Universidade.

Bem, diga-se em abono da verdade que sendo o nosso Pai uma pessoa de extrema integridade e de educação e formação moral superiores, o seu inato republicanismo em nada afectou os contactos que foi mantendo durante muitos anos com colegas monárquicos, mais tarde já médicos, juristas, etc., sem esquecer esta ilustre família amiga de quem contava histórias deliciosas. Só com o tempo e o desaparecimento físico d'alguns e o formar família por outros, provocando a mudança de cidade de muitos deles, obrigou a que fossem interrompidos ou atenuados os laços que os uniam.

As relações d'amizade profunda com os descendentes dessa família amiga dos nossos pais (que nós, filhos, ainda miúdos, chegámos a conhecer bem, porque nos visitavam com relativa frequência) isso manteve-se para sempre.

O ambiente de elevada educação, regras rígidas e princípios invioláveis em que cresceu e se educou, terá tido enorme influência na sua formação, postura e até... no seu futuro. Porque, ironia das ironias, veio a casar-se com uma monárquica, minha Mãe, cuja família, toda ela, o era igualmente. Inacreditável.
Este facto não o fez mudar de ideologia, nem pouco mais ou menos...

Porém os elevados princípios morais e éticos recebidos desde a infância à idade adulta fizeram do nosso Pai uma pessoa extraordinária. Sensível, íntegro, honestíssimo, patriota. Muitíssimo rígido na educação dos filhos (os meus irmãos, que eram uns terroristas de primeira apanha, queixam-se de que foi rigoroso demais com eles... a palmatória mandada fazer de propósito sofreu desgaste) mas dando a vida por eles se preciso fosse. Lá está (isto é o que faz falta hoje em dia) a autoridade, princípios exemplares, a nobreza de atitudes e os bons exemplos vindos dos mais velhos, foram decisivos na sua elevada formação moral e integridade como pessoa. Não é pois de admirar que, polìticamente falando, jamais tenha ostracizado ou sequer beliscado as demais ideologias e muito menos pessoas conhecidas ou amigos que as professassem.

Havia uma excepção: alguns políticos da 1ª República, da sua estimada esquerda claro está, mas de cujo desempenho vergonhoso e sanguinário não se coibia de dizer das poucas e boas...

O nosso Pai foi um extraordinário educador e um ser humano excepcional. Se ele estivesse vivo hoje, perante a degradação física e moral em que nos obrigam a viver há décadas, duvido que, pela sua rectidão de carácter, ele continuasse a acreditar num regime corrupto, mentiroso e ladrão, obra de 'democratas' que nos foi decretada como se da pena de morte em vida se tratasse. E foi exactamente isso que eles planearam desde o início.

O nosso Pai, como bom republicano, aquando do 25/4 bem satisfeito ficou (mas não se exteriorizou lá muito, parecia que adivinhava o futuro a que não assistiu) como de resto a maioria dos portugueses. Mal estes imaginavam as toneladas de veneno impregnadas de hipocrisia, cinismo e maldade que iriam ser obrigados a tragar durante décadas. Se os portugueses tivessem tido o mínimo pressentimento dos crimes de alta traição que se estavam a preparar nas suas costas e que viram a luz do dia em menos de um fósforo, outro galo cantaria. E outro destino bem mais à sua medida lhes estaria reservado.
Maria
De MLisboa a 2 de Fevereiro de 2012
Belíssimo texto a recordar esse Homem fantástico que foi o nosso Rei D. Carlos.
Obrigada.

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