Quarta-feira, 20 de Março de 2013

Fora com caco gráfico!


 Anda mal parado o português.
 Terminou há pedaço o forum Onde pára e para onde vai a Língua Portuguesa. Oradores de nomeada, sala à cunha com velhos do Restelo de todas as idades.
 Quem pôde ir aprendeu coisas muito interessantes dos meandros da cacografia oficial. Tinha lido ou ouvido algures que logo que se soube do Acordo Ortográfico caco gráfico em 90, os directores da Grande Reportagem, do Público e d' O Independente, respectivamente Miguel Sousa Tavares, Vicente Jorge Silva, e Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas (os dois últimos emparelhavam na direcção d' O Independente) fizeram trato de nunca seguirem a cacografia do Malaca. A Grande Reportagem e O Independente, como sabeis, acabaram, mas Miguel Sousa Tavares nunca admitiu o caco gráfico nos livros que publicou no Brasil nem no aceita nos seus textos publicados no saco de plástico, e Miguel Esteves Cardoso bem sabeis que permanece contra, e como talcontinua a publicar no Público; neste jornal, também, a palavra de Vicente Jorge Silva é mantida por quem no hoje dirige -- aliás o seu vice-director [director adjunto, digo] Nuno Pacheco foi um dos oradores no forum desta tarde. -- Só o alcatruzado a ministro, Paulo Portas, é que se faz desentendido do que seja sequer o Acordo Ortográfico, segundo disse Sousa Tavares, sempre que lhe este fala nele.
 Do saco de plástico disse o orador José Luís Porfírio uma coisa sintomática acerca do modo de os acorditas levarem por diante o atropelo: quando pediu excepção à mutilação dos seus textos pelo saco de plástico, à semelhança de Sousa Tavares, recusaram-lho; parece que no Expesso há quotas para cronistas que recusem o caco gráfico e, quando José Luís Porfírio o requereu para si, já se deviam ter esgotado. Vale-nos a sua (de José Luís Porfírio) mestria com as palavras para contornar o uso da aberrante grafia que os acorditas, municiados pelos seus corretorezinhos, lhe procuraram impor. O registo de quero, posso e mando desta tropa acordita é inegável. Ainda há instantes emendei a entrada da enclopédia livre sobre José Luís Porfírio porque estava em «acordês». -- Pois se o próprio biografado é peremptoriamente contra tal forma de escrever!... -- Que julgais? Já foi o verbete revertido com fundamento nenhum além do de que corrigir-se o português do Brasil é proibido. Quisesse eu verter os textos daquela miserável enciclopédia em «acordês» -- outra espécie de português do Brasil, afinal -- já os guardiães do templo rejubilariam. Parece, por conseguinte, que tem José Luís Porfírio à viva força de se sujeitar ao caco gráfico, até no resumozinho biográfico que lhe dedicaram na enciclopédia... «livre».
 Importante, muito importante, foi ouvir da prof.ª Alzira Seixo que com esta espiral de demência acabámos reféns da corporação das editoras. Veja o benévolo leitor (esta não me tinha ocorrido): as editoras foram contra a mudança da ortografia -- e até deram parecer desse sentido à Assembleia -- num dado momento em que estavam bem sentadas nos manuais, gramáticas, dicionários &c. que tinham na manga; mudá-los dava trabalho escusado que mais soava a desperdício, logo, prejuízo. Pois parece que o governo, o Ministério da Educação, ou um galo no poleiro, lhes deu garantia de que a mudança do português era para vingar e que, em caso de retrocesso, haviam as editoras de ser regiamente indemnizadas. Dá quase impressão de que obraram aí uns agentes nacionais de import/export em vender cá a grafia brasileira aos editores de manuais escolares, dando-lhe de caminho garantia das condições de mercado no médio prazo (a moratória de seis anos, estais a ver!) e com cláusulas de salvaguarda sobre lucros cessantes caso o Acordo borregasse. Uma espécie de contrato blindado como os das P.P.P., bem vedes.
 Me espanto às vezes, outras me avergonho dizia o impoluto Sá de Miranda. Com estes tratantes hoje, nem uma nem outra. Há muito que os restos de Portugal definham na inversa do vigor dos vigaristas que os pilham. Frustra-os com certeza (aos vigaristas) terem torpedeado os negócios de Angola e Moçambique com a voraz pilhagem nacional (empreendedores incompetentes, afinal...). Não é isto bom augúrio. Hão-de procurar por tudo reduzir aquelas perdas e o modo será espremerem o negócio onde ele ainda pode pingar; em Portugal, claro -- esse único rincão do mundo que serve de pasto a acorditas e seus «acordos». Cuido que assim se percebem melhor as explicações vagas e chochas deste governo às perguntas dos deputados açorianos acerca da lama cacográfica em que nos afundou a ganância e a vigarice governante. Assim também parecem fazer mais sentido a errância, e sobretudo os silêncios, dos Viegas, Cratos, Portas e quejandos aos apelos sensatos de eminentes cidadãos ou de ponderados pais e encarregados de educação. Das duas uma: ou lhes falece a coragem de denunciar a mescambilha com as editoras ou estão metidos nela. Tertium non datur. Na inércia prossegue o crime de lesa-pátria.
 Com este inescrupuloso negócio não admira o caos exposto pela prof.ª de Português Ana Silva, da Escola da Amadora: os alunos perdem-se entre o português e o acordês, numa espécie de misto dos dois em simultâneo; a autoridade científica dos professores é arruinada pelas incogruências do acordês imposto, que caucionam aberrações de egípcios num Egito sem pê; o reflexo da nova escrita absurda sobre a oralidade dos alunos nota-se em enunciações como espetral por espectral ou têtos por tectos; a confusão campeia na escrita com relacção por relaçãocaptivo por cativo (são exemplos colhidos dos alunos pela sua professora de português) e, imaginai, com excetion e recetion por exception e reception ou outras tais na escrita do inglês. Pois que importa?...
 Enquanto o desastre alastra, quem rapidamente podia ter mão nele faz de autista. Sobra toda a gente que não pediu, não precisava, e não queria nenhum acordo ortográfico, que são (somos) quase todos em Portugal.
 Ora quase todos, juntos, em Portugal podem neste particular talvez mais do que manifestarem-se. Se cada um preencher o impresso a assinar a Iniciativa Legislativa de Cidadãos (uma proposta de lei de revogação do nefando Acordo Ortográfico) e ajudar a submetê-la ao plenário da Assembleia quem no governo o poderá ignorar? O impresso, depois de preenchido e assinado, pode ser digitalizado e remetido por correio electrónico para ilcao_assinaturas@cedilha.net. Também pode ser remetido pelo correio postal.
 Exorto o benévolo leitor a que o faça, caso ainda não haja assinado. Se põe reservas acerca dos seus dados pessoais, n.º de B.I., n.º de eleitor, &c., eles são exigidos por lei em inciativas legislativas de cidadãos, e necessários para as assinaturas serem válidas e aceitas na Assembleia. O responsável pela guarda das assinaturas até se chegar às 35 000 comprometeu-se perante a Comissão Nacional de Protecção de Dados a não divulgar e não tratar informaticamente ou de algum outro modo e para qualquer outro fim os dados pessoais dos subscritores. Só são divulgados os perfis dos subscritores que o autorizam.
 Não sou dado a militâncias mas, com o português tão mal parado (literalmente, pois se já para é pára e pára é para), não há nada mais legal do que uma lei para extirpar uma ortografia em todos os sentidos fora-da-lei.

