Sábado, 13 de Outubro de 2012

Do B.º da Madre de Deus a Alvalade em vista aérea

  Desta agora nem sei se consigo dizer tudo. O benévolo leitor ajudará se souber. Prima a imagem para ver à lupa e cfr. com o que vem de Alvalade à Madre de Deus em vista aérea.
 No quadrante inferior esq. a vila Dias a par da linha do Norte. Ao centro, as traseiras da Fábrica das Varandas (Fábrica de Fiação e Tecidos Oriental). Na dir. em baixo ainda se apanha o Grilo. Mais acima, também á direita e bem marcada, serpenteia a Azinhaga da Salgada até desembocar nas quintas das Conchas e das Conchinhas, acima de Chelas, que estiveram dadas à Fábrica da Pólvora. O Convento de Chelas, ele mesmo se vê mais ou menos centrado no quadrante superior direito, logo ali, onde o ramal de concordância de Xabregas entronca na linha de cintura (est. de C.F. de Chelas). Ao longo desse ramal todo (diagonal do quadrante sup. dir. ao inf. esq.) o vale de Chelas, com uma nesga da Rua Gualdim Paes e vislumbre da Estrada de Chelas; no meio delas fábrica das chitas (que houve no tempo da primeira revolução industrial); mais à esquerda, no limite da imagem, a banda oriental do cemitério oriental de Lisboa: o do Alto de São João; entre ele e a Estrada de Chelas, a Calçadinha de Santo António demarcando as quintas de S. João de Baixo e do Lavrado. Até à Picheleira, a Calçada do Carrascal. Até à quinta da Curraleira a Rua do Sol a Chelas. Separando a Picheleira do Alto do Pina a quinta Nova ou do Gago e o Casal Novo, antes de chegar à quinta das Olaias já para lá do bairro da Picheleira.
 Na Picheleira, o antigo Casal dos Ladrões [ou Casal da Porciúncula] dantes da edificação do bairro (e poiso de «rebeldes» em Setembro de 1833 a par do Alto de S. João, no tempo das lutas liberais), acham-se bem visíveis os campos de bola do Vitória e do Padre (depois campo dos Telefones); o primeiro em cabeço terraplenado, a quinta do Grilo; o último em planalto resultante de aterro sobre o vale da quinta da Conceição de Baixo (que separava o casal do Pinto da quinta dos Embrechados).
 Do convento de Chelas para lá acha-se uma tira de caminho -- a Azinhaga do Armador -- que nos guia o olhar por cima das quintas até ao limite urbanizado de trás da Igreja de S. João de Brito: é o bairro adjacente à Av. de Dom Rodrigo da Cunha. Além dela adivinhamos talvez o Pote de Água ou as fitas pretas das pistas da Portela a raiar o topo sup. direito da imagem. E mais cá, ainda no vazio de cidade do quadrante sup. dir., podemos, se quisermos, adivinhar as quintas da Rosa, de São Pedro, de S. Pedro dos Peixes, do Armador, da N.ª Sr.ª da Conceição, da Penha, do Malapinho, do Malapo (ou Malapados?), Nova da Bela Vista, dos Mouzinhos, da Flamenga, dos Poiais Vermelhos, dos Alfaiates, do Alpoim, das Teresinhas, quiçá da Graça, já não sei...

Vista aérea do B.º da Madre de Deus a Alvalade, Lisboa (M. Oliveira, 1955)
Vista aérea do B.ª da Madre de Deus a Alvalade, Lisboa, 1955.
Mário de Oliveira. Arquivo Fotográfico da C.M.L..

(Revisto em 14 de Outubro às cinco para as 11h00 da manhã e em 21/XI/18 ao meio-dia e meia.)

Escrito com Bic Laranja às 21:30
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7 comentários:
De Agostinho Paiva Sobreira a 15 de Outubro de 2012 às 17:00
Caro BicLaranja. Fiquei maravilhado com estas imagens. Fez-me recuar uns bons anos. No tempo em que eu ia jogar futebol aos campos da Estrada de Chelas, e outro mais acima chamado do "Lérias". Bons tempos!Se me permite, posso acrecentar um pouco de comentário à foto: Subindo a Rua que nos fica à direita (Calçada do Grilo) até á bifurcação e virando um pouco para a esquerda(sentido Bairro da Madre de Deus), o segundo edifício com ringue de parinagem na parte de trás, era o «ATENEU DA MADRE DE DEUS». Passando para o lado esquerdo da foto na parte inferior podemos ver metade do início do túnel da CP no sentido para Chelas. Andando para a direita (sempre na parte sul) vamos encontrar vestígios do «FORTE DE S. FRANCISCO», mesmo ao lado da antiga «FÁBRICA DAS VARANDAS». Ainda no lado esquerdo da foto podemos ver a «RUA GUALDIM PAIS» que no seu lado direito apresenta a »VILA EMÍLIA» (ainda resistente) e no seu lado esquerdo a extinta «TINTURARIA PORTUGÁLIA». Logo a seguir ainda existia o «PÁTIO JOSÉ INGLÊS». Deixando a «RUA GUALDIM PAIS» subindo em direcção ao «BAIRRO DA MADRE DE DEUS», podemos ver nitídamente lugares que eu conhecia bem (1953), chamavam-lhe a "ILHA", que fazia fronteira com o «BMDEUS» na parte sul. E mais não digo para outros poderem comentar. Um abraço. APS
De Bic Laranja a 16 de Outubro de 2012 às 18:07
Boa vista. Passou-me o túnel da Bruxa. O forte de S. Francisco bem me lembrou um forte, sim, mas pelo desarranjo nem passei de fugaz ideia a conjectura mais sólida...
A tinturaria. A designação que me faltava e por isso me vali da ancestral «fabrica das chitas» para apontar o local entre a Estr. de Chelas e a Gualdim Paes.
O pátio do inglês foi arrasado (como quase todo o troço da Estr. de Chelas da Amorosa à Gualdim Paes).
Boas achegas, obrigado.
Cumpts.
De tron a 22 de Outubro de 2012 às 05:39
Como era Lisboa e como está agora
De Bic Laranja a 23 de Outubro de 2012 às 11:45
Pois é.
Cumpts.
De Madalena S F a 13 de Outubro de 2017 às 00:35
Já lá vai algum tempo mas mencionou aqui a Quinta dos Poiais Vermelhos. Sabe dizer-me alguma coisa sobre essa quinta, onde encontrou o registo dela e tb onde poderei pesquisar algo? Fico muito agradecida desde já. Culpto
De Bic Laranja a 14 de Outubro de 2017 às 22:43

