14 comentários:
De Bic Laranja a 12 de Setembro de 2012
Peço licença à estimada Maria de usar o seu primeiro exemplo sem o «desde» (já lá vamos) por maior simplicidade:
  1. Há vinte anos que viajo sempre para o mesmo país. -- Narrativa no presente; acção recorrente não concluída (ou em curso).
  2. Havia vinte anos que viajava sempre para o mesmo país. -- Narrativa no imperfeito; acção ocorrida e interrompida no passado.
  3. Houve vinte anos que viajei sempre para o mesmo país. -- Narrativa no pretérito perfeito; acção ocorrida e concluída no passado.
  4. Houvera/tinha havido vinte anos que tinha viajado/viajara sempre para o mesmo país. -- Narrativa no pret.-mais-que-perf. (simples e/ou composto); acção ocorrida e concluída no passado.

a) Experimente conjugar «viajar» nas outras pessoas (sing. e plural) sem mudar o verbo haver tal como lá está.
Alguma se torna errada? -- Não.

b) Experimente agora mudar o verbo «haver» para «há» nos quatro casos e conjugar «viajar» em todas as pessoas do sing. e plural.
Alguma se torna errada ou macarrónica? -- Alguma(s). Nem todas.

Bem me parece que a conjugação com «há» (dez/vinte/trinta dias/meses/anos) tende a sobrepôr-se, invariável, na maioria dos casos, mas (ainda) não em todos. Por conseguinte, incorreremos menos em erro
no caso a) do que no caso b). Basta coordenar o tempo dos verbos nas duas orações.



DESDE:
Diz a Gramática do Lindley Cintra e do Celso Cunha que «desde» é intensivo de «de». Digo eu que dizer-se «de há vinte anos» é intensivo de se dizer «há vinte anos». Logo, «desde há vinte anos» é duplamente intensivo de, simplesmente, «há vinte anos». É uma questão de gradação do discurso. Nalguns casos será virtuoso, noutros mera redundância. Cuido que vivemos tempos de muita prolixidade e de pouca gramática. O resultado está por toda a imprensa, literatura, blogos, textos particulares, o que se queira.
Com o uso crescente do verbo «haver», no sentido de período de tempo, invariàvelmente na terceira pessoa do singular, o idioma empobrece. Ora o uso de «de» e «desde» a acompanhá-lo que se dá apenas nesta flexão «há» (nunca em «houve», «havia» etc.), quanto mais recorrermos às ditas preposições, mais forçamos a forma «há» em detrimento das restantes flexões. Neste sentido, «haver» torna-se defectivo. Se tiver de ser que seja, mas que não seja por mim. Por mim, até digo que aquele 1.º exemplo lá de cima como -- hei (ou tenho) vinte anos que viajo sempre para o mesmo país. Não lhe minto, tenho vinte anos que viajo sempre para o Algarve!
Cumpts.
De [s.n.] a 12 de Setembro de 2012
Está tudo muito certinho e muito explicadinho, sim senhor. Mas continuo a discordar aqui e ali, num ponto ou noutro... Mas quem sou eu para dar lições a um sintaxiólogo do seu calibre? Nobody, really:)
Maria

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