NÃO AO CACO GRÁFCO! LEIA, ASSINE, DIVULGUE!

(Revisto em 21/3 às 11h da manhã.)

Escrito com Bic Laranja às 21:59
Verbete | comentar
6 comentários:
De Paulo Cunha Porto a 21 de Março de 2013
Meu Caro Bic,
tanta promoção do para é tudo menos para...doxal, o Próprio Amigo dá no texto a razão:
estes brilhantes pedagogos, digo pedagagás, devem, com a acefalia preguiçosa e característica, ter pensado que rachar as criancinhas entre o acordês e o Português era maneira enxuta de lhes ensimar uma língua (a) mais.

Abraço
De Bic Laranja a 21 de Março de 2013
O meu prezado Paulo decompõe magnificamente o caso. Sucede que a (e)laboração daqueles bestuntos é unicamente oleada a cifrões. A educação das crianças não os move. Aliás, vê-se do estrago.
Abraço :)
De vsc a 21 de Março de 2013
"quem rapidamente podia ter mão nele faz de autista"

Faz de cobarde, que a maçonaria, feroz adepta do "acordo" ( siga o critério e não terá surpresas nem nas adesões nem na maior parte dos silêncios), que a maçonaria chama a este país coisa sua que se pode oferecer a amigos e não gosta que a contrariem.
De Bic Laranja a 21 de Março de 2013
Sim. Sente-se a obra dos filhos da viúva. Haverá maneira de nos livramos de tudo isto?
Cumpts.
De Joe Bernard a 28 de Março de 2013
A propósito da imagem: Nunca percebi terem escrito STOP em vez de PARE.
Se era por causa dos estrangeiros, o formato e cor do sinal dizem tudo.
Aqui tenho de elogiar o Brasil, onde o idiota STOP é o coerente PARE!
De Bic Laranja a 28 de Março de 2013
Há coisas que se não explicam. No Quebeque os sinais dizem «Arrêt»; em França dizem «stop».
Cumpts.

Comentar

Maio 2020

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
21
23
25
26
27
29
30
31

Visitante


Contador

Selo de garantia

pesquisar

Ligações

Adamastor (O)
Apartado 53
Arquivo Digital 7cv
Bic Cristal
Blog[o] de Cheiros
Carmo e a Trindade (O)
Chove
Cidade Surpreendente (A)
Corta-Fitas(pub)
Delito de Opinião
Dragoscópio
Eléctricos
Espectador Portuguez (O)
Estado Sentido
Eternas Saudades do Futuro
Fadocravo
Firefox contra o Acordo Ortográfico
H Gasolim Ultramarino
Ilustração Portuguesa
Lisboa
Lisboa de Antigamente
Lisboa Desaparecida
Menina Marota
Mercado de Bem-Fica
Meu Bazar de Ideias
Paixão por Lisboa
Pena e Espada(pub)
Perspectivas(pub)
Pombalinho
Porta da Loja
Porto e não só (Do)
Portugal em Postais Antigos(pub)
Retalhos de Bem-Fica
Restos de Colecção
Rio das Maçãs(pub)
Ruas de Lisboa com Alguma História
Ruinarte(pub)
Santa Nostalgia
Terra das Vacas (Na)
Tradicionalista (O)
Ultramar

arquivo

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

____