A quinta dos Poiais Vermelhos vem mencionada sumàriamente em Ralph Delgado n' A Antiga Freguesia dos Olivais (Grupo Amigos de Lisboa, Lisboa, 1969, p. 27), referida à Estrada de Sacavém, como um dos lugares e propriedades principais. — Erradamente vem ali impressa como Quinta dos Goiais Vermelhos, por gralha tipográfica ou erro de leitura do A. dalguma das plantas 12 N ou 12 O do Levantamento da Planta de Lisboa: 1904-1911, (C.M.L., Arquivo Municipal, Lisboa, 2005), onde achamos uma representação a quinta.

Segundo as ditas plantas 12 N, 12 O e 12 P, confrontava esta quinta a
— N com a Azinhaga e Quinta das Therezinhas (Colégio Suzanna de Valsassina);
— S com a quintas do Polão e da Ferradura;
— E com as quintas dos Alfaiates (ou Alfaiatas), da Bella Vista e Nova da Bella Vista;
— O com a Estr. de Sacavém (Av. do Aeroporto), com as quintas da Fonte Coberta, da Noiva, da Fronteira (Av. E.U.A. x Av. Gago do Aeroporto) e de Santa Cruz ou da Montanha.

Uma descrição desta quinta acha-se num anúncio de venda na Gazeta de Lisboa, n.º 10, de 12 de Janeiro de 1824, a pp. 39:
Vende-se a Quinta dos Poiaes Vermelhos, sita na estrada real que vai de Arroios á Portella, N.º 430, e consta de 3 grandes hortas com seus poços de nora, e tanques, olivaes em terras de semeadura, e vinha que dá para cima de 40 pipas de vinho, parreiras, e arvores de fruta; e tem boas casas nobres, com Capella, adêga, lagar e muitas casas para todas as precisas accommodações, cocheira, e cavalharices, he livre de foro : quem a quizer comprar, falle com seu dono que mora na mesma quinta.

O anúncio não identifica o dono da quinta, mas acha-se no Arquivo Municipal notícia dum certo dr. José Joaquim da Costa, em 9 de Junho de 1787, como sendo ou representando o proprietário dumas quintas aos Poiais Vermelhos, [as quais] pretende murar pela parte que confina com a estrada pública que vai desta cidade para Sacavém, e que foi embargada a obra (Arq. Hist. Mun. de Lisboa, Administração, Livro de cordeamentos de 1760-1789, fs. 401 a 412v.)

O Alto da Bella Vista, onde se tem realizado o Rock In Rio de Lisboa, fica no perímetro que foi desta quinta. As boas casas nobres, com Capella e restantes accommodações que foram dela eram pelo actual n.º 80 da Av. do Aeroporto (pouco mais ou menos a par da Quinta de Santo António, que lhe ficava — e ainda lá está hoje com o nº 81 — no lado oposto da estrada); as hortas, mai-los poços e tanques do anúncio da Gazeta de Janeiro de 1824 abrangeriam uma correnteza dos actuais n.ºs 70-98 da Av. do Aeroporto.

João M.ª Baptista e João Justino Baptista de Oliveira, na Chrographia Moderna do Reino de Portugal (vol. IV, Lisboa, 1874, p. 742), mencionam de raspão esta quinta na parte referente ao Concelho e Freguesia dos Olivaes.

Fica para outra oportunidade a consulta à Corografia Portugueza do Padre Ant.º Carvalho da Costa. Pode ser que lá diga o nome do dono e a invocação da capela.

Cumpts. :)
De Madalena S F a 14 de Outubro de 2017 às 23:09
Estou muitissimo agradecida pela sua resposta, tão completa. Nada diz que tenha ligação, como eu tinha alguma esperança, a um antepassado meu (não directo e não da nobreza)) que em 1814 era proprietário desta quinta, mas talvez com os dados que já me adiantou, poderei avançar com mais pesquisas. Não quero maçar ninguém, e por isso o informo que o que me move e a outros familiares, é um interesse comum e uma forte curiosidade "geneológica", por saber o que foram e faziam os meus antepassado. Mais uma vez muito obrigada.
Cumprimentos

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